Dicas e fontes para cobrir o tráfico mundial de vida selvagem

porAldem Bourscheit
Aug 31, 2020 em Temas especializados
Quatro araras-vermelhas em caixa de papelão

Além das crises climáticas, oriunda do desmatamento e da queima desenfreada de petróleo e outros combustíveis fósseis, e sanitária, provocada pela COVID-19, outra dor de cabeça global é a perda acelerada de biodiversidade. 

Animais, plantas e outros seres são peças da imensa máquina natural que produz água e ar limpos, renova solos e mantém polinizadores, controla pragas e doenças e sustenta inúmeras economias. Pesquisadores apontam que uma possível extinção em massa de vida selvagem está fortemente amarrada à destruição de florestas e outros ambientes naturais pelo avanço da agropecuária e das cidades, à caça e outras ações humanas. Mas não podemos mais escantear os impactos do tráfico sobre a redução da quantidade e até a eliminação de inúmeras espécies. 

O tráfico de vida selvagem é um dos crimes que mais movimenta dinheiro no mundo, ladeado pelos mercados ilegais de drogas e armas. Mas as cifras que impressionam e até estimulam novos traficantes podem ser apenas a ponta do iceberg. Seja nos principais “fornecedores de espécies”, como Brasil e outros países tropicais, ou nos principais mercados internacionais, Estados Unidos e Ásia, a fiscalização e o registro dos ilícitos são precários.

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Este ano, um relatório da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e das ONGs Traffic e União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN, em inglês) não só comprovou a pindaíba brasileira no combate ao tráfico de vida selvagem como mostrou que a Amazônia é fonte de intenso comércio ilegal para dentro e fora do país

O documento mostra que sapos e cobras, jacarés, tartarugas, aves, macacos e grandes felinos são vendidos numa grande feira livre. Algumas espécies estão ameaçadas de extinção. No Cerrado, outra grande região natural brasileira, populações de aves como curiós, bicudos, araras e papagaios encolhem pela ação de traficantes.

Animal silvestre

Entidades internacionais são fontes estratégicas para uma cobertura sobre tráfico de vida selvagem. Reúno aqui uma lista de organizações internacionais que jornalistas focados em meio ambiente devem seguir:

No Brasil, ONGs como SOS Fauna e Freeland atuam contra o tráfico de vida selvagem, inclusive em parceria com a Polícia Rodoviária Federal, Ibama e Polícia Federal. Ações dessas entidades rendem até notícias inusitadas, como meias recheadas de cobras norte-americanas despachadas pelo correio, em Recife (PE). Reportagens sobre o crime também podem ser conferidas em sites como O Eco e Fauna News.

papagaios

Além das notícias sobre apreensões

Apesar de fontes e canais qualificados nos níveis nacional e internacional, jornais, rádios e TVs convencionais não olham para o tráfico de vida selvagem continuamente. Espaços são reservados a eventuais relatórios científicos e às grandes apreensões em feiras, estradas, portos ou aeroportos

Uma possibilidade de pauta é investigar e expor fragilidades e brechas legais ou na atuação de agências de governo. Buscando dados via Lei de Acesso à Informação, consegui mostrar que milhares de animais também são confiscados anualmente no Distrito Federal brasileiro, mas que falhas nos registros impedem uma ligação direta com o tráfico. Ao mesmo tempo, o crime menosprezado pela legislação circula livre nas redes sociais, como revelei em reportagem do The Intercept Brasil

[Leia mais: Contexto é essencial ao reportar sobre povos indígenas e COVID-19]

 

Por seu caráter global, o tráfico de animais é uma pauta que demanda esforços de um jornalismo colaborativo transnacional. Jornalistas podem avaliar como diferentes legislações em cada país facilitam a circulação de bichos e planta, seguir a rota do dinheiro e até mapear os crimes

Prestar atenção a grandes cenários políticos, econômicos e sanitários também pode render boas reportagens. Por exemplo, o governo de Jair Bolsonaro reduziu a fiscalização contra crimes ambientais em todo o Brasil. Orçamento e pessoal de agências governamentais estão em queda livre e um decreto publicado de abril de 2019  aliviou a aplicação de multas para delitos contra a natureza. 

Especialistas reconhecem que a fragilização da fiscalização provocada também pela COVID-19 criou um ambiente ainda mais favorável ao tráfico de vida selvagem. “Durante a quarentena parece que os traficantes estão com maior sensação de impunidade. Eles querem mais é vender, suprir a demanda e lucrar”, me contou Juliana Ferreira, diretora-executiva da Freeland Brasil, em reportagem ao portal InfoAmazonia.

Por outro lado, a pandemia abriu os olhos do mundo sobre riscos das zoonoses ligadas ao consumo de animais selvagens, disse Ferreira, que é doutora em biologia genética. Ela avaliou que uma das medidas para evitar novas pandemias como a da COVID-19 é “proibir o comércio global de fauna silvestre”, pois surtos que a humanidade enfrentou no passado, como o ebola (1976) e as síndromes respiratórias aguda grave (2003) e do Oriente Médio ( 2012) “estão intrinsicamente relacionados à forma como exploramos a fauna silvestre”.

Como vemos, não faltam motivos para jornalistas cumprirem cada vez mais seu papel social de vigilância em questões sobre a vida selvagem.


Aldem Bourscheit é jornalista independente baseado em Brasília (DF), focado em histórias sobre conservação da natureza, ciência, comunidades tradicionais e indígenas. Colabora com veículos de comunicação e organizações não governamentais do Brasil e do exterior. Membro da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e da Comissão sobre Educação e Comunicação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).

Imagens: araras-vermelhas (principal), jupará e papagaios. Crédito das imagens: SOS Fauna