Melhorando a diversidade e inclusão nas notícias

Jul 7, 2021 em Diversidade
pessoas na rua com bandeiras do orgulho trans e orgulho LGBTQIA+

Ao longo do ano passado, muitos meios de comunicação e associações pelo mundo intensificaram os esforços para melhorar as práticas em torno da diversidade e inclusão no ambiente de trabalho. A conferência deste ano da Online News Association (ONA21), que ocorreu em junho, trouxe uma variedade de sessões sobre estas questões.

Desde o entendimento da diversidade, equidade e inclusão (DEI) como ingredientes chave para o crescimento sustentável até o compartilhamento de dicas para acessibilidade na web, profissionais de mídia discutiram uma gama ampla de tópicos sobre como melhorar a abordagem a esses desafios no jornalismo. Aqui estão cinco lições que você pode começar a implementar na sua organização: 

1. Sinta o clima da sua equipe

No ano passado, o inewsource, da Califórnia, decidiu que DEI iria se tornar parte de tudo que eles fizessem como uma organização, explicou a CEO e editora Lorie Hearn, durante uma das sessões.

A redação comandada por ela começou com uma auditoria interna: uma pesquisa para sentir o clima da equipe, para entender melhor se as pessoas se sentiam incluídas e como viam a atitude da organização. Embora muitas das respostas tenham sido positivas, algumas pessoas deram um feedback sobre o que estava errado: a sensação era de uma organização para pessoas brancas.

Para tornar DEI parte de tudo que o inewsource é — incluindo equipe, doadores e conselheiros — a empresa contratou um especialista para traçar um caminho a ser seguido. Eles criaram comitês e desenvolveram ações para ajudar a resolver os problemas. 

Também criaram discussões sobre inclusão e desenvolveram protocolos para o processo de recrutamento para assegurar a diversidade. Agora, eles usam linguagem inclusiva nos anúncios de emprego e oferecem treinamentos em tópicos como viés inconsciente e a formação de alianças para dar apoio a grupos minoritários. 

"Um pequeno conselho: quando você faz uma pesquisa, você espera pelo melhor e se prepara para o pior. Mantenha a mente aberta, escute, escute e escute um pouco mais", disse Hearn.

 

[Leia mais: Iniciativas brasileiras buscam maior representatividade étnico-racial no jornalismo]

 

2. Ouça as necessidades da sua comunidade

A sustentabilidade não se refere apenas à receita, mas também à relação de um meio de comunicação com a comunidade que ele serve. Por essa razão, o The Oaklandside, outro meio de comunicação da Califórnia, faz questão de ouvir a sua comunidade e identificar as necessidades dela. É assim que a redação se esforça para ter diversidade e inclusão na sua cobertura.

O The Oakland começou perguntando o que as pessoas esperavam de um meio de comunicação, disse o editor-chefe Jacob Simas durante o mesmo painel. Eles usaram esse feedback para criar seus valores fundamentais: as pessoas queriam ver elas mesmas e incluir as vozes da comunidade no trabalho da redação.

O veículo também criou um conselho consultivo da comunidade, que lê três reportagens por semana e dá feedback sobre elas. Os membros desse grupo são selecionados em diferentes bairros de Oakland, e têm experiências diferentes em termos de gênero, raça e tempo vivendo na cidade. "Nós estamos pagando essas pessoas, elas estão comprometidas com o processo", acrescentou Simas. 

3. Preste atenção à diversidade das fontes

As fontes que os jornalistas escolhem citar em suas reportagens influenciam quem tem suas histórias contadas, quem é visto e quem é ouvido. Por essa razão, a ONA21 realizou um painel com profissionais de mídia que têm trabalhado para diversificar suas fontes nos últimos anos.

Caroline Bauman, estrategista em engajamento de comunidade no Chalkbeat, disse que o veículo norte-americano especializado em educação analisou os dados demográficos de gênero, raça e etnia de duas de suas séries de reportagens de 2018 e 2019. Eles perceberam que estavam dando muito espaço para vozes brancas em comparação com a composição dos distritos escolares que eles cobrem.

Para rastrear esses dados, Bauman sugere que a sua redação faça as seguintes questões como um ponto de partida:

  • O que você quer rastrear e por quê — o que você quer aprender?
  • Qual vai ser o referencial usado para comparar os seus resultados?
  • Como você vai usar esse processo de auditoria para mudar os seus padrões de comportamento e os da sua redação?

Ki Sung, editora sênior da editoria de educação do KQED, disse que sua redação usa um formulário embutido no CMS para rastrear esse tipo de dado.

 

[Leia mais: Cobrindo duas pandemias: COVID-19 e racismo]

 

4. Trate os pontos cegos relativos a questões raciais

Entender e identificar os vieses inconscientes e pontos cegos também são etapas essenciais para uma cobertura inclusiva. Nicole Dungca, do Washington Post, compartilhou seus conselhos para abordar esses problemas, em um painel focado na construção da educação cultural necessária para confrontar essas questões.

Para Dungca, educar-se sobre a história do racismo contra asiáticos ou a história anti-negritude, por exemplo, é crucial. Sem fazer isso, um jornalista pode deixar passar frases ou termos que são ofensivos para algumas comunidades e que podem perpetuar estereótipos. Ela também sugeriu adicionar contexto à cobertura e ser um bom parceiro de trabalho com colegas que possam estar enfrentando situações conturbadas.

5. Preocupe-se com acessibilidade na internet

Tornar o jornalismo acessível não é uma característica do seu site, mas uma responsabilidade de todos na redação. Para quem tem interesse em aumentar a acessibilidade online, a ONA21 realizou uma sessão sobre as melhores práticas nesse assunto.

Comandada por Patrick Garvin, professor adjunto na Missouri School of Journalism, a discussão foi centrada em sites e ferramentas digitais criadas e programadas para que pessoas com deficiência possam usá-las.

Garvin alertou os jornalistas para que tenham consciência das barreiras que impedem as pessoas de consumirem o que eles publicam e a se fazerem questões sobre acessibilidade ao começarem a criar um site e frequentemente. Algumas dessas questões:

  • Como uma pessoa vai usar isso se ela não consegue usar um mouse?
  • Como alguém vai visualizar isso se não consegue distinguir cores?
  • Onde estão as legendas e a transcrição do vídeo?

"Faça perguntas no começo e frequentemente. Crie um plano que envolva todos os departamentos e áreas da sua redação", disse Garvin. 


Aldana Vales é editora-chefe da IJNet.

Foto por Josh Wilburne no Unsplash.