Superando desafios de reportagem sobre refugiados durante a pandemia

May 25, 2021 em Temas especializados
Barco destruído na areia

A organização-matriz da IJNet, o ICFJ, fez parceria com o Projeto de Jornalismo do Facebook no Programa Reporting on Refugee Communities Amidst a PandemicEste artigo é o segundo de uma série de três partes que foca na cobertura jornalística dos participantes do programa. Leia o primeiro artigo aqui.


A COVID-19 exacerbou as condições já difíceis em muitos países do Oriente Médio e do Norte da África — especialmente os que vivenciam problemas econômicos e conflitos armados. Essas condições costumam ser piores para grupos vulneráveis, em situação de pobreza e refugiados.

Em um programa de treinamento do Projeto de Jornalismo do ICFJ-Facebook, jornalistas de países da região produziram matérias profundas e comoventes com foco nos impactos da COVID-19 nas comunidades de refugiados. Aqui está um panorama de projetos de reportagem no Iêmen, Iraque, Líbia e mais, e os desafios que os jornalistas enfrentaram para realizar suas reportagens.

Iêmen

A jornalista freelance Sahar Mohamed Abdul Razzaq produziu uma reportagem publicada no Al-Mushahed sobre financiamento internacional distribuído no Iêmen para enfrentar a COVID-19. Razzaq disse que teve dificuldades para acessar os campos de refugiados devido às condições inseguras. A comunicação com organizações que trabalham com pessoas deslocadas e refugiados também foi um desafio.

A jornalista Rania Farhan noticiou a situação da mulher em uma região carente de serviços básicos de saúde. Ela viajou longas distâncias para entrevistar refugiados pessoalmente, o que as questões de segurança no país tornaram mais desafiadoras. Sua reportagem final foi publicada no canal de notícias do Iêmen, Belqees TV

A reportagem do jornalista freelance Rafat Almamary, intitulada "Pessoas marginalizadas do Iêmen: entre o inferno da guerra e a pandemia", foi publicada no Al-Mushahed. “As dificuldades mais importantes que encontrei durante a preparação da matéria foi que a principal fonte infectada com o coronavírus tinha medo de aparecer na mídia”, disse ele. “Outros desafios incluíram as condições de segurança e longas distâncias para fotografar os campos de deslocados, bem como a proximidade com as linhas de fogo e confrontos.”

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O jornalista Bassam Al-Qadhi publicou a matéria no Al-Ayyam, "Refugiados no Iêmen enfrentam o coronavírus sem água". Entre os desafios, Al-Qadhi lutou para obter a aprovação das autoridades de segurança para filmar nos campos de refugiados.

Em um documentário curto, o jornalista Haitham Alqaoud destacou a vida de refugiados africanos no Iêmen e como eles chegaram ao país. Ele compartilha suas histórias à luz da COVID-19, que aumentou o sofrimento de iemenitas e refugiados. Alqaoud lidou com problemas de conectividade com a internet do Iêmen, o que tornou a comunicação com outras pessoas mais desafiadora. Ele também teve dificuldades em obter autorizações que lhe permitissem fotografar os campos e não recebeu resposta das agências da ONU em relação ao seu pedido de viajar aos campos para realizar entrevistas com refugiados.

O jornalista Abeer Maresh produziu uma reportagem sobre refugiados no Iêmen enfrentando o coronavírus quando mais da metade dos médicos (52%) na governadoria de Taiz migraram para fora da área devido à guerra em curso no país. A migração de médicos agravou ainda mais a crise, tornando ainda mais difícil para os refugiados na região receberem cuidados adequados. Esse tem sido o problema mais proeminente durante a pandemia, explicou Maresh, observando que os residentes nos campos não sabem como se proteger contra a propagação de epidemias como o coronavírus.

Iraque 

A jornalista e cineasta Farah Adnan Raoof Al-Rubaye produziu um podcast investigativo de 30 minutos, publicado pela Raseef22, que explora o impacto econômico da pandemia sobre refugiados sírios e palestinos dentro e fora dos campos no Iraque. “A pandemia impôs restrições ao movimento, além das dificuldades criadas por alguns órgãos oficiais que exigem um pedido oficial antes de realizar qualquer entrevista”, disse ela sobre os desafios que enfrentou ao fazer a reportagem.

A jornalista Sanar Hasan escreveu "Exploração, assédio e crime: detalhes de crianças mendigando nas ruas de Bagdá", publicado na Al-Jazeera. “Enfrentei dificuldades com a relutância das famílias de crianças deslocadas em incluir seus filhos em qualquer reportagem ou em falar sobre suas condições de trabalho”, disse Hasan. “[As famílias] também temiam as gangues para as quais as crianças trabalham.”

A jornalista Inass Halim Dakhel  produziu uma reportagem de vídeo que examina os efeitos da pandemia na saúde mental e física de mulheres deslocadas no campo Baharka, no governo de Erbil, no Iraque. A reportagem foi transmitida no Canal Satélite Al-Rasheed. Com base em Bagdá, Dakhel teve dificuldades para chegar ao acampamento e encontrar mulheres que estivessem dispostas a discutir seu sofrimento diante das câmeras. Ela também teve dificuldades para se comunicar com o fotógrafo enquanto ele trabalhava em Erbil, a mais de 300 quilômetros de distância.

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Líbia

A jornalista Ibtisam Agfer relatou os efeitos da pandemia no campo de refugiados Tawergha em Benghazi para o Africa Gate News. Sua história incorpora texto e fotos. Para ela, a situação mais difícil que enfrentou foi encontrar refugiados que estivessem dispostos a falar, disse ela, já que muitos no campo recusaram. Certa vez, Agfer foi até mesmo expulsa do acampamento.

Turquia

Nihad Dahman, jornalista e cineasta radicada na Turquia, relatou sobre pessoas deslocadas durante a pandemia. Ela explicou como foi difícil entrar em contato com pessoas infectadas com o vírus para falar sobre suas experiências. Outro desafio foi lidar com departamentos governamentais e obter as autorizações necessárias para poder realizar suas reportagens.

Tunísia

O jornalista tunisiano Mohamed Balti produziu uma reportagem de vídeo para a Rádio Tunisienne sobre a experiência de um refugiado se integrando com sucesso à comunidade local. No artigo, Balti explora como os refugiados podem se beneficiar de programas de assistência humanitária.

Líbano

No Líbano, o artigo do jornalista Tarek Abd Elgalil, "Mulheres refugiadas sírias são assediadas com casamento precoce no Líbano: Privação de educação e uma tragédia", publicado por Daraj, explora como a COVID-19 levou algumas famílias a forçarem suas filhas menores de idade a abandonar a escola e casar para economizar despesas. Entre os desafios que enfrentou, o jornalista teve que navegar pelo bloqueio total do Líbano durante a pandemia. Ele também achou difícil identificar refugiados dispostos a ser entrevistados sobre um assunto tão delicado.


Sarah Abdallah é estudante de doutorado em linguística e comunicação, com formação em direito, ciências políticas e engenharia linguística. Ela é tradutora de árabe da IJNet e repórter do l'Orient Le Jour.

Imagem com licença Creative Commons no Unsplash via Christopher Eden