Jornalistas chineses compartilham conselhos para cobertura sobre COVID-19

porJoey Qi
Mar 26, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Máscara e computador

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Apesar de anos de repressão, o jornalismo investigativo conseguiu sobreviver de alguma forma na China. Mas o surto de COVID-19 provocou uma nova onda de investigações na China. Nos poucos meses desde o início da pandemia na cidade chinesa de Wuhan, a mídia chinesa parece ter produzido mais reportagem investigativa de alta qualidade do que nos últimos anos.

Isso se deve em parte a alguns fatores externos. Várias organizações de notícias chinesas fizeram uso de uma pequena “janela de oportunidade” para produzir e publicar reportagens investigativas amplamente compartilhadas com o consentimento tácito das autoridades. As autoridades chinesas usam essas "janelas" para afrouxar o controle sobre a mídia, acompanhando de perto a opinião pública, a fim de ajustar suas táticas de propaganda. E, ao contrário dos protestos pró-democracia em Hong Kong no ano passado (que diziam respeito à política, um dos tópicos mais sensíveis da China), a COVID-19 afeta a todos, independentemente da política. Muitas vezes, é mais fácil para as pessoas chegarem a um consenso sobre questões ambientais e de saúde pública.

Acima de tudo, porém, são os esforços extraordinários de jornalistas individuais que criaram esse repentino e vibrante renascimento das reportagens investigativas chinesas. Jornalistas chineses estão trabalhando duro para produzir matérias apoiadas em evidências sólidas, ao mesmo tempo em que driblam a censura. Embora algumas matérias tenham sido removidas da internet algumas horas após a publicação, o público chinês -- que consegue identificar facilmente conteúdos politicamente sensíveis após anos navegando na censura oficial -- tem o hábito de arquivar artigos, republicando-os em outras plataformas, como Notion e Evernote, e compartilhá-los nas mídias sociais, em uma corrida de revezamento contra a censura.

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Os melhores jornalistas da China mergulharam em uma crise inesperada, com uma doença infecciosa fora de controle, pouco compreendida e um governo propenso a segredos. Eles informavam sobre a COVID-19, enquanto matava mais de 3.200 pessoas na China, quase metade do total do mundo, com quase todos morrendo no epicentro, na província de Hubei. Os jornalistas trabalharam em condições extraordinárias: uma ameaça virulenta à saúde, falta de dados confiáveis, trauma generalizado, censura oficial e quarentenas impostas a cerca de 50 milhões de chineses.

Como a COVID-19 agora se espalha globalmente, que conselho os jornalistas chineses podem compartilhar com colegas de todo o mundo a partir de suas experiências? O editor chinês da GIJN, Joey Qi, entrevistou vários jornalistas que estão na linha de frente da cobertura de COVID-19. Quase todos pediram para permanecer anônimos. Aqui está um resumo de suas dicas para repórteres em todo o mundo:

Aprenda as leis e regulamentos básicos

Se você não é um repórter de saúde, familiarize-se com as leis e regulamentos básicos para doenças infecciosas, bem como com os procedimentos de prevenção e controle, antes de sair para reportar. Por exemplo, quais são os critérios de diagnóstico para COVID-19? Quais são os procedimentos para a notificação de doenças? Quais são os métodos de controle de doenças? Ao examinar essas informações, você entenderá o sistema de prevenção e tratamento de doenças infecciosas. Isso será útil durante toda a sua cobertura.

Examine políticas

Quando todas as redações estão cobrindo COVID-19, é importante buscar novos ângulos da história. Wu Jing, repórter do Health Insight, uma publicação online focada no setor de saúde, diz que os jornalistas podem frequentemente encontrar histórias examinando políticas para prevenção e controle da doença. "Por exemplo, depois que Wuhan foi submetida a uma quarentena obrigatória, você precisa pensar sobre que tipo de problemas os residentes de Wuhan podem encontrar", diz ela. “Haverá algum serviço de transporte para pacientes que precisam ir ao hospital? Ao fazer políticas de triagem, o governo local levou isso em consideração?” Ao examinar essas políticas, você poderá descobrir histórias não reportadas.

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Não ignore hospitais pequenos

Quando um novo vírus surge, é essencial fazer duas perguntas: O que é esse novo vírus e de onde ele vem? Cientistas chineses encontraram rapidamente a resposta para a primeira pergunta, mas a segunda permanece um mistério parcial até hoje. O mercado Huanan de frutos do mar foi identificado como o local onde o surto de COVID-19 começou. Wu Jing, do Health Insight, diz que, embora os jornalistas frequentemente se concentrem nos principais hospitais, os pequenos hospitais próximos a esse mercado não deviam ser ignorados, pois lá poderiam ser encontrados os desenvolvimentos mais importantes.

Em geral, Wu diz que, em vez de se concentrar apenas em hospitais grandes ou especializados, ou em especialistas médicos enviados pelo governo para combater a doença, preste atenção às pequenas unidades de saúde. Os pacientes geralmente as recorrem primeiro antes de procurar tratamento em um grande hospital. “Isso acontece porque as pessoas infectadas com o coronavírus geralmente apresentam sintomas como tosse ou febre em um estágio inicial; elas têm maior probabilidade de visitar um centro de saúde próximo ou um hospital regional, em vez de um hospital terciário ou especializado em doenças infecciosas", ela diz. "Sem mencionar quanto tempo você precisa fazer fila nos hospitais gerais para se registrar."

Situe-se na comunidade

Vários repórteres chineses dizem que entrevistas informais com médicos, voluntários e residentes os ajudaram em suas reportagens, permitindo-lhes descobrir histórias e entrevistados inesperados.

Portanto, é importante basear-se em um bom local, com transporte acessível, onde você provavelmente encontrará pessoas nas comunidades afetadas. Wu fica em um hotel que fica perto de dois hospitais diferentes, designados para tratar pacientes com COVID-19 e não muito longe do mercado de mariscos. Isso facilita a realização de entrevistas casuais com pessoas da região, segundo Wu, além de encontrar médicos que também ficam acomodados em hotéis.

Procure fontes nas mídias sociais

Quando a COVID-19 eclodiu, houve uma escassez temporária de recursos médicos e muitos pacientes que esperavam fazer o teste da doença pediram ajuda nas mídias sociais, principalmente na plataforma chinesa Sina Weibo e no aplicativo de rede social WeChat. Algumas das histórias mais lidas do surto foram descobertas por jornalistas após esses posts, como "Mãe faleceu na ala de quarentena", publicada pelo site chinês NetEase. Muitas pessoas também estão entrando em contato com organizações de notícias diretamente, enviando mensagens com suas histórias para suas plataformas oficiais do WeChat.

 

Social media in China
Algumas das histórias mais lidas do surto foram descobertas por jornalistas após postagens nas redes sociais de pacientes pedindo ajuda. Foto: captura de tela do NetEase.

Seja benevolente, construa confiança e saiba quando deixar a história

As pessoas estão sofrendo muito estresse por causa da doença. É importante ser amável com aqueles que aceitam ser entrevistados, demonstrando empatia, oferecendo equipamentos de proteção, como máscaras cirúrgicas ou álcool para desinfecção, e ajudando-os a entrar em contato com organizações de ajuda, se necessário. "Em resumo, forneça o que eles mais precisam no momento, o máximo que puder", recomenda Wu. Mostrar benevolência é a base da confiança mútua e de boas reportagens, além de ajudar as pessoas a se abrirem.

Aceite quando as pessoas recusam a ser entrevistadas ou a responder as suas mensagens. Aprenda a desistir. Diz Wu: “Você precisa se lembrar constantemente da possibilidade de ser recusado por qualquer uma das solicitações de entrevista.”

Trabalhe em estreita colaboração com o seu editor

Produzir uma forte investigação ou série depende tanto do planejamento e da colaboração com seu editor na redação quanto do trabalho crítico do repórter nas linhas de frente. Como repórter no local, gastar tanto tempo fazendo entrevistas e encontrar histórias facilita a perder a noção das mudanças na opinião pública ou nos interesses do público. É quando seu editor pode fornecer conselhos vitais sobre onde a história deve ir.

Os editores devem poder analisar a situação de uma perspectiva mais ampla. Ao trabalhar em um grande projeto, eles distribuem tarefas aos repórteres e organizam as reportagens para publicação. Além disso, a equipe da redação deve fornecer apoio prático e emocional aos repórteres no local.

Forneça explicações claras

A cobertura de doenças infecciosas exige que os repórteres tenham algum conhecimento especializado em saúde e medicina. Além de fornecer informações e jornalismo baseado em evidências, os repórteres precisam explicar ou traduzir termos científicos ou outras informações para o público. Somente então o público poderá entender melhor toda a situação.

Cuide-se emocionalmente

Cobrir uma pandemia e acompanhar todas as notícias relevantes todos os dias pode ser uma experiência traumática para os jornalistas. Você precisa se cuidar emocionalmente. Alguns dos repórteres que cobriam COVID-19 em Wuhan compartilharam essas dicas sobre como cuidar de si mesmo:

  • Nunca se enfie em uma sala o dia todo. Tente ver e falar com seus amigos.
  • Escolha um quarto de hotel com boa iluminação e uma janela com vista, pois seu ambiente físico pode ter um impacto significativo em suas emoções.
  • Não se afogue em notícias relacionadas a doenças. Distraia-se lendo ou assistindo conteúdo não relacionado.
  • Tudo bem chorar quando você está estressado. Chorar é uma boa maneira de liberar suas emoções.
  • Manter a saúde física pode ajudar ao lidar com emoções negativas. Tente meditação, ioga ou outras formas de exercício para ajudar você a se manter saudável e bem.

Este artigo foi publicado originalmente pela Rede de Jornalismo Investigativo Global (GIJN, em inglês) e reproduzido na IJNet com permissão.

Joey Qi é editor da GIJN em Chinês. Ele tem mais de sete anos de experiência em jornalismo, incluindo três anos em gerenciamento de mídia. Ele é um dos membros fundadores do The Initium Media, onde desenvolveu a seção de notícias diárias e construiu a equipe de reportagem. 

Imagem sob licença CC no Unsplash via Dimitri Karastelev