Cobrindo duas pandemias: COVID-19 e racismo

porLydia Antonio-Vila
Jan 14, 2021 em Diversidade
Protestos BLM

Em parceria com nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas a especialistas em saúde e líderes de redações por meio de uma série de webinars sobre a COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

O assassinato de George Floyd em maio passado trouxe milhões de manifestantes nos EUA às ruas — exatamente quando as pessoas estavam se acostumando com a pandemia de COVID-19.

A convergência do movimento de justiça racial com a crise global de saúde gerou condições de trabalho desafiadoras para os repórteres. A natureza pessoal da agitação racial agravou esses desafios para os jornalistas negros, em particular. “Como negros, estamos lutando contra duas pandemias: estamos lutando contra o racismo e estamos lutando contra a COVID-19”, disse a jornalista, cineasta e fotógrafa freelance Cydney Tucker durante um seminário online do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ em dezembro.

 

 

Tucker cobriu os protestos Black Lives Matter [Vidas Negras Importam] em Atlanta durante o verão americano para a Al Jazeera. Ela capturou a imagem de um pai segurando seu filho em um protesto em uma de suas fotos. Esta imagem foi especialmente comovente para ela. “Achei tão poderoso que um pai trouxesse seu filho tão pequeno para este protesto e o deixasse ver o que estava acontecendo, a realidade da questão”, disse Tucker. “Porque no final do dia, você não pode escapar de quem você é. Você não pode escapar de ser negro. É quem você é. Você nasceu para isso. Quanto mais jovem você aprende, mais seguro você fica neste país.”

Com a ajuda de um fundo da IWMF que apoia a saúde mental de jornalistas negros, Tucker fez terapia para ajudar a processar o que ela testemunhou durante os protestos do Black Lives Matter em Atlanta. Hoje, ela trabalha como jornalista freelance e produz um documentário para o New York Times, que vai ao ar na FX e Hulu.

Abaixo estão as principais declarações de Tucker para a diretora de engajamento de comunidade do ICFJ, Stella Roque, sobre fazer reportagens remotamente, garantir diversidade e representação em seu trabalho e segurança enquanto cobre os protestos durante uma pandemia.

Como os jornalistas podem produzir trabalhos multimídia remotamente durante a pandemia

  • Basicamente, há muito planejamento. Acho que isso torna você um produtor mais forte porque, de várias maneiras, tem que planejar demais para o caso de as coisas não darem certo.
  • Existe um serviço chamado Storyful, que tem um monte de conteúdo gerado pelo usuário. Em comparação ao meu trabalho na NBC, eu tinha que checar as coisas fisicamente sozinha e perguntar para a pessoa algo como “Podemos usar isso nesta matéria? Tudo bem de fazer isso?" Eles fazem tudo isso do lado deles. Isso tira muito do fardo do indivíduo.

[Leia mais: Dicas para cobrir os protestos contra a violência policial nos EUA e ao redor do mundo]

Como os produtores podem encontrar talentos localmente e em comunidades pouco representadas

  • Quando falamos sobre as comunidades que são predominantemente impactadas pela COVID-19, estamos falando sobre negros e latinos, comunidades de cor. Idealmente, [você] está estabelecendo confiança. Seria bom se você tivesse pessoas que são dessas comunidades cobrindo essas comunidades: pessoas que conhecem essas comunidades por dentro e por fora.
  • Quando eu estava saindo na rua, tudo que eu via eram fotógrafos homens brancos, e tudo que eles queriam capturar eram essas imagens super, hiper estereotipadas do que eles conceituam como esse movimento de pessoas negras — você sabe, o punho no ar ou alguém tentando lançar alguma coisa ... Precisamos pedir aos fotógrafos negros e pardos que capturem suas próprias comunidades porque, no final do dia, eles vão entrar lá, tirar as fotos e fazer com que as pessoas se sintam confortáveis ​​perto deles.
  • Existem vários recursos diferentes, como o Storyhunter, mas faça sua pesquisa. Muitas pessoas gostam de escolher o caminho mais fácil e simplesmente seguir quem conhecem. Mas dependendo do estado em que você está, dependendo do país em que você está, existem grupos de cineastas negros e pardos ... As pessoas gostam de agir como se não existissem, gostam de ir pelo caminho mais fácil e achar que "eles simplesmente não existem, não podemos encontrá-los". Mas isso não é real.

[Leia mais: Iniciativas brasileiras buscam maior representatividade étnico-racial no jornalismo]

Sobre a importância de cobrir os protestos do Black Lives Matter e de permanecer seguro ao reportá-los

  • Os protestos Black Lives Matter foram muito importantes. É um dos pontos cruciais na história da nossa geração. Eu queria estar na linha de frente disso.
  • Você precisa fazer sua pesquisa para descobrir como a polícia em sua comunidade trata o uso da força. Alguns policiais são mais propensos a usar balas de borracha. Alguns policiais são mais propensos a usar gás lacrimogêneo. Você tem que descobrir o que é distinto ou exclusivo da área em que estará.
  • Escrevi no braço o nome do meu advogado e também um contato de emergência porque [a polícia] estava pegando o telefone das pessoas e não ia deixar jornalistas fazerem ligações com o celular pessoal.

Lydia Antonio-Vila é consultora de programas do ICFJ.

Foto por Kelly Lacy no Pexels