A necessidade de cobrir COVID-19 em línguas menos faladas

porNourredine Bessadi
Nov 17, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Annaba, Argélia

Durante a pandemia de COVID-19, a importância de comunicar informações vitais é fundamental. Isso significa alcançar pessoas que falam línguas menos utilizadas.

Quando a informação circula apenas através dos idiomas predominantes no mundo, pode não atingir certas comunidades. Com menos conhecimento à sua disposição, os membros dessas comunidades se tornam mais vulneráveis às consequências da pandemia.

As redações na Argélia mantiveram isso em mente ao lançar esforços para alcançar os cidadãos que falam o tamazigue, uma língua berbere falada em áreas do norte da África. A Rádio Argélia transmite mensagens regularmente em tamazigue para aumentar a conscientização sobre os perigos do vírus e como evitá-lo. As estações de rádio locais nas regiões de língua tamazigue, como a Rádio Tizi Ouzou e Rádio Soummam, geralmente organizam seus próprios programas de conscientização e respondem às perguntas dos falantes desse idioma.

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O governo argelino reconheceu a importância de produzir conteúdos nas diferentes línguas faladas na Argélia (árabe, francês e tamazigue) para combater eficazmente a COVID-19. Organizações internacionais, como o Fundo de População das Nações Unidas, também transmitiram conteúdo sobre a pandemia em tamazigue.

Yacine Zidane, editor do jornal em língua tamazique, Tiɣremt, cuja edição impressa o governo suspendeu no inverno passado, ressaltou a importância de alcançar os falantes do tamazique à medida que o coronavírus se espalhava. “A equipe editorial tem utilizado todos os meios para explicar, em tamazigue, que esta pandemia só pode ser vencida com um espírito de solidariedade e, sobretudo, de responsabilidade”, disse, referindo-se ao esforço digital do veículo. “O Tiɣremt várias vezes reservou a primeira página e as manchetes para educar melhor os cidadãos em sua própria língua, o tamazigue, que foi de suma importância na luta contra esta pandemia para nós.”

Apesar desses esforços, a produção de conteúdo em tamazigue continua baixa. A urgência de aumentar essa produção, inclusive em outros países do Norte da África, como Marrocos e Líbia, só se tornou mais pronunciada à medida que a pandemia continuou a se espalhar. Afinal, milhões de falantes de tamazigue não consomem notícias no árabe ou francês.

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Especialmente na Argélia, onde o tamazigue é uma das línguas oficiais do país, jornalistas e profissionais de mídia que falam tamazigue devem se organizar e lançar iniciativas de mídia nessa direção.

O acesso a informações precisas e recursos vitais durante uma pandemia pode salvar a vida das pessoas -- basta olhar para o exemplo das comunidades de imigrantes na Suécia. A taxa de infecção na comunidade de imigrantes somalis do país nórdico, por exemplo, é maior do que no resto do país. Em resposta, as autoridades suecas lançaram campanhas de informação em várias línguas para tentar limitar a propagação do vírus entre as populações de imigrantes.

Enquanto isso, as campanhas de informação de organizações internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), incluíram checagem de fatos, colaboração com especialistas em saúde, iniciativas multimídia e iniciativas inovadoras de engajamento do público.

A OMS usa uma variedade de idiomas, incluindo os seis idiomas oficiais das Nações Unidas, para alcançar o maior número possível de pessoas e informá-las sobre como a doença se espalha e as medidas que podem ser tomadas para mitigá-la.

Enquanto essas campanhas de informação aumentam a conscientização sobre a doença, também ajudam a combater o aumento de informações falsas que circulam sobre o vírus, que a OMS chamou de “infodemia” em fevereiro passado. A OMS alertou que a crise de informação emergente pode piorar uma situação já perigosa em muitos países, especialmente na África e na Ásia.

É fundamental que informações precisas sobre a COVID-19 relativas a higiene, distanciamento físico, medidas de quarentena e prevenção chegue ao maior número de pessoas possível, incluindo aquelas que podem não saber as línguas mais faladas no mundo. Como aprendemos, o acesso à informação nesses idiomas desempenha um papel crucial durante uma crise de saúde.


Nourredine Bessadi é jornalista, consultor independente e tradutor. Ele se interessa por direitos humanos e das minorias, gênero, sociedade civil, questões ambientais e o mundo da mídia.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Soner Eker