Dicas para reportagens sobre agressões e abusos sexuais

porLaura Dixon
Nov 30, 2020 em Temas especializados
#MeToo

Quando a jornalista freelance Sophia Huang investiga um caso de abuso sexual, ela começa dizendo às vítimas: “uma coisa é compartilhar sua história; outra é ir a público e dar nome ao acusado.”

A repórter, cujas investigações estimuladas pelo movimento #MeToo revelaram casos de violência sexual nas principais universidades da China — e que foi presa em 2019 por causa de suas reportagens — diz que neste tipo de reportagem é vital que ambos os lados entendam perfeitamente o processo.

“Primeiro eu conto a elas o que passei, o que sofri e explico como vou fazer a investigação, por que vou falar com seus amigos ou colegas”, disse Huang a repórteres no webinar da GIJN Investigando abuso sexual: dicas e ferramentas para reportagens (em inglês). “Eu também falo sobre os riscos para se prepararem para o que virá depois da publicação.”

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Para Huang, as matérias sobre abuso sexual exigem um relacionamento especial entre o jornalista e a vítima ou sobrevivente. Os repórteres precisam construir um relacionamento baseado na confiança, mas também manter a objetividade necessária para obter relatos verificados e evidências para provar que a história é verdadeira.

Huang, que cobriu uma série de histórias relacionadas a alegações de abuso sexual, disse que é importante "evitar culpar a vítima". Ela nunca pergunta às vítimas por que elas não foram à polícia. Em vez disso, ela pergunta o que as impediu de ir às autoridades, para responsabilizar uma sociedade que as decepcionou, em vez de qualquer falha individual em agir.

Mas Huang enfatizou que a credibilidade jornalística é vital. Para repórteres, é importante “entrevistar o máximo de pessoas possível. Colegas, família, o acusado também. Não é um lado da história... Você tem que fazer um trabalho cuidadoso, coletar evidências: fotos, áudio, circuitos fechados de televisão. Visite o local onde o abuso aconteceu.”

Ela diz para as entrevistadas: “Eu confio em vocês, mas vocês precisam convencer outras pessoas a confiar em vocês também quando isso vier a público.”

 

 

A jornalista investigativa francesa Lénaïg Bredoux, editora de gênero da Mediapart, um dos principais veículos de comunicação independentes da França, disse que jornalistas precisam pensar sobre que tipo de evidência pode apoiar uma investigação de abuso sexual, em vez de descartar o assunto como muito difícil.

“Alguns jornalistas ainda dizem que as investigações sobre o abuso sexual são impossíveis porque não há evidências”, observou Bredoux. "Isso é errado. Você não tem documentos de Word ou planilhas de Excel, mas pode ter outros documentos: mensagens de texto, e-mails, WhatsApp, mensagens do Instagram. Às vezes, você pode obter mensagens de voz, diários, fotos para provar que os protagonistas se conheceram.”

Quando não há provas digitais — o que Bredoux diz que acontece em muitos casos de abusos — os repórteres podem se basear em relatos das pessoas no círculo das sobreviventes.

“Muitas vezes, elas falaram sobre isso com alguém: seu parceiro, família, amigos, um colega de trabalho”, disse Bredoux. “Mesmo quando parece que ninguém sabe, são muito excepcionais os casos em que nunca contaram a ninguém. Você pode encontrar mensagens nas quais falam sobre o abuso a outras pessoas.”

Importante na reportagem de Bredoux — que inclui investigações pioneiras sobre violência sexual e alegações de abuso sexual contra o cineasta francês Luc Besson — é encontrar várias testemunhas e, às vezes, várias vítimas. “Quando você tem várias vítimas, isso torna a história verossímil e cria um padrão.”

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Muitas vezes, ela disse, os jornalistas deixam de buscar testemunhas do sexo masculino. “A questão não é apenas que as mulheres devem falar. Elas falam — nós simplesmente não a ouvimos o suficiente. Mas é sobre os homens também: eles podem quebrar o silêncio, podem ajudar. Às vezes, como jornalistas, não pensamos em perguntar a eles. Na minha experiência, eles podem ser testemunhas muito boas", disse Bredoux.

As testemunhas, acrescentou ela, oferecem “algo muito especial: suas vidas, experiências, sua dor”. Mas embora os repórteres devam mostrar empatia com as vítimas, também é importante “manter alguma distância. Você tem que verificar todos os detalhes. Você tem que duvidar, você tem que coletar evidências. Esse é o nosso trabalho como jornalistas.”

Ashwaq Masoodi, jornalista freelance que escreve sobre abuso sexual na Índia, disse que a linguagem escolhida pelos jornalistas para suas histórias também é de vital importância.

“O estupro não tem nada a ver com sexo; tem apenas a ver com poder”, disse ela no webinar. “Você não pode usar as palavras 'sexo não consensual'”. Os repórteres devem tentar "perguntar às sobreviventes como optam por descrever o que lhes aconteceu, como se descreveriam, em vez de tomar uma decisão em seu nome."

Algumas pessoas que foram abusadas sexualmente — e as estatísticas mostram que na grande maioria dos casos relatados são mulheres — preferem o termo “sobrevivente” em vez de “vítima”. Outras podem escolher termos diferentes para explicar o que aconteceu.

Masoodi, que também entrevistou homens que cometeram abuso sexual como parte de seu trabalho, disse que a reportagem sobre este assunto na Índia tem sido tradicionalmente centrada na cidade e tendenciosa, “obcecada com a ideia vitoriana de estupro, de perigo estranho, quando as estatísticas mostram que 99% dos casos são de alguém conhecido da vítima.”

A Índia promulgou uma lei extremamente progressiva sobre agressão sexual após o estupro coletivo de Jyoti Singh em 2012, mas o país continua sendo um lugar perigoso com uma mulher estuprada a cada 15 minutos, disse Masoodi. A violência sexual contra as mulheres na Índia, acrescentou ela, é “sobre hierarquia de classes, hierarquia de castas, honra”.

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Huang disse que o contexto nacional também é relevante na China — e que tanto ela quanto suas entrevistadas foram instruídas a parar de falar porque as reportagens eram prejudiciais à segurança nacional. Em um caso recente, ela disse, uma vítima foi chamada ao tribunal por difamação.

“Um dos maiores desafios para as sobreviventes se apresentarem é a censura estatal”, explicou Huang. “Ficou muito difícil para as sobreviventes se apresentarem quando o governo as rotula como uma ameaça à segurança nacional. Mesmo como jornalista, estou recebendo ligações da polícia para parar de fazer essas entrevistas. Temos que lutar com os perpetradores, a lei e o sistema.”

Um dos pontos finais abordados no webinar foi sobre o contato contínuo com as vítimas ou sobreviventes até que a matéria seja publicada, e mesmo depois. Para Huang, a questão do consentimento é importante até a linha de chegada.

“Dou o tempo que quiserem”, disse ela. “Eu termino o artigo e não publico. Espero algumas semanas, e pergunto: você está pronta? Isso está certo? Estou te entendendo perfeitamente? Eu entendi direito?”

Para Bredoux, a responsabilidade do jornalista com o assunto não desaparece quando a reportagem é publicada. “Depois da matéria, você tem que entrar em contato com elas, disse ela. “Temos que ter cuidado porque as sobreviventes têm medo, em todo lugar: na política, nas escolas, nas universidades. E estão certas em ter medo. O abuso sexual é uma questão de dominação e de poder. Você tem que ter cuidado com isso.”


Este artigo foi publicado originalmente na Global Investigative Journalists Network (GIJN) e reproduzido na IJNet com permissão.

Laura Dixon é editora associada da GIJN e jornalista freelance.

Foto por Lum3n no Pexels