Redações colaboram para alcançar juventude brasileira

porHanaa' Tameez
Dec 9, 2020 em Diversidade
Print de tela do feed do Instagram do Reload

Atrair jovens e convertê-los em consumidores leais de notícias continua sendo um desafio para a maioria das organizações de notícias em todo o mundo.

Uma das partes mais difíceis é encontrar as pessoas onde elas estão. Fazer uma investigação complicada e profunda e transformá-la em um vídeo cativante ou em uma história envolvente do Instagram —  que não seja condescendente, mas também não seja chata — é trabalhoso.

No Brasil, onde jovens entre 15 e 24 anos representam 16% da população, alguns veículos de notícias estão tentando algo novo. Dez startups de notícias digitais se uniram para lançar o Reload, uma iniciativa para produzir notícias de formas criativas e inovadoras nas plataformas que os jovens usam hoje.

A redação colaborativa do Reload é formada por jornalistas do ((o))ecoAgência LupaAgência PúblicaAmazônia RealCongresso em FocoÉnoisMarco Zero ConteúdoPonte JornalismoProjeto #Colabora e Repórter Brasil.

O projeto foi um dos selecionados para o Desafio de Inovação da Iniciativa Google News em 2019 e lançado oficialmente em 1º de setembro de 2020. Um dos objetivos específicos do Reload é entender melhor como os jovens brasileiros, principalmente em áreas urbanas, consomem notícias e o que lhes interessam. Esses dados são compartilhados entre os dez veículos de notícias e levados em conta ao fazerem seu próprio trabalho.

Toda segunda-feira, cada veículo de notícias envia um editor representante para uma reunião editorial do Reload. Lá, eles propõem histórias de suas publicações que seriam adequadas para o Reload. Natália Viana, cofundadora e diretora da Agência Pública, está liderando o Reload. Ela disse que um dos desafios é focar menos no que os jornalistas acham que os jovens deveriam saber e mais no que realmente interessa ao público que desejam alcançar.

[Leia mais: Iniciativas brasileiras buscam maior representatividade étnico-racial no jornalismo]

 

“O objetivo principal é mostrar ao público que jornalismo é bacana, porque é”, disse Viana. “E pode ser ainda mais legal engajá-los com as notícias.”

Durante uma fase de pesquisa de três meses, Viana compreendeu que parte do motivo pelo qual os jovens se desligavam dos meios de comunicação tradicionais é porque a maioria das matérias não oferecia o contexto de que precisavam para entender como um problema os afetava.

“Quando eu era adolescente na escola, debatíamos sobre as notícias e o que se falava na TV ou nos jornais”, disse Viana. “Para meus pais, a conversa da época era o que o jornal publicava na primeira página. Agora, com esses jovens, há toda uma conversa paralela [nas redes sociais] que a mídia não está acessando e isso é o que importa para eles. Não importa [para eles] o que o grande jornal está falando, e a mídia não está indo atrás deles nesses lugares porque eles não se importam.”

Enquanto as dez agências de notícias produzem o jornalismo, o Reload trabalha com um grupo diversificado de 12 influenciadores de todo o Brasil e são eles que roteirizam e protagonizam os vídeos. Ajuda que cada um dos apresentadores já tenha seu próprio público e que eles representem melhor a demografia do Brasil do que a indústria de mídia tradicional. Todos eles têm personalidades e sotaques diferentes de todo o Brasil, tornando-os mais acessíveis, relacionáveis ​​e talvez mais confiáveis ​​para novos espectadores. O nome Reload é uma palavra em inglês com a qual os consumidores de vídeo estão familiarizados. Todo o conteúdo, porém, é produzido em português.

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Seu trabalho é explicar as questões nas notícias em termos leigos. Então, as organizações de notícias compartilham a versão Reload das matérias com seus públicos em suas próprias plataformas de mídia social.

“Eles recontam a história à sua maneira, com o que consideram o mais importante, a sua própria língua, a sua maneira de falar e o seu próprio humor”, disse Viana. Damos a eles essa liberdade de criar e isso é o que o torna relevante e comunicável.”

Em junho, a Agência Pública publicou uma investigação sobre um homem chamado Tiago Silva, filho do vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, Jorge Mussi. Mussi se recusou a reconhecer Silva como seu filho legítimo. A história expõe questões de racismo e classismo, já que Silva é negro e sua mãe é uma empregada doméstica negra, enquanto seu pai biológico, Mussi, é branco e oficial do governo.

A equipe do Reload escreveu uma música para explicar a história. Tem pouco mais de dois minutos de duração e o vídeo com a letra é um desenho animado com ilustrações coloridas. É uma canção de samba, o que significa que é de um gênero musical popular brasileiro que se originou nas comunidades afro-brasileiras no início de 1900. No Instagram, a plataforma mais popular do Reload, o vídeo foi visto mais de 14.000 vezes.

 

 

Em apenas dois meses, Viana desenvolveu um senso apurado de quais histórias ressoam melhor com o público do Reload. O Reload emprega um analista de dados que descobriu que os jovens não se preocupam tanto com a corrupção e os políticos quanto se preocupam com as mudanças climáticas, questões LGBTQ e assuntos indígenas. E, embora esses problemas sejam sérios, há maneiras divertidas e envolventes de apresentá-los.

“É muito claro que o meio ambiente, por exemplo, é um grande problema”, disse Viana. “É interessante porque em nosso site o meio ambiente é um grande problema, mas é muito maior para o público mais jovem, eu acho, porque eles sabem que estão se ferrando com a geração mais velha.”

Ultimamente, o Reload também tem se concentrado em combater desinformação, um problema que só piorou no Brasil sob a administração de extrema direita do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia, e antes das eleições municipais no país.

Um vídeo da apresentadora do Reload, Samela Awiá, explica as causas dos incêndios na Amazônia e por que as alegações de Bolsonaro de que as comunidades indígenas os causaram são falsas. As fontes do vídeo são matérias da Amazônia Real e Congresso em Foco:

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Nos próximos meses, Viana espera trabalhar com veículos de comunicação mais tradicionais e convencionais no Brasil, que ela explica que historicamente estão concentrados nas mãos de poucas famílias e nunca foram muito inovadores.

“Ouça [os jovens]. É realmente fácil assim”, disse Viana. “Peça a eles que se envolvam na criação das notícias.”


Hanaa' Tameez é redatora do Nieman Lab.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Nieman Lab e reproduzido na IJNet com permissão.