Quando fotojornalistas devem intervir na cobertura de notícias urgentes?

porMandla Chinula
Apr 6, 2017 em Jornalismo multimídia

É responsabilidade do jornalista intervir em uma situação injusta ou deve se limitar a atuar como testemunha? Kevin Carter, Greg Morinavich, Sara Naomi Lewkowicz e R. Umar Abbasi estão entre os muitos fotojornalistas que foram acusados de não ter interferido para ajudar seus fotografados. Nos casos em que os jornalistas, como Sanjay Gupta da CNN, intervêm, eles correm o risco de serem rotulados como pouco profissionais e sem objetividade.

O fotojornalista sul-africano James Oatway foi uma vez criticado por não intervir e impedir assaltantes de baterem em um imigrante durante uma onda de ataques xenófobos em todo o país em 2015. Oatway capturou o ataque brutal contra o cidadão de Moçambique, Emmanuel Sithole. Em uma entrevista por e-mail, Oatway compartilhou algumas de suas experiências e pensamentos sobre interferir:

IJNet: Podemos dizer que você interveio duas vezes: primeiro tirando fotos de Sithole sendo atacado e segundo levando Sithole ao hospital após o ataque? Como você definiria o ato de intervir?

Oatway: Eu não acho que foi bem isso. Eu não intervim diretamente. Eu diria que minha presença lá era uma intervenção, em que quando os atacantes perceberam que eu estava lá, eles pararam o ataque e se afastaram. Foi só depois do ataque ter terminado que eu e meu colega levamos Sithole para o hospital -- o que pode ser visto como uma intervenção. 

Os atacantes de Sithole fugiram depois de perceberem que você estava tirando fotos. Acha que a presença de um fotógrafo tirando fotos pode ser usada como uma arma para intervir em uma situação?

Eles se afastaram quando me notaram. Eu não acho que a presença de alguém pode ser usada como uma arma para intervir. Você está lá para dar testemunho: às vezes sua presença pode não afetar a situação. Outras vezes pode ferir alguém ou pode ajudar alguém -- mas você está lá para fazer o seu trabalho, que é dar testemunho.

Tenho certeza de que concordaria que a sua aparência ou o que você tem como fotógrafo ajuda ou dificulta o acesso a um espaço ou a uma pessoa. Ser homem ou mulher, ter dreadlocks ou o cabelo raspado, ou falar uma determinada língua podem também afetar como os fotografados respondem a você. Acha que ser um fotógrafo branco em parte contribuiu para os atacantes terem fugido?

É possível. Eu acho que eles ficaram surpresos ao ver um cara branco naquela parte de Alexandra [uma região de Joanesburgo] tão cedo de manhã. Talvez eles pensaram que eu era um policial? Nós nunca saberemos com certeza.

Podemos dizer que um fotojornalista pode usar sua aparência física, ou qualquer outra vantagem que possa ter, para intervir em determinadas situações?

Eu não acho que um fotojornalista "deve" intervir em eventos em princípio. Nós não estamos lá para intervir, estamos lá para dar testemunho. Não podemos prever o que vai acontecer e certas situações podem desencadear uma resposta imprevisível pelo fotojornalista (que também é humano).

Que papel você acha que suas fotos de Sithole sendo morto cumpriram nos ataques xenófobos como um todo?

Bem, eu registrei o que vi e as fotos foram publicadas no jornal. Houve uma resposta maciça do público e o exército foi enviado para Alexandra no dia seguinte. Eu acho que as fotos evocaram uma resposta maciça que resultou em ação do governo e do público.

De que outra forma você já interferiu em uma situação além de tirar fotos?

Certa vez, intervim quando um membro sindical afiliado ao COSATU estava sendo espancado por membros da AMCU em Rustenburg. Tenho certeza de que iriam matá-lo. Quando vi, eu estava no meio tentando proteger o homem e gritando "para". Alguns outros fotógrafos ajudaram e a polícia dispersou a multidão.

Ajudei algumas pessoas feridas no Haiti após o terremoto e dei assistência a algumas crianças sendo pisoteadas em uma debandada em massa.

Qual seria seu conselho para jovens fotojornalistas, particularmente no processo de julgar como e quando intervir?

Lembre-se qual é o seu trabalho e por que você está lá. Lembre-se que você tem a responsabilidade de reportar o que vê. Se você vai intervir (o que eu não recomendo), provavelmente será uma decisão inconsciente dirigida pela adrenalina -- como as reações de "luta ou fuga". Você não tem muito controle nessas situações, então ou vai ou não. Tudo pode depender de que lado da cama você acordou ou se tomou uma xícara de café antes de ir para o trabalho.

Para ver o trabalho de Oatway, visite jamesoatway.com.

Imagem principa sob licença CC no Flickr via Davidlohr Bueso. Imagem segundária sob licença CC no Flickr via Emanuele.