Vozes do mundo em desenvolvimento: o modelo de jornalismo do Global Press Institute

porJenny Manrique
Mar 15 em Jornalismo básico

As poucas histórias que a mídia tradicional reporta nas partes menos cobertas do mundo muitas vezes ignoram as vozes locais, perdem o contexto, repetem estereótipos e raramente acompanham histórias quando o evento importante acaba. Com esse diagnóstico em mãos, e com o objetivo de ajudar as mulheres locais a se tornarem jornalistas profissionais, Cristi Hegranes fundou o Global Press Institute há 10 anos.

"Nós vemos histórias locais exclusivas mais frequentemente do que tragédias, ao contrário de correspondentes estrangeiros, que caem de paraquedas sobre o desastre e vão embora", disse Hegranes durante a festa de aniversário de 10 anos do GPI, realizada em San Francisco no Dia Internacional da Mulher. O evento contou com uma exposição fotográfica com 60 retratos de mulheres repórteres do GPI, bem como projetos concluídos de três de suas 41 redações de notícias: na República Democrática do Congo (RDC), México e Nepal.

"Nós estamos olhando para histórias de uma perspectiva de comunidade", disse Hegranes. "Nossas repórteres têm acesso extraordinário a ideias e fontes, porque estão na comunidade e falam a língua local."

Desde a sua fundação, o GPI treinou e empregou mais de 160 mulheres em 26 países. A organização inclui um currículo introdutório de 24 módulos que cobre tudo, desde técnicas de entrevista, reportagem e redação a fotojornalismo, vídeo e mídia social.

"Ensinamos jornalismo ético para produzir reportagens imparciais e precisas", acrescentou Hegranes. "Nós temos cinco níveis de verificação de fatos e somos dispostos a adiar uma matéria até que esteja completamente correta. Em 10 anos, pubicamos apenas 14 correções."

Além do estereótipo

Repórteres locais em lugares como Panajachel na Guatemala, Bukavu, na RDC e Lucknow, na Índia, estabeleceram redações de notícias e podem ganhar até US$1.000 por mês pela produção de histórias. Os artigos são publicados no Global Press Journal, uma iniciativa de vários idiomas que distribui conteúdo em cerca de 100 línguas e dialetos.

"É impressionante como algumas destas jornalistas começam aprendendo noções básicas como o Microsoft Word, e agora estão contando histórias que você nunca vai ler em um jornal norte-americano", disse Ivonne Jeannot Laens, uma editora argentina que foi recentemente nomeada coordenadora de treinamento global do GPI.

De acordo com a sua pesquisa interna, menos de 2 por cento das fontes na mídia internacional são mulheres que não falam inglês. Como parte do treinamento, as mulheres jornalistas recebem câmeras e gravadores digitais para capturar essas vozes não ouvidas, que raramente aparecem na mídia.

"Na Argentina, sempre foi assustador entrar em uma villa [favela]. Era até difícil para uma ambulância chegar lá. Agora temos vozes locais dizendo como realmente é viver lá além do estereótipo", acrescentou Jeannot Laens.

Se há um lugar no mundo onde a narrativa é repetitiva é a África, disse Wairimu Michengi, editora regional do GPI para a África. A RDC, por exemplo, é muitas vezes descrita como a capital mundial de estupro ou um lugar consumido pela violência e caos político.

"Isso é onde a mídia erra", disse Michengi. "Mesmo se queremos divulgar matérias de forma rápida e vigorosa com a revolução digital, devemos nos concentrar em fazer direito, porque os danos da imprecisão às vezes nunca cicatrizam."

Michengi é baseada em Nairobi, no Quênia, onde ela construiu uma rede de fontes confiáveis que falam sua língua e não a veem como uma estrangeira "surpresa" com a vida diária.

"Eu tenho o contexto social e político para compreender as suas batalhas e o mais importante a sua humanidade", disse ela. Como resultado, Michengi tem escrito matérias investigativas, como uma sobre um contrabandista queniano que ajudou imigrantes ilegais [a chegarem] na Europa, bem como um retrato de um clérigo que recebe pessoas LGBT na sua igreja.

“Jornalismo é trabalho duro”

Para lidar com ambientes de meios hostis, as repórteres fazem cursos de treinamento de segurança e criam planos de gestão de risco. No entanto, outro desafio que essas repórteres enfrentam é o boom do jornalismo cidadão.

"Entendemos que muitas vezes vem de um ponto de vista ativista, então um monte de suas matérias não têm equilíbrio [editorial]", disse Manori Wijesekera, editora regional na Ásia, com sede em Sri Lanka. "Por causa do tipo de histórias que cobrimos, temos que dizer não a esse tipo de jornalismo. É como dizer que a médicos cidadãos: nem todo mundo vai entrar numa sala de operação. O jornalismo é trabalho duro, você tem que estudar."

Wijesekera recordou quando verificou os fatos de uma história de uma jornalista cidadã que declarou que cerca de 7 milhões de meninas na Índia faziam trabalho forçado. O artigo citou um relatório da Unicef 2013, fazendo com que a estatística parecesse como se fosse de 2015, quando, na realidade, esse número veio de um estudo da Organização Internacional do Trabalho de 2002. "Às vezes, até mesmo informações que soam como dados realmente fortes têm que ser verificadas com fontes no terreno", explicou ela.

"A Ásia é um lugar complexo e em mudança, assim como o resto dos lugares que cobrimos", ela acrescentou. "Nossas histórias estão atingindo uma audiência global, mesmo lutando contra regras de gênero e moral -- isso é o valor que trazemos."

Imagens principal e secundária por Jenny Manrique