O que as Chicas Poderosas aprenderam na Colômbia sobre representatividade

Sep 13, 2021 em Temas especializados
Colombia

No último um ano e meio, os meios de comunicação dedicaram tempo e recursos significativos para falar da COVID-19. Nessa cobertura, mulheres e outros grupos sub-representados foram frequentemente desconsiderados. Infelizmente, isso não se restringe à pandemia: apenas 25% de todas as matérias publicadas na mídia incluem mulheres, de acordo com o mais recente relatório Who Makes the News.

Nós, da Chicas Poderosas, queríamos colocar as vozes das mulheres de volta à pauta, ao mesmo tempo em que promovemos o jornalismo colaborativo na América Latina. Com o apoio da Open Society Foundations, criamos uma iniciativa de storytelling chamada Laboratório de Histórias Poderosas.

No Laboratório, a Chicas Poderosas oferece treinamento, financiamento e orientação editorial para equipes independentes de jornalistas. Apoiamos os participantes para que contem histórias sobre assuntos e comunidades subrepresentadas, incorporando uma perspectiva interseccional e feminista, e uma abordagem com base nos direitos humanos. Editamos e fazemos a checagem dos artigos, fazemos parceria com veículos regionais para publicá-los e implementamos uma campanha de comunicação para ajudar na distribuição.

 

[Leia mais: 5 chaves para promover a liderança das mulheres na mídia]

 

Após laboratórios iniciais na Colômbia e no Equador, lançamos um no Brasil no mês passado e estamos planejando um quarto no México em 2022.

Na Colômbia, abrimos um edital para pautas sobre o acesso de mulheres e pessoas LGBTQI+ a direitos reprodutivos nos subúrbios e áreas rurais do país. Recebemos mais de 60 propostas de equipes interdisciplinares de jornalistas, profissionais de comunicação, designers e outros de todas as partes do país, e escolhemos cinco para dar apoio.

As reportagens resultantes foram publicadas nos seguintes veículos, cobrindo uma diversidade de questões: 

O primeiro Laboratório fez experimentos com um jeito diferente de praticar o jornalismo — o que nos deixou quatro importantes lições que gostaríamos de repassar: 

1) O futuro do jornalismo é colaborativo

Isso já foi dito antes, mas a cada vez que realizamos um projeto de jornalismo colaborativo confirmamos novamente: unir forças para encontrar, apresentar e desenvolver pautas não é uma experiência de aprendizado apenas para aqueles envolvidos — isso oferece oportunidades para realizar coberturas mais complexas e incorporar novos métodos de storytelling e narrativas.

No Laboratório, a colaboração permitiu que jornalistas trabalhassem em pautas originadas fora das grandes cidades e combinassem habilidades para produzir coberturas inovadores em diferentes formatos. Também foi possível realizar mais entrevistas e coberturas em campo, encontrando novos dados e enaltecendo vozes sub-representadas ao longo do processo.

Trabalhar com uma editora e a equipe da Chicas Poderosas ajudou essas jornalistas a tratar de questões complexas com sensibilidade e informação verificada, e a melhorar sua experiência de reportagem.

 

2) Vamos refletir sobre como fazemos jornalismo

O debate em torno da importância de incluir a perspectiva de gênero na cobertura da mídia ganhou impulso em anos recentes. No entanto, ainda há poucos espaços onde uma abordagem feminista é incorporada efetivamente na cobertura.

Com a orientação da editora Catalina Ruiz Navarro, questões sobre como melhor incluir as vozes de mulheres na cobertura se tornaram uma parte importante das preocupações e prioridades das equipes do Laboratório. Em reuniões semanais, repórteres discutiram com Navarro as maneiras mais efetivas de abordar entrevistadas cujos direitos tivessem sido violados, como assegurar que elas se sentissem seguras e respeitadas e como conceder a elas poder para contarem suas histórias.

As participantes destacaram este espaço como um modo de executar práticas jornalísticas distantes do extrativismo que às vezes vemos na cobertura de populações vulneráveis — isto é, jornalistas se aproximando de comunidades com as quais não estão familiarizados para fazer uma matéria e imediatamente ir embora. Isso resulta em uma relação desigual que priva os entrevistados de ter voz em suas próprias narrativas.

Abrir o diálogo para compartilhar perguntas e dúvidas — e pensar mais profundamente sobre como nós, enquanto jornalistas, abordamos as comunidades e os entrevistados sobre os quais escrevemos — pode, de maneira importante, nutrir nosso trabalho. 

3) Eliminar limites pode inspirar a inovação

Frequentemente, jornalistas enfrentam uma série de limitações em seu trabalho. Desde a falta de tempo para se dedicar a uma pauta até os interesses editoriais que pressionam para atrair mais tráfego da internet, há muitos fatores que condicionam as histórias que contamos — e como as contamos.

No Laboratório, as equipes tiveram liberdade para propor e trabalhar com os formatos que queriam, sem restrições. Isso permitiu às jornalistas pensarem fora da caixa para gerar novas ideias. 

 

[Leia mais: Reportagem sobre violência de gênero durante quarentena]

 

Por exemplo, o fanzine em áudio que a Cosecha Roja publicou usa imagens, vozes e música local de Nuqui, uma cidade na região de Chocó, na Colômbia, para ensinar os leitores sobre a importância do trabalho feito pelas parteiras.

4) A importância de apoiar jornalistas na implementação da checagem de fatos

Nos últimos anos, ouvimos muito sobre o papel vital que a checagem de fatos desempenha para contra-atacar informações erradas e desinformação. Inúmeras palestras, workshops e artigos foram realizados sobre o assunto. Isso pode ser especialmente importante para o jornalismo feminista, que não tem folga dos ataques online.

A Chicas Poderosas fez um workshop antes das participantes começarem a trabalhar em suas pautas para introduzir essa prática. Quando as reportagens já estavam editadas, a jornalista Luisa Fernanda Gómez verificou todos os dados e falas usadas. Para muitas das jornalistas, essa foi a primeira experiência com verificação de fatos.

Quando se lida com questões sociais controversas e violações aos direitos humanos, como acesso ao aborto, é fundamental que os dados e fatos estejam amparados. É igualmente importante orientar jornalistas ao longo desse processo.


Foto por Reiseuhu no Unsplash.