COVID-19 na Europa: investigação revelou irregularidades nos gastos

porChanté Russell
Nov 14, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Mapa da Europa

Para muitas empresas, a nova pandemia de coronavírus foi devastadora. Para algumas, entretanto, a crise global da saúde representou uma oportunidade de obter grandes lucros. Desde que a gravidade do vírus se tornou clara no início de 2020, os governos federal e locais gastaram milhões de dólares na compra de itens como equipamentos de proteção individual.

As repórteres Adriana Homolova e Dada Lyndell decidiram investigar como foram gastos os fundos que os governos europeus dedicaram ao combate da COVID-19. Elas publicaram suas descobertas no mês passado na reportagem "Desmascarado a onda de gastos da COVID-19 na Europa" para o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP).

Em um webinar do Fórum de Reportagem de Saúde sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ, Homolova e Lyndell conversaram com a diretora de engajamento de comunidade do ICFJ, Stella Roque, para discutir as descobertas da investigação e o estado do jornalismo de dados hoje. O jornalista de dados Rui Barros, que colaborou na reportagem, também se juntou à conversa.

 

 

“Para essa reportagem, coletamos dados de 36 países e analisamos as compras relacionadas com a COVID-19. O que encontramos foi muito diferente por país”, disse Homolova. “Países como Portugal, Lituânia e Polônia publicaram resumos especiais de suas licitações, mas em alguns dos países da Europa praticamente não havia dados.”

A partir dos dados que puderam coletar, Homolova e sua equipe identificaram uma variedade de ângulos de pautas a serem seguidos, incluindo transparência, variação na distribuição de recursos através das fronteiras e falta de competição no mercado para comprar equipamentos de proteção.

“Normalmente, o governo entrava no mercado e dizia: 'Precisamos desse produto', e aí as empresas vinham e começavam a disputar os contratos do governo, porque são contratos bem grandes. Agora, com a pandemia, a situação se inverteu”, explicou Homolova. “As empresas tinham produtos como máscaras e o governo entrou para competir por esse produto. Isso criou uma dinâmica muito estranha no mercado. Pudemos constatar nos dados [que] existiam contratos a rondar os milhões de euros, sem qualquer concorrência, apenas encomendados diretamente a uma das partes.”

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Barros disse que, ao analisar os dados, os repórteres não se concentraram apenas nos contratos com grandes empresas. Algumas empresas menores também prosperaram nos últimos meses.

“É claro que os grandes contratos são importantes, mas existem contratos importantes de pequeno ou médio porte também”, disse Barros. “Na verdade, a empresa que obteve o terceiro maior lucro não era um grupo grande. Eles eram uma empresa de merchandising e basicamente voltaram o negócio para máscaras e testes, porque tinham contatos muito bons na China."

Obter acesso aos dados para a reportagem foi um desafio consistente durante a investigação. Embora os dados estivessem prontamente acessíveis em Portugal, por exemplo, esse não era o caso em outros países. “O que nossos parceiros de mídia encontraram em muitos países é que a FOIA [Lei de Liberdade de Informação] foi suspensa. Então, mesmo que você peça os dados, não vão dar”, disse Homolova. "Na época, disseram 'Esta é uma situação de emergência', o que foi, porque ninguém estava realmente preparado. Agora, não tenho certeza se isso ainda se aplica."

Não havia bancos de dados privados a quem recorrer em casos onde as informações não estivessem disponíveis publicamente. Muitos desses dados foram considerados confidenciais e podem afetar futuras negociações do governo, de acordo com Homolova.

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Entre as descobertas dos repórteres estavam grandes somas de dinheiro gastas para adquirir medicamentos que eram ineficazes no combate ao vírus.

“Tínhamos uma lista enorme de medicamentos que foram comprados, como [disse o governo russo], devido à COVID, e na verdade esses medicamentos eram realmente estranhos”, disse Lyndell. “Nosso ministro da saúde publicou diretrizes para médicos sobre como tratar COVID, e tinham muitos medicamentos sem nenhuma prova de que realmente atuassem contra [o vírus]. Todos os hospitais começaram a comprar muitos medicamentos; eles gastaram milhões de euros com esses medicamentos."

Com os dados que conseguiram, os repórteres criaram uma série de gráficos interativos que rastreiam os gastos dos países, quem são seus fornecedores e a variedade de contratos criados em resposta à pandemia.

Homolova, Lyndell e Barros exortaram seus colegas repórteres a explorar outros ângulos potenciais da história dentro dos dados que analisaram e investigar os dados de outros países também.

“Tenho certeza de que não fizemos todas as histórias possíveis com esses dados”, disse Homolova. "Então, por favor, dê uma olhada e se precisar de alguma ajuda [ou] se não entendeu, entre em contato conosco; estamos aqui para ajudar."


Chanté Russell é recém-formada pela Universidade Howard e estagiária de programas no Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês). 

Imagem sob licença CC no Unsplash via Jakob Braun