Jornalistas com deficiência compartilham suas histórias

porRomaniia Gorbach
Nov 4, 2020 em Diversos
Amid Gasanguleev

A Organização Mundial da Saúde (OMS) relata que aproximadamente 15% da população global, ou 1 bilhão de pessoas, tem alguma forma de deficiência.

No entanto, não existem estatísticas relevantes disponíveis sobre quantos jornalistas vivem com deficiência. Mas a ausência de dados estatísticos não equivale à ausência de pessoas cujas histórias desempenham um papel crítico tanto na compreensão do setor quanto na visão de um futuro mais inclusivo.

As histórias de jornalistas com deficiência contam não apenas os desafios que enfrentam, mas também o sucesso de seu trabalho no mundo da mídia, apesar das limitações existentes.

A IJNet entrevistou jornalistas da Europa Oriental e Sul do Cáucaso sobre seu trabalho. Suas histórias estão abaixo.

Maxim Miftakhov

Chisinau, Moldávia

“Uma vez, minha bengala foi roubada”, diz Maxim Miftakhov, jornalista de Chisenau, Moldávia. “No boletim policial, eles escreveram que eu era uma ‘pessoa deficiente’. Eu os corrigi, dizendo ‘pessoa com necessidades especiais’”.

“‘Deficiente’ soa ofensivo para mim”, acrescenta. “Cabe a nós decidir.”

Miftakhov começou sua carreira em 2014, na mídia online russa Sputnik, como repórter de notícias. Hoje, ele trabalha como jornalista independente e cobre questões sociais para o Komsomolskaya Pravda, uma publicação na Moldávia.

Miftakhov tem uma forma leve de paralisia cerebral, que torna difícil controlar seus movimentos. Em todo o mundo, mais de 17 milhões de pessoas vivem com o mesmo diagnóstico.

“O mais importante é querer expandir seu potencial”, diz ele. “Eu conheço colegas do Uzbequistão e da Ucrânia cuja situação é pior. E ainda assim, eles trabalham. Claro, haverá erros e olhares maliciosos. Não preste atenção. Se a pessoa é preconceituosa, o problema é dela.”

Fora do trabalho, Miftakhov pratica dança de salão competitiva. Ele é um vencedor de dois prêmios do campeonato europeu de dança de salão competitiva.

“Não espere ser como uma outra pessoa”, diz ele. “O jornalismo é um grande motivador por si só. Até ajuda a superar os momentos difíceis da vida.”

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Maxim Miftakhov participa de competições de dança de salão.

[Leia mais: Como tornar notícias digitais mais acessíveis para públicos com deficiências]

Marina Stashina-Neymet

Ucrânia

Ao contrário de Miftakhov, a jornalista ucraniana Marina Stashina-Neymet prefere se denominar uma "pessoa com deficiência".

“Uma ‘necessidade especial’ pode ser o desejo de beber café”, diz Stashina-Neymet, descrevendo por que ela prefere não usar o termo. Ela prefere a linguagem que prioriza a pessoa porque “A pessoa deve estar na frente e no centro”.

Marina nasceu no leste da Ucrânia. Ela trabalhou no Zakarpattya.net e Karpatsky Observer, e agora trabalha como freelancer.

Seus problemas de visão começaram quando ela ainda era uma criança. Seu olho direito enxerga apenas a luz circundante, enquanto seu olho esquerdo funciona bem, e ela o usa para ler e escrever.

Dados da OMS sugerem que cerca de 2,2 bilhões de pessoas vivem com algum tipo de deficiência visual ou cegueira, mas não há estatísticas oficiais na Ucrânia. Uma estimativa aproximada sugere que mais de 70.000 ucranianos têm algum nível de deficiência visual.

“As dificuldades que encontro estão no mundo exterior”, diz Stashina-Neymet. “Na Ucrânia, o mundo está mal adaptado às minhas necessidades. Não temos cultura de eventos públicos inclusivos, por exemplo.”

Depois de ser contratada pela primeira vez na indústria de mídia, ela imediatamente adaptou o computador às suas necessidades. Por exemplo, ela aumentou o zoom e adicionou contraste para melhor poder trabalhar com sites e documentos.

“Eu uso uma lupa para trabalhar com fotos”, explica Stashina-Neymet. “Esta ferramenta está disponível para todos os dispositivos compatíveis com Windows. Meu marido, que é cego, tem mais dificuldade em trabalhar com fotografias e documentos PDF. Para ele, eu converto PDF em Word e descrevo as imagens em palavras.”

“Se você é discriminado no trabalho, reclame e fale com organizações que protegem os direitos dos jornalistas e os direitos das pessoas com deficiência”, diz ela. “Não desista.”

[Leia mais: 7 recursos para tornar suas matérias mais inclusivas]

Vladimir Pyrig

Lviv, Ucrânia

“Adoro ouvir rádio desde pequeno. Na terceira série, perguntei como se chamam as pessoas que trabalhavam no rádio e me disseram que eram jornalistas. Foi assim que eu descobri o que deveria estudar", disse Vladimir Pyrig, editor de notícias de Lviv, Ucrânia.

Pyrig simplesmente se autodenomina um "jornalista cego".

Ele nunca trabalhou no rádio porque escolheu o jornalismo online. Desde 2014, ele trabalha em um dos sites regionais mais populares da Ucrânia, o Zaxid.net.

Além disso, Pyrig está traduzindo o programa "Be My Eyes" para o ucraniano, que permite que pessoas cegas recebam assistência remota de voluntários com visão.

“Posso ligar para os voluntários a qualquer hora e quem estiver online no momento recebe uma notificação”, explica. “Às vezes peço que me ajudem a fazer a leitura do medidor elétrico. Com a ajuda da minha câmera, o voluntário pode ver tudo o que está acontecendo ao meu redor.”

Pyrig recomenda muitos programas para outros jornalistas cegos, incluindo Voice Aloud Reader, que usa um sintetizador de voz para ler livros e arquivos em qualquer formato e idioma; Navegador GPS Lazarillo, que informa o usuário sobre tudo o que está ao seu redor; Seeing Assistant, um aplicativo polonês que verifica códigos de barras, códigos QR e verifica o brilho; CashReader para identificar dinheiro e Vision Bot para trabalhar com fotografias.

As redes sociais apresentam dificuldades porque cada site é um pouco diferente. De acordo com Pyrig, o desafio é que você tem que memorizar as combinações de teclas que dão acesso às várias funções do computador e dominar todos os instrumentos oferecidos por cada plataforma de mídia social específica.

“Cada site tem seu próprio layout específico”, diz Pyrig. “O usuário deve estudar o layout do site da mesma forma que estuda os móveis de sua casa: que seções existem, onde estão localizadas, que títulos vão com as notícias. Não tenha medo de experimentar.”

Amid Gasanguleev

Baku, Azerbaijão

“Eu simplesmente não pensei que algo assim pudesse acontecer comigo. Concluí meus estudos na faculdade de direito, servi no exército, consegui meu primeiro emprego na TV e depois sofri um acidente de carro”, diz Amid Gasanguleev, apresentador de TV e designer gráfico, chefe do canal de TV ARB. “Já se passaram dez anos. O acidente de carro mudou minha vida completamente.”

Desde os 28 anos, o jornalista de Baku, no Azerbaijão, usa uma cadeira de rodas. De acordo com a OMS, 75 milhões de pessoas no mundo usam cadeiras de rodas diariamente: isso é 1% da população mundial.

Gasanguleev usou sua plataforma como jornalista para compartilhar histórias sobre pessoas com deficiência como apresentador de seu próprio programa de TV, Biz Birik

“Falo sobre suas deficiências”, diz ele. “Meus convidados sabem que eu os entendo.”

Mas, ele acrescenta, às vezes até como o apresentador do programa ele encontra desafios. “Às vezes vou para a sessão de fotos e há uma escada no prédio. Não posso subir, embora eu seja o apresentador”, diz Gasanguleev. “Eu nunca me permiti pensar que vou desistir do meu emprego por causa de situações como esta. Se há algo que eu não posso fazer, peço ajuda.”

Ele mesmo faz grande parte do trabalho de seu programa, buscando convidados, filmando e editando. Ele aconselha outros jornalistas visuais: “Aprenda a controlar o ambiente em sua cabeça, como se você já estivesse editando a história. Tudo isso vem com a prática.”

Além do jornalismo, Amid é atleta profissional. Ele é o técnico principal da equipe de ciclismo paraolímpico do Azerbaijão e está trabalhando para desenvolver o esporte no país.

“Eu estava numa avenida em Baku, quando vi uma criança em uma cadeira de rodas que olhava enquanto outras crianças andavam de bicicleta. Foi quando decidi estabelecer uma organização de ciclismo para pessoas com deficiência. Comprei os componentes e, usando um diagrama, fiz a primeira bicicleta paraciclista do Azerbaijão. Usei-a para participar da maratona, ‘correndo’ 25 km com os braços. Pretendo comprar várias bicicletas de paraciclismo profissionais para uso público, para que as pessoas possam usá-las gratuitamente.”


Romaniia Gorbach é jornalista e instrutora de mídia ucraniana que trabalhou em rádio, mídia impressa e online.

Imagem principal: Amid Gasanguleev trabalhando, cortesia de Gasanguleev.