Como a pandemia afetou a mídia no Zimbábue

Jul 15, 2021 em Empreendedorismo de mídia
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Assegurar a sustentabilidade dos meios de comunicação digitais sempre foi desafiador, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Embora empresas de mídia no Zimbábue, país no sul da África, estejam em busca de novos modelos de negócios, incluindo recorrer ao apoio do governo, profissionais da área reconhecem que os desafios não são apenas financeiros.

"O impacto da COVID-19 no jornalismo no Zimbábue foi imenso. Mudou tudo para o virtual e o digital", diz Samm Farai Monro, diretor criativo na Magamba Network. "A transição que estava ocorrendo para o uso do digital ia levar mais uns cinco anos, mas por causa da COVID-19 foi condensada no intervalo de um ano. Houve uma mudança rápida para o digital."

Mas o uso acentuado de plataformas digitais não é o bastante. Os danos causados pela COVID-19 nos resultados financeiros das empresas não podem ser exagerados, diz Nigel Nyamutumbu, gestor de programas na Media Alliance of Zimbabwe, coalizão de meios de comunicação do país.

"O que observamos ao longo desse período de pandemia é que a maior parte das empresas de mídia está enxugando. Algumas chegaram ao ponto de cortar custos e há uma queda nas receitas de anúncios, vendas e circulação, o que é motivo de preocupação", diz Nyamutumbu.

 

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Outro problema é que o governo não prioriza a ajuda financeira para meios de comunicação, apesar do papel crítico que eles desempenham em informar a população, de acordo com Nyamutumbu. "Nessa era da COVID-19, o acesso à informação é o que ancora a sobrevivência das pessoas e está ligado ao direito dos cidadãos à vida. Obviamente, temos que pensar em como nos adaptar, primeiro investindo em mídia digital e online, abraçar a convergência e assegurar que comecemos a pensar em como podemos monetizar esses espaços online", ele diz.

Monro concorda que monetizar espaços online deveria ser uma prioridade uma vez que há um número crescente de startups de mídia digital alternativas e de meios de comunicação comunitários no Zimbábue.

"Para empresas de mídias serem sustentáveis no novo normal, eu acho que é preciso repensar completamente os modelos de negócios dessas empresas. Tudo mudou, então é preciso haver uma maneira realmente inovadora de abordar as notícias, tendo em vista o fato de que o digital chegou para ficar", ele diz. 

Para as redações sobreviverem no pós-pandemia, elas precisam repensar os modelos de financiamento para além dos tradicionais anúncios e vendas, diz Nyamutumbu. "Precisamos desenvolver modelos de sustentabilidade que estejam dentro da realidade e do contexto global de nações que vão ficar em lockdown por mais algum tempo. As pessoas nesse momento já se readaptaram à forma como consomem notícias e informação."

Njabulo Ncube, coordenador nacional no Zimbabwe National Editors Forum, observa que a maioria das empresas jornalísticas não tem um plano B para lidar com os desafios da pandemia. "É uma situação complicada para o setor; você vai ver que a maioria das empresas de mídia não tem um caminho alternativo. É por isso que há um clamor para um fundo de apoio", ele diz.

Monica Mutsvangwa, ministra da informação, publicidade e serviços de radiodifusão do país, reconheceu que é preciso proteger o futuro da mídia na era pós-pandemia.

Em um pronunciamento na TV para marcar o dia mundial da liberdade de imprensa no último mês de maio, Mutsvangwa enfatizou que o governo zimbabueano estava comprometido a apoiar os meios de comunicação do país ao permitir que eles fossem incluídos entre os serviços essenciais e ao assegurar que jornalistas pudessem exercer livremente o seu trabalho durante o lockdown nacional. 

 

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Mesmo assim, profissionais de mídia acreditam que o governo precisa fazer ainda mais para prover recursos e políticas que suportem a sustentabilidade da mídia.

Isso teria como base esforços do passado, como o já existente fundo de radiodifusão estabelecido pela lei de acesso à informação e proteção da privacidade

"Consideramos que um regime multitributário precisa ser revisto para dar apoio a este setor crucial e é aí que o governo desempenha um papel decisivo", diz Nyamutumbu.


Lungelo Ndhlovu é um jornalista internacional multi-premiado baseado em Bulawayo, Zimbábue.

Foto por Stephen Dawson no Unsplash.