Iniciativas brasileiras buscam maior representatividade étnico-racial no jornalismo

porJeferson Batista
Nov 9, 2020 em Diversidade
Apresentadores do Canal Reload

“Quando ligo a TV, não me vejo representada na programação”. A afirmação é da comunicadora indígena Priscila Tapajowara, do povo Tapajó, que fica na região de Santarém, no Pará.

A falta de profissionais com perfis étnico-raciais diversos é, de fato, um problema estrutural do jornalismo brasileiro. Nas redações, apenas 34% dos jornalistas em atuação são não-brancos, revela pesquisa do Reuters Institute da Universidade de Oxford, e a sub-representação é ainda mais preocupante em cargos de liderança: apenas 5% dos editores em destaque são negros, indígenas ou não-brancos. Vale lembrar que negros e indígenas, juntos, são quase 60% da população brasileira.

Esta falta de representatividade, especialmente entre os profissionais que tomam decisões, reflete, muitas vezes, em uma produção jornalística socialmente alheia aos problemas étnico-raciais e reprodutora de preconceitos e sensos comuns.

Na cobertura dos protestos antirracistas nos Estados Unidos, por exemplo, um telejornal da Globo News, principal canal de notícias do país, foi criticado ao colocar apenas jornalistas brancos para comentar a violência policial contra negros, levando a emissora a pedir desculpas e realizar um outro programa somente com profissionais negros.

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Mídias alternativas e as narrativas diversas 

Uma forma de driblar isso é a formação de organizações de mídias alternativas, focadas, sobretudo, em temas pouco abordados pelos meios de comunicação hegemônicos. É em um desses projetos que Priscila Tapajowara está engajada. Cineasta e fotógrafa, ela é umas das coordenadoras do Mídia Índia, rede formada em 2017 para divulgar informações dos territórios indígenas do país. 

“Somos mais de 200 jovens comunicadores. Temos uma grande presença nas redes sociais e isso nos permite chegar em todo o Brasil. Nossas pautas vêm dos territórios, das comunidades. Tem muita representatividade”, conta a comunicadora. Além de redes sociais, a rede produz textos, fotos e podcast — conteúdo que fica reunido em seu site.  

O caminho para tornar o jornalismo mais diverso é difícil e longo, mas precisa ser percorrido com urgência, acredita Simone Cunha, diretora institucional e de estrutura jornalística da Énois. Os meios de comunicação alternativos, como o Mídia Índia, cumprem um papel importante nesse caminhos, mas é preciso ir além. A pluralidade também tem que ocupar espaços nas redações tradicionais.

“Sem heterogeneidade, o jornalismo perde sua potência. A diversidade é fundamental para a imprensa se tornar relevante e representar, de fato, a sociedade”, afirma Cunha, que ajuda redações a implantarem políticas de inclusão. 

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Programa de Diversidade da Énois

Desde 2009, a Énois assumiu a tarefa de refletir sobre diversidade e representatividade na imprensa. Começou como uma escola de jornalismo online e atualmente, além de formar jornalistas negros, mulheres e periféricos, a organização, entre outras ações, ajuda empresas de mídia a implantarem políticas de inclusão.

O programa de treinamento Diversidade nas Redações é um dos principais projetos da Énois. Apoiado pelo Google News Initiative, ele coloca repórteres com perfis diversos nas empresas jornalísticas. Dentro das redações, estes jovens profissionais são acompanhados por editores-mentores, que também passam por um processo de formação para compreender melhor as questões de diversidade. É uma formação dupla: o repórter aprende a fazer jornalismo com um editor experiente e este líder aprende a olhar com mais sensibilidade para as questões de raça, gênero e classe social.

Na edição de 2020, iniciada em outubro, dez jornalistas periféricos e negros foram alocados em dez redações, todas fora do eixo Rio-São Paulo, para promover também a diversidade regional. Este trabalho se insere na Caixa de Ferramentas da Énois, que reúne metodologias, exercícios e práticas para trabalhar com diversidade no jornalismo. As ações vão desde sensibilizar as chefias até construir processos seletivos mais inclusivos. 

Segundo Cunha, não existe uma ordem cronológica a seguir em busca de representatividade no jornalismo. Contudo, é importante saber em que ponto está e projetar onde se quer chegar e isso é possível por meio de um raio X dos profissionais.

“As próprias empresas de mídia não conhecem o perfil socioeconômico de suas equipes, algo fundamental para começar a pensar em diversidade e inclusão”, orienta. 

Canal Reload: conteúdo plural para jovens 

Mesmo organizações jornalísticas profissionais independentes, precisam avançar quando o assunto é diversidade de gênero, racial e social. Pensando nisso, em setembro de 2020, um consórcio formado por dez empresas, incluindo a Agência Lupa, Agência Pública e Ponte Jornalismo, criaram o Canal Reload. Voltado ao público jovem, a proposta é ampliar vozes diversas na produção de conteúdo. Para isso, o projeto conta com 12 jovens influenciadores de diferentes regiões do país, sendo a maioria formada por mulheres e não-brancos.

De Santarém, Tapajowara, do Mídia Índia, é uma das influenciadoras do canal. Ela conta que recebe a pauta apurada da equipe e produz os vídeos de acordo com sua linguagem. Entre os conteúdos produzidos, está a história do aparecimento de uma Baleia-minke, em 2007, em uma comunidade de ribeirinhos que fica às margens do Rio Tapajós. A comunicadora produziu o vídeo a partir das apurações jornalísticas da agência de notícias Amazônia Real, integrante do canal, que publicou reportagem sobre o caso, interligando a história com a preservação ambiental.

“A equipe diversa é importante para que o público que queremos se sinta representado. A mídia tradicional já saturada está muito focada no eixo sudeste, então, trazer essa inovação nos sotaques, backgrounds e rostos faz parte da ideia inicial do Reload que é dar uma recarregada no jornalismo que já existe”, diz Lorena Morgana, coordenadora de redes sociais do Reload.

O problema estrutural só será resolvido com mudanças estruturais, incluindo a construção de ambientes psicologicamente saudáveis nas redações para que os jornalistas diversos possam demonstrar suas potencialidades em transformar o jornalismo para melhor, finaliza Cunha. 


Jeferson Batista é um jornalista e antropólogo brasileiro. Baseado em Campinas, São Paulo, colabora como freelancer para diferentes veículos e conta histórias sobre ciência, religião, diversidade e direitos humanos.

Imagem principal: apresentadores do Canal Reload, cortesia do Reload.