Melhores práticas para cobertura de tiroteios e violência indiscriminada

porCristiana Bedei
Aug 12, 2018 em Temas especializados

No final de junho, cinco funcionários da redação do Capital Gazette, em Annapolis, Maryland, foram mortos. Foi o 154º assassinato em massa de 2018 apenas nos Estados Unidos. Desde então, o número subiu para 212, de acordo com o Gun Violence Archive. A organização já contou oito incidentes nos primeiros cinco dias de agosto.

Os assassinatos em massa são responsáveis ​​por uma pequena fração das mortes relacionadas a armas no país, mas são eventos aterrorizantes cuja magnitude atrai uma intensa cobertura da mídia. Um estudo de 2017 revelou que jornalistas americanos acham que cobrir esses incidentes trágicos se tornou rotina.

Existem vários recursos disponíveis para qualquer pessoa encarregada de informar o público sobre um tiroteio em massa, embora (de acordo com o estudo acima mencionado) muitos jornalistas ainda recorrem a hábitos com impactos negativos.

Nesse contexto, o uso das melhores práticas de reportagem ajuda a evitar imitações e minimizar especulações imprecisas. O jornalismo responsável evita o sensacionalismo, respeita as vítimas e suas famílias e evita usar imagens ou informações que glorificam a violência.

No ano passado, a Unesco divulgou um manual de mídia para combater “retórica explosiva, cobertura exagerada e estigmatização de grupos minoritários” no contexto de ações terroristas. A News University do Poynter também oferece um webinário gratuito sobre reportagens de ataques em massa.

A IJNet perguntou a dois especialistas do webinário, Daniel Reidenberg e Russell Palarea, por recomendações úteis para jornalistas. Suas dicas estão resumidas abaixo.

Evite nomear o suposto atirador

“Quanto menos descritivo e menos vezes o nome do atirador aparecer menor a probabilidade de você ter um imitador que queira superá-lo”, diz Reidenberg, diretor executivo do Suicide Awareness Voices of Education. “Em vez disso, dedique tempo às vítimas e aos heróis que ajudaram os outros.

Para reduzir o risco de propagar o efeito de contágio, jornalistas devem descrever o comportamento do atirador como ilegal e prejudicial, apresentando os fatos de uma forma que não romantize sua história e ações.

Evite especulações sobre doenças mentais

A maioria das pessoas que vivem com uma doença mental não é violenta, por isso tenha cuidado para que a sua reportagen não seja enganosa ou prejudicial. "Não suspeite automaticamente ou, pior, conclua em sua matéria que o atirador está mentalmente doente", adverte Reidenberg. "Fazer isso reduz a chance de quem vive com uma doença mental procurar tratamento."

Se for confirmado que o atirador recebeu um diagnóstico psiquiátrico formal e você inclui essa informação, não simplifique a situação e insinue que a doença mental foi a causa de sua ação violenta. Se possível, adicione telefones ou contatos para situações de crise ou recursos semelhantes.

Não dê notoriedade a assassinos

O FBI estudou 160 "incidentes com atiradores ativos" entre 2000 e 2013, e concluiu que muitos atiradores foram inspirados por incidentes anteriores e buscam a mesma notoriedade.

“Reportagens sensacionalistas que mostram o assunto posando com armas ou com uma expressão ameaçadora podem alimentar a motivação do sujeito para cometer o ataque”, explica Palarea, um psicólogo operacional e profissional de avaliação de ameaças. “Em alguns casos, reportagens sensacionalistas são o que eles procuram.”

Quando conseguem encontrar o que buscam, isso pode estimular novos ataques. "Concentre-se menos em contagens de corpos e registro dos ataques, e mais nas histórias daqueles que perderam suas vidas e os fatores de risco identificáveis ​​para ajudar a prevenir o próximo ataque", sugere ele.

Eduque sobre os sinais de alerta

Massacres e outras formas de ataques públicos violentos não acontecem no vácuo, como Palarea explica: "Geralmente começam com uma queixa percebida, às vezes começam com um desejo de buscar notoriedade e às vezes começam com os dois". Muitas vezes há um acúmulo de fatores, durante o qual o sujeito se prepara e decide cometer o ataque.

Jornalistas têm o poder de aumentar a conscientização sobre os sinais de alerta, incluindo o monitoramento de alvos e lugares alvo, ameaças explícitas, o enaltecimento por agressores anteriores, a exibição de comportamentos violentos e a compra de armas. Informar o público sobre comportamentos que podem levar à violência em massa pode contribuir para prevenir novos incidentes.

Isso não significa que a mídia deva especular sobre motivos, mas lhes dá a oportunidade de educar o público sobre a complexidade da violência e encorajar mais pessoas a buscar ajuda para si ou para os outros.

Os ataques em massa são eventos traumáticos que não devem ser simplificados ou sensacionalizados. Jornalistas podem minimizar as reportagens sobre os perpetradores e se concentrar nas vítimas e nas suas histórias, evitando, ao mesmo tempo, mais estigma e danos. Eles precisam ser atenciosos em entrevistas com sobreviventes e membros da comunidade afetada; como a IJNet e o Centro Dart para Jornalismo e Trauma sugerem: mostre respeito, compaixão e transparência com suas fontes.

Imagem sob licença CC no Unsplash via rob walsh