Empreendendo no jornalismo, parte 1: A experiência do Plural

porRafael Gloria
Jan 4, 2021 em Empreendedorismo de mídia
Logo do jornal Plural que tem dois pontos e a letra P

Para começar o ano inspirando quem está trabalhando pelo próprio negócio na área, conversamos com diferentes empreendimentos jornalísticos de sucesso no Brasil durante a pandemia. Neste primeiro artigo da nossa série de quatro partes focamos no jornal Plural. Leia segundo artigo sobre a Agência Tatu, o terceiro artigo sobre o Alma Preta e o quarto artigo sobre o Núcleo.

 

É consenso que 2020 não foi um ano fácil. Diversas áreas passaram por dificuldades devido à pandemia, mas mesmo assim muitas iniciativas jornalísticas continuaram empreendendo e buscando a independência editorial e a sustentabilidade financeira. 

Segundo Sérgio Lüdtke, jornalista e coordenador dos cursos da Abraji, desde 2016 foram poucos os empreendimentos novos que se podem considerar startups. “A maioria das iniciativas que surgiram nesses últimos quatro anos são canais de informação, muitas vezes dedicados a falar com um segmento específico de público ou tentativas de dar voz a pessoas que vivem num determinado território, muitas delas ainda não formalizadas e sem qualquer fonte de receita”, explica.  Há alguns programas que incentivam a área, ligados a Google, Luminate e Facebook, e cursos, como os de incentivo ao jornalismo local da Abraji.

Para Lüdtke, que também é editor do Projeto Comprova e coordenador do Atlas da Notícia (Projor), são vários os desafios — como a falta de conhecimento na área da gestão. Ele recomenda ter alguém dentro do veículo dedicado ao administrativo e ao marketing, e que possa entender as necessidades e oportunidades do negócio. 

“Tão importante quanto, também, é buscar conhecer profundamente seu público, o que ele necessita e que fontes de financiamento são possíveis explorar a partir da relevância que esse público possa atribuir ao empreendimento. Creio que preenchidas essas duas condições, o futuro estará mais nítido. O que não quer dizer que estará mais fácil”, diz. 

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Para começar o ano inspirando quem está trabalhando para seu próprio negócio na área, conversamos com diferentes empreendimentos jornalísticos de sucesso no Brasil. Neste primeiro artigo de quatro partes focamos no Plural.

O jornal Plural, de Curitiba, foi criado no fim de 2018. Segundo Rosiane de Freitas, o começo foi uma união de três pontos: a demissão de Rogério Galindo (também sócio-fundador do Plural) do jornal Gazeta do Povo, uma preocupação com o jornalismo focado em interesse público e uma insatisfação com o espaço para se fazer jornalismo na capital paranaense. Completa o quadro de sócios fundadores, o cartunista Alberto Benett. O Plural foi selecionado para o Programa Diversidade nas Redações da Énóis, em 2020. 

IJNet: O que vocês apontam como as principais estratégias para o crescimento da empresa? Como funciona o sistema de assinatura de vocês?

Rosiane de Freitas: Desde a nossa concepção, sempre tivemos claro que deveríamos pensar em fontes diferentes de receitas. Nós não queremos depender só de publicidade. E também não queremos depender de publicidade programática, porque isso na verdade é o mecanismo que faz com que o jornalismo viral exista, pois você tem que ter um conteúdo compartilhado e acessado milhões de vezes, tem que pensar no um milhão de cliques para conseguir ter a receita. E isso na verdade acaba prejudicando a qualidade do jornalismo produzido. Não dá para conciliar uma coisa com a outra. 

Nós achamos importante a questão de pagar pelo conteúdo, até porque existe uma questão de valor que se atribui a ele quando é pago. Temos também uma linha de produtos, e no momento estamos reformulando a nossa loja. Fazemos parcerias com empresas que produzem material, conteúdo, patrocinam conteúdo. Ao mesmo tempo vem também com publicidade, mas separado da produção do jornalismo. Essas são as três principais fontes de receita no momento. 

Sobre a assinatura, é um sistema de membership na realidade, as pessoas pagam por um conteúdo que está aberto. Elas fazem isso porque estão dando para a comunidade esse conteúdo que a gente produz. E as pessoas definem um valor para contribuir mensalmente. Temos em torno de mil assinantes atualmente, que contribuem com vários valores entre cinco e 200 reais por mês. É bem interessante essa relação que a gente tem com eles. 

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Nesses quase dois anos aprendemos muito sobre gestão, sobre a questão de pensar o negócio. Acho que temos um caminho bem longo a percorrer. Mas conseguimos sair do estágio de ser jornalista pensando em ter um jornal para o de colocar de pé uma ideia e pagar por essa ideia. Acho que o nosso grande marco é que estamos encerrando esse ano com a receita do jornal pagando as suas despesas. Isso é fantástico. Essa é a nossa grande conquista. Fora isso a gente vai abrindo um caminho aos poucos para o jornalismo local, para nós tem sido muito importante, e é uma coisa diária. Produzimos material todo dia e todo dia a gente vai conquistando novos leitores. Isso é algo que no longo prazo cria a nossa base de leitores e deixa ela muito firme. E isso é algo que não dá para desprezar. 

Vocês também estão participando do Programa de Diversidade da Énois.  Qual é o valor dessa experiência?

Uma fantástica oportunidade, não só por ter um repórter que está sendo bancada pelo Programa, e é uma pessoa super talentosa, que é a Gabriella Soares, mas também porque somos um jornal que se propõe a representar a Curitiba plural. Acho que começamos muito bem nesse sentido, de ser o jornal das pessoas que veem Curitiba não como aquela cidade tipo “República de Curitiba'', aquela coisa muito de herança das famílias que fundaram a cidade e tal. A cidade é muito mais que isso, tem gente de todo lugar aqui, o rosto do curitibano é o rosto brasileiro, o pessoal que veio do nordeste, os paulistas, os paraguaios. Nós estamos bem no meio do caminho, então, por aqui passa todo o tipo de gente. Para nós era super importante que a gente discutisse muito isso e se questionasse, porque é algo que nosso público cobra. E é algo que não vem naturalmente, você tem que se impor, e é muito fácil de ser engolido no dia a dia do trabalho. Então para nós está sendo muito interessante no trabalho que estamos com alguém de fora, com outro olhar, e ao mesmo tempo estamos em um programa que nos faz olhar para isso sempre. 

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Quais conselhos e lições vocês dariam para quem deseja empreender no jornalismo?

Se eu pudesse falar com a Rosiane de dois anos atrás, quando a gente começou com tudo isso, eu diria para prestar mais atenção no dinheiro, na gestão dos recursos, focar. Nós, que somos jornalistas, aprendemos e focamos em ser repórter, e é normal que quando a gente não é muito bom em outras coisas, vá se deixando para depois. Batemos muito a cabeça até perceber que tínhamos que assumir algumas coisas para a gente: tocamos comercial, financeiro, muita coisa do administrativo, que a gente teve que aprender a fazer, mas que foi extremamente importante a gente abraçar isso. Então, se eu fosse dar um conselho para a Rosiane lá de 2018 ou para qualquer outra pessoa que está nessa situação, seria esse: Tem que aprender esse feijão de arroz com gestão porque é extremamente importante, tem que readequar o nosso pensamento. 

Eu até tinha tido algumas experiências com outros projetos, mas o Rogério e o Benetti vêm de veículos grandes. E é muito diferente de um padrão startup, tem que repensar, porque as atividades vão funcionar de forma diferente. Você vai ter que assumir algumas coisas, às vezes a situação não é a ideal, mas o importante é que você não pode perder de vista que você está tentando viabilizar o seu negócio. E viabilizar um negócio jornalístico significa garantir uma liberdade para você e para os seus jornalistas fazerem jornalismo. 


Rafael Gloria é jornalista, mestre em comunicação, editor-fundador do coletivo de jornalismo cultural Nonada - Jornalismo Travessia e sócio da Agência Riobaldo.

Imagem: print do logo do Plural