O que esperar da COVID-19 em 2021?

porChanté Russell
Oct 26, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Coronavírus

Sete meses após o início da pandemia de COVID-19, ainda não está claro quando a vida poderá voltar mais ou menos ao normal.

O professor Gabriel Leung, epidemiologista e reitor de medicina da Universidade de Hong Kong, acredita que podemos estar apenas “na metade desta maratona muito, muito longa”.

Em nosso mais recente webinar, a diretora de engajamento de comunidade do ICFJ, Stella Roque, conversou com Leung sobre o que podemos esperar nos próximos meses, incluindo os efeitos do clima frio sobre o vírus no hemisfério norte, possíveis vacinas e esforços dos governos para reabrir as economias.

 

 

Seu conselho principal para jornalistas? “Faça uma boa reportagem de ciência. Deixe a ciência liderar o caminho. A única saída da COVID é pela ciência e acho que todos temos um papel a desempenhar”, disse Leung. “[Cientistas] buscam a verdade por meio do que sabemos melhor, aplicando métodos científicos diferentes. [Jornalistas] buscam a verdade -- ou revelam a verdade -- cobrindo a boa ciência.”

Abaixo estão os pontos mais importantes de Leung:

Sobre o inverno no hemisfério norte e a COVID-19

  • Acho que o que estamos vendo na Europa e na América do Norte é que, à medida que esses países do hemisfério norte estão entrando nos meses de inverno, temos o que chamamos de “forçantes sazonais”. Ou seja, os fatores sazonais de temperatura e umidade geram para o vírus em geral, mas incluindo o SARS-CoV-2 — o vírus que causa aCOVID-19 — um pouco mais de atividade, seja por se tornar mais viável por um período um pouco mais longo de tempo em superfícies ou por ser mais fácil de se propagar.

  • Você vê [o forçamento sazonal] com muitos vírus respiratórios e é por isso que vemos bastante atividade, geralmente para influenza, mas também por exemplo, no caso do VSR (Vírus Sincicial Respiratório) e, de fato, os quatro coronavírus humanos sazonais.

[Leia mais: Estudo global revela efeitos da pandemia no jornalismo]

Sobre diferenças entre a COVID-19 e SARS

  • Acho que precisamos parar de comparar diferentes epidemias ou diferentes surtos porque são únicos. Embora sejam tenham o mesmo nome e espécie (ambos são coronavírus), eles têm muito pouca semelhança um com o outro. Acho que provavelmente engana mais do que realmente agrega valor.

  • A SARS registrou uma contagem global de casos de quase 9.000. Só nos Estados Unidos, em um dia, você provavelmente terá quatro vezes esse número [com a COVID-19].

  • Você começa a transmitir [a COVID-19] provavelmente um ou dois dias antes de apresentar quaisquer sintomas. Talvez 30% a 40% das infecções secundárias ocorram antes mesmo de você sentir os sintomas, e provavelmente você é mais infeccioso no momento em que percebe e apresenta os sintomas pela primeira vez.

  • Não acho que podemos acabar com esse vírus... Muitos [cientistas] ou a maioria de nós pensam que teremos que viver com ele, em particular, a SARS-CoV-2, por um muito tempo. Pode muito bem se tornar o quinto coronavírus humano sazonal. 

Sobre vacinas

  • As vacinas de primeira geração, com a possível exceção de uma que conheço, realmente não  fornecem imunidade esterilizante. Ou seja, provavelmente não parariam a transmissão. Elas provavelmente não impedirão que você seja infectado, Mas o que fariam é que provavelmente o protegeriam de morrer da COVID-19 ou de ser hospitalizado por complicações graves decorrentes de sua infecção.

  • Provavelmente não será a bala de prata que muitos esperam. Mas eu acho que é muito necessário ter a vacina para proteger especialmente aqueles que estão sob risco muito alto de adoecer e possivelmente morrer pelas complicações derivadas.

[Leia mais: Lições da cobertura da pandemia na Itália]

Sobre a reabertura de comunidades e economias

  • Não acho que deveríamos estar fazendo concessões entre vidas e meios de subsistência. Acho que é uma falsa dicotomia. O que eu realmente acho é que o cabo de guerra triplo perene vai estar conosco por muito tempo. Trata-se da proteção da saúde, preservação econômica e o consentimento social implícito — ou o bem-estar emocional e a vontade [do público] de obedecer.

  • Precisamos, número um: usar a ciência para explicar o valor dos sacrifícios e, então, chegar a algum consenso como sociedade. Claro, esse consenso precisa ser forjado e facilitado pelo governo. Mas, em última análise, é uma decisão da sociedade quanto a, naquele ponto específico no tempo, quais seriam os sacrifícios que faremos de forma bastante explícita? Então teremos que fazer isso e, então, teríamos que estar prontos para trocar de posição quando a situação mudar.

  • Estar em bloqueio perene pelos próximos nove, 12, 15, 18 meses não é razoável, nem deveria se tornar concebível. O que precisamos fazer é encontrar uma maneira de manter algum grau — provavelmente não 100% em comparação com os níveis pré-COVID — mas encontrar algum grau de normalidade no funcionamento da sociedade e, em seguida, tentar ser inovadores e tentar fazer as coisas que não temos feito antes.

Sobre as respostas do governo à saúde pública

  • Não acho que deva haver uma falsa dicotomia entre as medidas de controle da saúde pública, que alguns podem rotular como draconianas, e a democracia liberal ... Não é só você que está doente e, portanto, sofre todas as consequências. É você em relação às pessoas ao seu redor, pessoas com as quais você entra em contato e pessoas que podem então pegar a doença de você.

  • É por causa da [possível propagação de doenças] que temos regulamentações de saúde pública — quer você esteja falando sobre sistemas totalitários ou as economias mais livres do mundo. Todos os estatutos do controle de saúde pública de doenças infecciosas têm, em algum grau, que colocar a saúde pública acima da vontade individual, nas devidas circunstâncias.


Chanté Russell é recém-formada pela Universidade Howard e estagiária de programas no Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês).

Imagem sob licença CC no Unsplash via Vincent Ghilione