Dicas para cobrir as eleições nos Estados Unidos

porHéloïse Hakimi Le Grand
Oct 20, 2020 em Temas especializados
Máscaras e cédulas de voto por correio

A cobertura de eleições pode variar significativamente de um ciclo para outro. Mas uma pandemia global, o aumento da polarização e a disseminação da desinformação transformaram a eleição presidencial dos Estados Unidos de 2020 em um evento sem precedentes difícil para qualquer jornalista. De restrições de viagem a ataques diários à sua profissão, os repórteres tiveram que se adaptar.

Em um webinar da IJNet e Muck Rack, Carrie Budoff Brown, editora da revista Politico, e Bricio Segovia, correspondente na Casa Branca do MVS Noticias do México, examinaram os desafios que os jornalistas enfrentam neste ciclo eleitoral. Eles exploraram as dificuldades de reportar para um público estrangeiro, a importância de descobrir ângulos novos e as melhores práticas para combater a desinformação.

 

 


Aqui estão algumas dicas que destacamos:

Sobre a lição da eleição passada

O painel concordou que expandir sua rede de fontes foi uma lição importante aprendida nas eleições de 2016.

Segovia enfatizou a importância de conversar com pessoas de origens diversas, com pontos de vista e experiências divergentes, para poder pintar uma representação justa do país. “Washington é uma bolha que não representa o país inteiro, então viaje o máximo que puder. Fale com as pessoas mais diversas que encontrar para ter diferentes pontos de vista e explicar ao seu público o que está acontecendo no país como um todo”, disse ele.

Brown, que cobriu a campanha presidencial de Barack Obama em 2008 e trabalhou anteriormente como correspondente da revista Politico na Casa Branca, aconselhou jornalistas a permanecerem céticos o tempo todo e a se absterem de reportar um resultado final que eles presumissem que aconteceria. “Eu sempre digo aos meus repórteres para testar suas suposições”, disse ela.

Brown acrescentou que é importante para os repórteres cultivar uma variedade de contatos. “Você precisa de uma rede de fontes diversificada: geograficamente, profissionalmente, racialmente, etnicamente”, disse ela. Isso ajudará a garantir que sua reportagem seja bem informada e livre de pontos cegos não intencionais. “Quando você aborda a notícia, tem que lançar uma rede mais ampla apenas para se certificar de que não seja pego em uma câmara de eco. O viés de confirmação pode se infiltrar em uma eleição nacional como esta.”

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Sobre a cobertura das eleições nos EUA para um público fora dos EUA

Segovia, um âncora de notícias premiado que reportou em mais de 30 países ao longo de sua carreira, disse que os correspondentes estrangeiros precisam ser capazes de traduzir conceitos culturais e de linguagem críticos. “O básico do jornalismo e de ser correspondente é tentar explicar coisas que normalmente são difíceis de entender, da forma mais simples possível”, disse ele.

Essa tarefa tem sido mais difícil sob a administração Trump. “Quando o presidente tuíta, ele usa muitas gírias, muitos trocadilhos que são extremamente difíceis de traduzir [...] para um público de língua espanhola. A essência da mensagem pode se perder”, disse ele.

Segovia também observou que, como uma equipe formada por uma pessoa, ele pode ter mais controle sobre a notícia que está reportando. No entanto, isso também vem com seu próprio conjunto de desafios. Muitas vezes, ele não pode apurar a campanha eleitoral em outros pontos nos Estados Unidos, por exemplo, porque precisa cobrir o presidente em Washington. Isso por si só torna mais difícil cobrir de ambos os lados da campanha.

Sobre descobrir ângulos únicos

Brown passou vários anos desenvolvendo a capacidade de reportagem da sua organização de notícias em vários estados críticos de campo de batalha. A redação agora tem escritórios oficiais em sete estados e repórteres em mais de uma dúzia. Ela aproveitou esta vantagem única durante este ciclo eleitoral. Metade dos repórteres políticos nacionais do Politico são repórteres principais baseados na Flórida, Michigan, Illinois, Carolina do Norte, Pensilvânia e em toda a Nova Inglaterra.

“Esses repórteres têm fontes profundas nesses estados. Esses não são repórteres que pegamos em Washington e colocamos em algum estado aleatório. São repórteres que fizeram reportagens ao longo de suas carreiras nesses locais”, afirmou. “Por décadas, as publicações nacionais não tinham gente nos estados. Acho que vai ter que mudar no futuro.”

Brown exortou todos os repórteres a ir atrás de histórias que outra pessoa ainda não escreveu. “A missão e o mandato dos meus repórteres é que, se foi reportado, não vamos escrever. Vamos encontrar algo novo para dizer sobre isso ou esperar até que façamos. Acho que isso é essencial para se diferenciar em um ambiente de mídia sobrecarregado”, disse ela.

Segovia acrescentou: “Sempre digo que um jornalista vale o que vale sua lista de contatos”. Construir sua rede de fontes é fundamental para encontrar histórias únicas, disse ele.

[Leia mais: O papel fundamental dos jornalistas locais durante a pandemia]

Contra a desinformação

Brown enfatizou a importância de ser apartidária e voltada para os fatos para combater a desinformação. “Se liderarmos com fatos, podemos fazer nossa parte para combater o que quer que esteja lá fora”. Ela acrescentou: “Todos nós temos este grande privilégio como jornalistas de falar para o público e exigir respostas das fontes. Como podemos manter individualmente essa credibilidade para que possamos continuar a fazer nosso trabalho e talvez um dia virar a maré? Talvez eu esteja sendo otimista, mas tudo o que podemos fazer individualmente é um trabalho melhor: basear-se em fatos e divulgar isso ao mundo.”

Hoje em dia, a desinformação costuma vir da Casa Branca, observou Segovia. “Há uma campanha para desacreditar a mídia que critica o governo, chamando-a de fake news”, disse ele.

Ele explicou que, embora haja muito burburinho em torno da verificação de fatos, os jornalistas sempre foram verificadores. No entanto, nos últimos quatro anos, eles tiveram que verificar os fatos mais do que nunca. “Não podemos deixar o presidente decidir a agenda de notícias”, disse Segovia. “Nosso trabalho é decidir se tudo o que [a Casa Branca] está promovendo na agenda de notícias é relevante. Se não for, apenas não reporte.”

O painel concordou que a educação midiática é um passo essencial para combater a desinformação. “Precisamos educar as novas gerações de consumidores de notícias. Qual é o papel de um jornalista? Por que o jornalismo é importante? Por que é importante verificar várias fontes?” disse Segovia. Brown acrescentou: “Não acho que seja tarde demais para a educação midiática. No entanto, acho que é uma batalha difícil."

Segovia, que disse ter sido atacado várias vezes enquanto fazia reportagens nos EUA, observou que a crescente desconfiança da mídia por parte do público gerou preocupações com a segurança. Ainda assim, ele continua esperançoso. “Precisamos lembrar que também existem muitas pessoas que acreditam em nós e que acreditam que temos um papel essencial na sociedade.”

Efeitos da COVID-19 na cobertura eleitoral

“O mundo em que vivíamos antes de março em termos de como cobríamos a campanha simplesmente não existe mais”, disse Brown. As viagens são limitadas, assim como o contato com os eleitores. Ter repórteres em todo o país, especialmente em estados indecisos, é uma forma de compensar as mudanças. “Estamos contando mais com esses repórteres nos estados para reportar intensamente o que está acontecendo, a fim de fornecer uma imagem melhor de como esta corrida está indo nacionalmente.”

Segovia disse que a COVID-19 mudou drasticamente seu trabalho como correspondente estrangeiro, começando pela Casa Branca. A interação com funcionários do governo e outros repórteres é limitada. O acesso ao presidente agora é frequentemente reservado apenas para o pool de imprensa da Casa Branca, e trabalhar nas instalações da Casa Branca não é mais possível.

Como Segovia trabalha sozinho, viajar costumava ser sua única opção para cobrir desenvolvimentos relacionados a eleições em outros estados. Durante a pandemia, ele agora depende mais fortemente das mídias sociais para contatar eleitores e outras fontes. “A mídia social tem sido a janela para qualquer jornalista [...] alcançar milhões de pessoas”, disse Segovia. “Você pode encontrar boas histórias nas redes sociais. Você pode construir uma ótima história alcançando as pessoas, independentemente de onde esteja.”

Brown alertou que o uso da mídia social, no entanto, pode levar ao preconceito, pois as únicas pessoas com quem você vai falar são as que optam por isso. “Se você está em uma cidade pequena ou área rural, [...] eu tentaria ir a qualquer lugar onde ainda houvesse pessoas reunidas.”


Héloïse Hakimi Le Grand é estagiária de comunicação do ICFJ.

Imagem sob licença CCno Unsplash por Tiffany Tertipes