Para jornalistas que lutam contra censura, foque em pessoas e não em política

porJohn Kluver
Oct 25, 2016 em Temas especializados

Sou instrutor e consultor da Kazakh TV, uma emissora financiada pelo governo, cujo objetivo principal é transmitir 100 por cento da programação no idioma cazaque. Um jornalista nos Estados Unidos é muito diferente de um jornalista no Cazaquistão. Por aqui, a principal função de um jornalista é ser um difusor -- ou seja difundir as opiniões do governo.

O Repórteres Sem Fronteiras classifica atualmente o Cazaquistão na posição 160 entre os 180 países de seu índice de liberdade de imprensa, atrás do Egito, Iraque e Rússia. Neste verão, o país sofreu um ataque terrorista e protestos significativos, por isso alguns repórteres com quem eu conversei dizem que o governo está parecendo mais tenso do que o habitual. Em outubro, o chefe da União de Jornalistas do Cazaquistão e seu filho foram condenados à prisão por sonegação de impostos e fraude. Ambos negam as acusações e dizem que o caso contra eles é politicamente motivado.

Escolhendo suas batalhas sobre a censura do governo

Como bolsista Knight do ICFJ, o meu trabalho é treinar jornalistas de TV do Cazaquistão e fazer o meu melhor para compartilhar ideias para melhorar a produção e apuração de notícias. Desde que eu comecei a minha bolsa, já ajudei a produzir duas matérias e orientei operadores de câmera a filmar de forma mais criativa. Atualmente estou introduzindo Facebook Live na página do Facebook da emissora.

Esta é a segunda vez que trabalho para uma grande emissora estatal na ex-União Soviética. Uma década atrás, eu concordei em trabalhar na Russia Today como repórter. Na época, a empresa de radiodifusão estava apenas começando; e me prometeram que queriam ser independentes e que era para eu ajudá-los a ser como a CNN ou BBC. Hoje em dia, é claro, a emissora é controlada por Kremlin.

Eu era ingênuo e bobo de acreditar que a emissora realmente queria ser independente. Lutei contra o sistema e lutei contra a censura. Pedi a colegas russos para me ajudar na criação de matérias que poderiam levá-los a apuros ou pior. Ninguém foi demitido, mas deixei algumas pessoas nervosas e alguns colegas me falavam em sussurros ou atrás de portas fechadas. Trabalhar na Russia Today ficou estranho e frustrante e muito chato, então eu me demiti.

Daqui para frente, pretendo aplicar as lições aprendidas com o meu trabalho no Russia Today para a Kazakh TV.

Uma maneira mais inteligente para ir adiante

Aqui está o meu conselho para jornalistas profissionais acostumados a ambientes abertos que acabam trabalhando em lugares onde a imprensa é rigidamente controlada.

1. Lembre-se que você pode sair a qualquer momento. Para os meus colegas do Cazaquistão, este lugar é a sua casa, seu passado e seu futuro. Eles valorizam o prestígio e a segurança de um bom trabalho em um país muito pobre. Tenho uma boa vida me esperando de volta nos Estados Unidos. Não tenho o direito de colocar ninguém em risco de ser demitido. Em última análise, o meu objetivo final é trabalhar com os jornalistas para produzirem matérias que podem causar um impacto melhor e informar suas comunidades, sem dar ao governo um pretexto para reprimi-los.

2. Concentre-se nas pessoas. Dê a cada colega o tempo e atenção para tratar cada pessoa com respeito. Eu tento não ficar frustrado sobre os noticiários tendenciosos da estação e, em vez disso, me concentrar em encontrar pessoas energéticas e curiosas que estão ansiosas para contar histórias melhores. Meu erro fatal na Russia Today foi me concentrar demais em política e não o suficiente nas pessoas. Decidi fazer o oposto no Cazaquistão.

3. Mantenha um senso de humor. Se eu esperar que as coisas são feitas aqui como fazemos em casa, vou perder minha cabeça. Eu sou de uma pequena cidade no deserto Arizona nos Estados Unidos; apenas estar aqui e trabalhar com jornalistas neste lugar louco é bastante incrível e cheio de momentos engraçados. Tento abraçar isso e rir de mim mesmo, tanto quanto possível.

4. Aprenda a história e a cultura local. O Cazaquistão sofreu muito: milhares de pessoas foram mortas e o meio ambiente do país foi destruído em meados do século 20. Uma vida normal, sem catástrofe, é um luxo para as pessoas na antiga União Soviética. Eles valorizam a estabilidade e calma. Sua história e experiência é algo que eu como um estrangeiro nunca vou entender completamente, o que significa que não posso compreender por que razão as pessoas e o governo agem como o fazem hoje.

ICFJ Knight Fellow John Kluver in Kazakhstan

Imagens cortesia do bolsista Knight do ICFJ John Kluver