Ideias para financiar jornalismo de interesse público

porMarcela Kunova
Jan 23, 2021 em Empreendedorismo de mídia
Dinheiro

O jornalismo de interesse público é diferente de outros conteúdos de notícias. O público não lê por curiosidade e sim porque precisa se manter informado sobre as instituições ao seu redor, disse Adam Newby, diretor da plataforma independente NewsNow, em um evento no mês passado.

As investigações sobre empresas públicas ou privadas demoram meses e até anos e são caras de produzir. Isso significa que o jornalismo de interesse público não pode ser financiado apenas por meio de publicidade, que muitas vezes é a principal fonte de receita para redações menores e locais. Embora a pandemia tenha tornado a situação ainda pior, o dinheiro dos anúncios tem secado há anos e grande parte dele foi para as Big Techs.

Se as redes sociais pudessem distribuir notícias de interesse público, talvez não fosse um problema. Mas as plataformas funcionam de uma maneira fundamentalmente oposta: seu objetivo é chamar a atenção dos usuários e produzir muito conteúdo barato para manter as pessoas navegando. E o informe mais recente sobre os gastos da prefeitura dificilmente é uma leitura cativante.

Mas aqui está o problema: as pessoas raramente buscam proativamente notícias de interesse público. Em vez disso, se deparam com elas ao ler outro conteúdo e não têm ideia de quanto tempo e recursos são gastos para produzi-las, disse Jonathan Heawood, diretor executivo da Public Interest News Foundation.

A falta de educação midiática não ajuda. Um novo estudo do Pew Research Center descobriu que quatro em cada dez americanos não tinham certeza se o Facebook, Apple News e Google News fazem suas próprias reportagens. Se combinamos isso com a desconfiança da grande mídia e a falta de vontade de pagar pelo jornalismo, temos um problema de sustentabilidade.

A má notícia é que não existe bala de prata. A boa notícia é que existem várias maneiras inexploradas de financiar o jornalismo de interesse público, e uma combinação de diferentes soluções pode ser a resposta.

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Filantropia

O Reino Unido não tem um sistema estabelecido que permita às redações receber doações filantrópicas, apesar de ter um setor de caridade próspero.

O Bureau of Investigative Journalism (TBIJ) decidiu desafiar esse status quo e estabeleceu um fundo, que é distinto do próprio Bureau. Embora esse modelo ajude a financiar algumas partes de seu trabalho que os curadores consideram caritativas, ele não fornece à TBIJ todos os benefícios do financiamento filantrópico, como redução de impostos ou acesso a doações.

"A lei não precisa mudar, nós apenas precisamos nos abrir para ela", disse Rachel Oldroyd, editora-gerente e CEO da TBIJ, que ajudou a estabelecer o fundo depois que o pedido foi rejeitado duas vezes.

Receitas do leitor

O status de caridade faz parte das soluções, assim como as receitas do público, acrescentou Heawood. Existem muitas ferramentas no mercado, incluindo micropagamentos, assinaturas, associações ou doações no estilo Guardian. A desvantagem é que muitos são complicados demais.

“As assinaturas precisam ser mais simples”, disse Newby, e o mesmo vale para as doações. Idealmente, deveria ter uma plataforma de logon único que pudesse direcionar dinheiro para diferentes publicações para evitar que os usuários tivessem a dor de cabeça de uma miríade de contas desconexas e a necessidade de ficar de olho em cada uma delas individualmente.

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Financiamento público

Qualquer que seja a fonte de receita de um veículo jornalístico, ela sempre influenciará as decisões editoriais. Essa é talvez a parte mais complicada de administrar para editores que investigam instituições públicas enquanto dependem de seu dinheiro para sobreviver.

O informe Cairncross sobre um futuro sustentável para o jornalismo propôs a criação de um órgão da indústria semelhante ao Arts Council. Isso foi rejeitado pelo governo. Um dos argumentos contra tal órgão era que os deputados não queriam escolher vencedores entre os veículos que receberiam financiamento público.

Mesmo que o governo não queira apoiar diretamente o setor de notícias, eles podem fazer mais legislando sobre questões em torno da concorrência desleal entre editores e plataformas de tecnologia, bem como entre grandes e pequenas organizações de mídia que operam nos mesmos mercados, disse Heawood.

As autoridades também poderiam investir em publicações para ajudá-las na transição para o digital, o que seria um impulso decisivo para o setor sem ser um financiamento direto, ele continuou. Finalmente, o governo precisa fazer mais para monitorar desertos de notícias no país e incentivar a criação de veículos locais e hiperlocais onde eles são mais necessários.

O papel do estado é ajudar a consertar o mercado em que operamos, acrescentou Matt Rogerson, diretor de políticas públicas do Guardian Media Group. Isso poderia, por exemplo, regular a grande parte da receita de assinaturas que os agregadores de notícias atualmente obtêm, apesar de seu custo de processamento de assinaturas de notícias ser marginal.

Há também a ideia de um esquema de créditos tributários atualmente testado na França. O governo oferece uma redução de impostos de até EUR50 para as famílias que assinam um jornal ou revista pela primeira vez, em um esforço para aumentar as receitas do leitor, mas sem gastar dinheiro público diretamente.

Regulamentação

De qualquer maneira que você olhe para o problema do modelo de receita sustentável para notícias de interesse público, parece que ele não pode ser resolvido sem regulamentar as plataformas sociais.

As redes sociais não têm incentivos para promover o jornalismo de alta qualidade, pois seu modelo de negócios depende da atenção do usuário. Embora muitas vezes argumentem que são meramente plataformas e, portanto, não são responsáveis ​​pelo conteúdo gerado pelo usuário, elas tomam decisões editoriais por meio de algoritmos que destacam ou minimizam certas informações.

"As plataformas são reguladoras e não editoras porque podem suprimir notícias de interesse público e promover desinformação", disse Heawood.

Oldroyd concordou, acrescentando que a mídia social pode causar um grande dano ao jornalismo online porque torna difícil distinguir fatos de mentiras. O que é pior: ninguém sabe realmente qual é o problema porque o algoritmo muda com frequência e sempre que acreditamos que o entendemos, ele muda novamente.

“Regulamentação e transparência são a resposta”, concluiu.


Este artigo foi publicado originalmente pelo Journalism.co.uk e é reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Micheile Henderson