5 chaves para promover a liderança das mulheres na mídia

porBelén Arce Terceros
Mar 10, 2020 em Diversidade
Chicas Poderosas

Este artigo, escrito por Belén Arce Terceros e Gia Castello, faz parte de uma série da Chicas Poderosas, uma comunidade global que promove a liderança feminina e gera conhecimento. Leia outros artigos da Chicas Poderosas aqui e faça parte da comunidade no TwitterInstagram e Facebook.

Hoje, não é raro ouvir uma organização ou empresa dizer que deseja promover a igualdade de gênero, mas na verdade não é fácil.

Desde 2017, estamos envolvidas com a Chicas Poderosas, uma comunidade global que promove mudanças inspirando e capacitando mulheres na mídia e criando oportunidades para que todas as vozes sejam ouvidas. Primeiro, criamos uma comunidade ativa de mulheres jornalistas, comunicadoras e designers que trabalham com mídia e comunicação na Argentina. Mais recentemente, trabalhamos com a equipe global da Chicas Poderosas para desenvolver a comunidade em diferentes países da América Latina.

Para o Dia Internacional da Mulher, compartilhamos cinco lições que aprendemos no processo de promover a liderança das mulheres na mídia e incluir mais mulheres no jornalismo.

Esperamos que essas ideias possam ajudar outras organizações, redações, empresas e indivíduos a abordar seus projetos com foco na diversidade e igualdade. E para aproveitar o poder feminino.

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(1) Crie oportunidades para as mulheres aprenderem

A Chicas Poderosas nasceu com a missão de fornecer treinamento para as mulheres na mídia, para que, ao fortalecer suas habilidades, elas pudessem estar mais preparadas para liderar e inovar. O treinamento de mulheres jornalistas continua sendo o cerne de nossa missão: inspirar e desenvolver mulheres na mídia é a nossa maneira de provocar mudanças.

Em 2017, lançamos o New Ventures Lab, o primeiro acelerador para meios de comunicação independentes liderados por mulheres na América Latina. Formamos dois grupos de jovens empreendedoras com habilidades para liderar organizações com sucesso.

Também fornecemos treinamento por meio de workshops organizados por nossas comunidades em diferentes cidades do mundo, incluindo Buenos Aires, Madri e Nova York. Esses espaços proporcionam às mulheres da mídia acesso a habilidades às quais não poderiam ser expostas de outra forma e oferecem a oportunidade de aprender em um ambiente amigável e inclusivo. Como nossos instrutores são quase sempre mulheres, fornecemos não apenas habilidades, mas também modelos para aprender e nos conectar.

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(2) Promova a colaboração 

É hora de mudar a lógica patriarcal da competição e começar a procurar outras maneiras de alcançar nossos objetivos, realizar nossos projetos e contar as histórias que queremos contar. Em vez de colocar jornalistas e profissionais da mídia uns contra os outros, queremos criar um ambiente mais inclusivo para aproveitar as habilidades e ideias de todos.

Para isso, criamos espaços para colaboração multidisciplinar. Vimos que, quando as pessoas trazem seus diferentes talentos e origens para a mesa para trabalhar em um objetivo comum, a mágica acontece.

Vemos os benefícios da colaboração mais explicitamente em nossas mediathons, dois dias de eventos em que jornalistas, comunicadores e designers se reúnem para criar histórias multimídia sobre questões sociais sub-representadas. Suas diferentes origens, idades, experiências de vida e habilidades técnicas lhes permitem levantar questões, propor novas abordagens e contar histórias mais complexas, como Correspondecias desde la Tierra, criada para que mulheres de áreas rurais da Colômbia possam compartilhar suas experiências com outras pessoas através de cartas gravadas como vídeos. Outro exemplo é este podcast criado no México para compartilhar as experiências de mulheres mais velhas com a sexualidade.

[Leia mais: Por que ter um coordenador de projeto colaborativo]

(3) Crie espaços seguros 

Não se trata apenas de convocar mulheres e pessoas não binárias. É também criar espaços para aprenderem, colaborarem e trabalharem. Muitas vezes, as mulheres não são formalmente excluídas, mas não participam porque se sentem inseguras ou ameaçadas. Após movimentos como o #MeToo, todos sabemos que o assédio sexual pode acontecer no trabalho, muitas vezes sem consequências para o assediador. Mas não é apenas o assédio que desencoraja as mulheres a se manifestarem no trabalho, mas também o conhecimento e a experiência de que suas contribuições nem sempre são ouvidas ou respeitadas. A maioria das mulheres provavelmente pode se relacionar com essa situação: você em uma reunião começa a compartilhar uma ideia e um colega começa a falar mais alto do que você para compartilhar a ideia dele -- talvez até uma ideia que seja semelhante à sua.

É crucial garantir que o respeito predomine em todas as interações, e é por isso que criamos um código de conduta. Todos que participam de nossas atividades online e offline devem ler e aceitar o código, que inclui rejeitar o assédio e a discriminação e defender a igualdade em todas as suas formas. O código cria espaço para discutir o respeito e sua importância e estabelecer as regras básicas de como os participantes se relacionam.

(4) Amplifique a voz das mulheres

As mulheres representam apenas 24% das pessoas presentes na mídia, de acordo com o relatório do Global Media Monitoring Project 2015, publicado a cada cinco anos pela Who Makes the News. Isso significa que as vozes, ideias e questões das mulheres ainda estão ausentes da maioria das notícias. É necessário criar oportunidades para ampliar as vozes e as experiências das mulheres, a fim de criar narrativas mais completas e uma agenda pública mais inclusiva.

Na Chicas Poderosas, geramos espaços para as mulheres contarem histórias sobre os problemas que as afetam, e buscamos histórias que não apenas incluam as mulheres, mas priorizem suas vozes. Ao fazer isso, novas histórias estão surgindo e novas conversas estão começando. Por exemplo, publicamos uma reportagem especial sobre as experiências de migração de mulheres e pessoas não binárias, 10 HistoriAs MigrAntes, com foco em um aspecto muitas vezes negligenciado da migração. Essas histórias foram pouco reportadas até nossa reportagem revelar realidades importantes. Após a publicação, essas histórias foram divulgadas por meios de comunicação de toda a América Latina, como Distintas Latitudes e Managua Furiosa.

Outro exemplo: em uma mediathon realizado na Argentina no ano passado, um grupo reportou sobre a falta de uma lei nacional para regular o tamanho das roupas. O grupo escolheu se concentrar em como essa situação afeta as mulheres em particular e começou uma conversa nas mídias sociais com a hashtag #MiCuerpoNoEsElProblema (meu corpo não é o problema). Essa hashtag se tornou viral, criando um tópico de tendência nacional, com milhares de mulheres compartilhando suas experiências. O grupo de jornalistas reuniu essas respostas em uma matéria que publicou em um dos principais jornais nacionais, el Clarín

(5) Pense regionalmente

A luta das mulheres por seus direitos não é limitada por fronteiras. Vimos como a campanha antifemicida #NiUnaMenos (não mais uma) viajou do sul do continente para outros países da América Latina, e agora é um apelo regional pelo fim da violência contra as mulheres. Vimos como o #MeToo se espalhou para além de Hollywood e motivou as mulheres a denunciar abusos em todo o mundo.

A adoção de uma abordagem regional pode fortalecer os esforços para eliminar as desigualdades de gênero, aumentando a visibilidade e elevando a voz das mulheres. Em 2018, quando o direito ao aborto seguro, legal e gratuito estava em debate na Argentina, a comunidade local Chicas Poderosas decidiu explorar como as mulheres estavam acessando ou exigindo seu direito ao aborto em outros países da região. Isso levou à nossa primeira investigação regional, envolvendo 28 repórteres de 18 países, colaborando remotamente. A reportagem final foi reproduzida nos meios de comunicação de todo o mundo, incluindo Univisión, El Mundo e Infobae. Também ajudou a posicionar uma conversa local de maneira regional e até global, identificou lutas compartilhadas e ajudou a causa a ganhar mais força na agenda da mídia.


Belén Arce Terceros é diretora de comunicação e editorial da Chicas Poderosas e Gia Castello é diretora de programa da Chicas Poderosas.

Imagens cortesia da Chicas Poderosas