Quatro projetos de jornalismo que permitem que o público decida o que cobrir

porDena Levitz
Jun 3, 2015 em Diversos

Engajar o público ao reportar uma notícia ou depois de tê-la publicado é uma coisa. Envolver o público na concepção das reportagens ou mesmo antes de a reportagem ter começado é outra.

Mas cada vez mais as organizações de notícias --de tradicionais a startups-- estão dando esse passo. Estão incluindo usuários atuais e futuros no processo de coleta de notícias mais cedo do que nunca enquanto descobrem o que cobrir e como.

A tática vira de cabeça para baixo a crença tradicional de que as organizações de notícias sabem melhor onde jornalistas devem gastar seu tempo de reportagem. A comunidade que está sendo apurada pode desempenhar um papel na decisão de quais perguntas fazer, o que filmar e onde concentrar o ângulo de uma matéria. No processo, a apuração e disseminação de notícias ficam extremamente inclusivas, transparentes e pró-ativas.

Aqui estão quatro exemplos de iniciativas jornalísticas que tomaram medidas sem precedentes para atrair os leitores na seleção de notícias:

Curious City

Curious City é uma experiência da rádio pública de Chicago WBEZ, que diz aos seus ouvintes que a iniciativa é "destinada a satisfazer suas curiosidades". Basicamente, qualquer pessoa pode fazer perguntas sobre Chicago e sua região vizinha - incluindo pessoas, paisagens e fatos pouco conhecidos. Então, o público vota sobre as perguntas colocadas. As perguntas vencedoras se tornam a base para a reportagem da equipe WBEZ. Depois que a equipe descobre as respostas, transforma em podcasts ou posts que ajudam os moradores a entender melhor sua área geográfica.

Os cerca de 100 episódios cobrem assuntos que provavelmente não seriam descobertos ou analisados de outra maneira. Por exemplo, um pedido do ouvinte tornou-se uma exploração sobre o domínio do jogo de pinball em Chicago; outro foi sobre a proibição de vendas de automóveis no domingo. O Curious City também cobriu temas mais sérios como mortes de pedestres e mudanças demográficas como um afluxo de prisioneiros de guerra alemãos após a Segunda Guerra Mundial.

BBC Pop Up

BBC Pop Up foi uma unidade viajante de jornalismo móvel que, por seis meses, atravessou os Estados Unidos em busca de histórias não contadas. A pequena equipe de fotojornalistas da BBC passou um mês em seis diferentes cidades americanas. O que foi ainda mais legal dessa iniciativa tão bacana é como eles decidiram sobre as suas atividades de reportagem depois de chegarem nas cidades, incluindo Pittsburgh, Pensilvânia. e Tucson, Arizona. A equipe rapidamente realizava um encontro com a comunidade reunindo residentes em um só lugar, informando a eles sobre o que estavam fazendo e pedindo ideias de reportagem do que eles gostariam que a BBC cobrisse durante esse mês.

A partir desse enfoque, a equipe PopUp chegou a uma série de matérias exclusivas, de um exame dos problemas da poluição atmosférica de Pittsburgh a como o trabalho com vidro ajuda a manter as crianças fora de gangues em Tacoma, Washington.

Algumas histórias tomaram a forma de vídeos, outras, matérias de revista. De qualquer forma, foram resultado em grande parte da colaboração do público desde a concepção da pauta. 

Minnessentials

O Minneapolis Star Tribune tem uma série que começou este ano chamada "Minnessentials”. O objetivo do jornal é explorar tradições de Minnesota - incluindo, sim, sorteios de carne - mas em vez de simplesmente escrever sobre elas, a equipe está pedindo ideias para cada reportagem. Os editores fazem uma chamada à ação, pedindo temas que o Star Tribune deve cobrir. Em seguida, usando estas sugestões, eles formulam as pautas e buscam exemplos específicos para incluir ou destacar e o leitor pode tuitar seus comentários.

Até agora, "Minnessentials" mergulhou na tradição de preparar e servir pratos quentes, a caçarola do estado, e cobriu um lendário peixe frito que é passado de geração a geração.

Public Insight Network

Não uma organização de notícias em si, a  Public Insight Network (PIN) é uma plataforma que permite que uma série de jornalistas e organizações de notícias se conectem com o público ao planejarem ideias de artigo e escreverem sobre as comunidades.

Os membros do público podem se inscrever para compartilhar conhecimentos e ideias com os jornalistas. Quando se tornam fontes oficiais na plataforma, eles se alinham a uma área de especialização específica. De lá, os jornalistas podem enviar mensagems a eles sobre seus pensamentos sobre temas quando estão formulando ideias de pauta para pesquisa.

Os líderes da PIN descrevem a plataforma como um "achador de fontes úteis" na correria de quem está terminando uma matéria. Mas é mais poderoso quando utilizado no início do processo de reportagem para testar palpites, desenterrar ângulos, fornecer um contexto importante e até mesmo revelar as perguntas certas para perguntar em primeiro lugar."

Por exemplo, o Miami Herald está usando a rede para divulgar um dos recursos do jornal chamado  “Community Conversations" (Conversas da Comunidade). Nele, os editores recorrem a moradores de Miami sobre seus pensamentos sobre um tema bastante amplo, como falta de moradia e, em seguida, usam o feedback como base para o artigo.

Quais outros esforços semelhantes lhe inspiram?

Image CC-licensed on Flickr via Ian Muttoo.