Maria Ressa alerta para ameaças ao jornalismo independente nas Filipinas e no mundo

por Erin Stock
Jun 20, 2020 em Temas especializados
Manila

Diante de uma enxurrada de ataques legais, a renomada jornalista e pioneira em notícias digitais Maria Ressa diz que as Filipinas estão prestes a sofrer a morte da democracia por "mil cortes". Em um evento online co-organizado pelo ICFJ e FRONTLINE, ela disse que seu país, uma vez conhecido por sua mídia vibrante, está agora à beira de um "precipício".

Ressa, editora executiva e fundadora do Rappler, o premiado veículo de notícias com sede em Manila, participou do painel online menos de dois dias antes de ser considerada culpada na segunda-feira por uma acusação de ciber-difamação criminal por um tribunal de Manila.

Ressa alertou para um novo projeto de lei antiterrorismo aguardando a assinatura do presidente Rodrigo Duterte que essencialmente autoriza "o que costumávamos chamar de abuso de poder". O projeto permite prisões sem mandado e expande a definição de terrorista, disse ela. "Vamos mudar fundamentalmente nosso sistema de governança ou poderemos manter os direitos da constituição como está?", ela perguntou. "Agora isso está realmente em risco."

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Ressa é a protagonista de um novo documentário, “A Thousand Cuts” [Mil Cortes], que narra a erosão da democracia nas Filipinas, alimentada em parte pela desinformação nas redes sociais. A diretora do filme, Ramona Diaz, e o produtor executivo do FRONTLINE Raney Aronson se juntaram a Julie Posetti, diretora global de pesquisa do ICFJ, para o painel interativo.

"O 'A Thousand Cuts' documentou os mil cortes que sofremos, e agora estamos no fim", disse Ressa. "Acho que as Filipinas estão no precipício."

Ressa, a vencedora do Prêmio Knight de Jornalismo Internacional de 2018, e um ex-membro da equipe do Rappler, Rey Santos, Jr., agora enfrentam um período mínimo de seis meses a um máximo de seis anos de prisão. Eles foram libertados sob fiança, aguardando recurso. Esse caso é apenas um dos oito que Ressa enfrenta em um clima de assédio estatal. Se condenada em todos esses casos, ela pode pegar até 100 anos de prisão.

O Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) e outras organizações internacionais condenaram o julgamento da segunda-feira passada e pediram que todas as outras acusações contra Ressa e o Rappler sejam retiradas.

"Isso é uma grande injustiça", disse a presidente do ICFJ, Joyce Barnathan.

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Aronson chamou Ressa de heroína para muitos jornalistas e disse que sua história ressoa além das Filipinas. A própria Ressa costuma dizer que seu caso é o "canário na mina de carvão" para o jornalismo independente em todo lugar. "Este é um aviso para outros jornalistas de todo o mundo de que precisamos prestar atenção", disse ela, "e precisamos continuar fazendo nosso jornalismo."

Ressa disse que trabalha para lidar com seu próprio medo, diante da convicção de segunda-feira e da perspectiva de passar anos atrás das grades. "Não há problema em ter medo e criar uma comunidade", disse Ressa. "É o que fazemos depois que realmente importa."

O "A Thousand Cuts" foi disponibilizado ao público nas Filipinas sem paywall nas 24 horas anteriores ao evento do FRONTLINE-ICFJ. Mais de 233.000 pessoas assistiram ao documentário. Diaz disse que as respostas ao filme mostram que "há um profundo sentimento de tristeza e lamento sobre o que está acontecendo diante de seus olhos.”

Assista ao painel de discussão abaixo para saber mais sobre a reinvenção do jornalismo no contexto da desinformação viral, ataques à liberdade de mídia e a morte lenta da democracia liberal.


Imagem sob licença CC no Unsplash via Andrey Andreyev