Foto jornalística que Leonardo DiCaprio compartilhou ajuda a salvar lagoa no Paraguai

porAndrés Colmán Gutiérrez
Sep 3, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Rio violeta

Uma contundente imagem de fotojornalismo publicada no Instagram, compartilhada pelo ator e ativista ambiental Leonardo DiCaprio, conseguiu o que os moradores da cidade paraguaia de Limpio não conseguiram em meses denunciando que uma lagoa havia ficado roxa com a contaminação de um curtume em plena pandemia de COVID-19. Após a repercussão internacional, as autoridades finalmente decidiram intervir, retirar a licença ambiental e administrar o fechamento definitivo da indústria destrutiva.

Agora os residentes vizinhos, mobilizados com máscaras e cartazes em torno da lagoa Cerro, a cerca de 30 quilômetros de Assunção, exigem que os crimes ecológicos não fiquem impunes, que os gestores sejam presos para recuperar a qualidade das águas poluídas.

O que aconteceu com este caso é um bom exemplo do que a mobilização cidadã pode alcançar, apoiada na ação jornalística em tempos de pandemia.

Tudo começou quando Jorge Sáenz, fotógrafo argentino radicado no Paraguai, soube que os moradores de Limpio denunciavam há mais de quatro meses que a bela lagoa às margens do rio Paraguai mudou radicalmente de cor e exalava um odor de putrefação devido à poluição da indústria de curtumes WalTrading SA, mas as autoridades ambientais não respondiam às reclamações.

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“Minha companheira me mostrou o que foi publicado em um jornal local. Eu disse: 'Nossa! Será que retocaram a foto de forma errada?' Parecia um banho de sangue! Na manhã seguinte fui ao local. Fiquei de boca aberta ao ver a cor das águas, um roxo furioso”, conta Sáenz.

O fotógrafo pilotou um drone e tirou fotos de áreas que conseguiram mostrar a parte contaminada, em contraste com a outra seção em que as águas eram azuis. Ele conversou com os residentes da região, que vieram com máscaras e cartazes com dizeres contra a poluição.

“Os moradores são pescadores humildes. Me disseram que morreram muitos peixes e pássaros, que reclamam há meses, mas os donos da empresa poluidora eram amigos do prefeito do município de Limpio e ninguém lhes dava atenção”, diz ele.

Sáenz, que tem uma longa carreira como fotojornalista -- trabalhou para o diário Página/12 de Buenos Aires e para os jornais ABC Color e Ultima Hora de Asunción -- é membro da agência de notícias The Associated Press, onde distribuiu várias fotos da lagoa poluída no dia 5 de agosto, além de incluir uma delas em sua conta no Instagram, com a seguinte legenda: “A pandemia afeta tudo. Waltrading S.A. polui tudo o que deseja... já em 2017 milhares de peixes morreram no Chaco por causa de outro de seus curtumes... ”.

Essa mesma foto foi compartilhada no dia 16 de agosto pelo famoso ator americano Leonardo DiCaprio em sua conta do Instagram, com uma reportagem detalhada: “Laguna Cerro, na cidade paraguaia de Limpio, está dividida em duas partes: um lado roxo e o outro azul, uma parte cheira mal, a outra não [...] Há vários meses, as pessoas começaram a notar que a água mudava de um lado da estrada e que os peixes e pássaros estavam morrendo [...] ”.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

The Cerro Lagoon in the Paraguayan city of Limpio is sharply divided into two parts: one purple, one blue. One part emits a foul odor, the other doesn’t.⁠ The lagoon was split by construction of an embankment and roadway to carry trucks to and from local factories.⁠ Several months ago, people began noticing that the water had changed on one side of the roadway, and that fish and birds were dying. They went to local environmental authorities who took water samples.⁠ Francisco Ferreira, a technician at the National University Multidisciplinary Lab who took samples, said that the color of the water is due to the presence of heavy metals like chromium, commonly used in the tanning of animal skins to produce leather.⁠ #APPhoto Jorge Saenz @jorgesaenzpy

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Imediatamente, o caso adquiriu grande ressonância. Caravanas de veículos com autoridades e técnicos do Ministério Público e do Ministério do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Mades) compareceram ao local para verificar as instalações do setor e tirar amostras das águas.

Francisco Ferreira, técnico da Universidade Nacional de Assunção (UNA), disse que a cor roxa da água se deve "à presença de metais pesados ​​como o cromo e o zinco, usados ​​no curtimento do couro". Os relatórios descobriram que os resíduos lançados na lagoa deixam um nível de oxigênio de 1,4, quando os regulamentos exigem que seja no mínimo 5. O relatório do Mades concluiu que "o sistema já está totalmente danificado para a vida aquática".

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O portal ElSurti.com publicou que só em 2016 a empresa Waltrading exportou derivados de couro para o Brasil por quase dois milhões de dólares. “Waltrading é apenas um jogador. Em meio à pandemia, as exportações legais de peles e derivados estão entre as mais importantes do país. Em julho, segundo dados da alfândega paraguaia, ultrapassou as tabaqueiras”, destacou.

el surti

Como resultado, em 21 de agosto, o Mades decidiu cancelar a licença ambiental e solicitar o fechamento definitivo da indústria poluidora. Atualmente, o mecanismo mais eficaz para salvar a lagoa está sendo analisado. Luis Argaña, diretor de Meio Ambiente do Município de Limpio, disse que “os danos causados ​​à lagoa são enormes, toda a vida aquática foi morta, a única solução é retirar toda a água e trocá-la”. Dada a falta de orçamento, pedir financiamento externo não está descartado.

Rufino Leguizamón, líder de bairro de Limpio, assegura que sem o apoio dado pela foto de Sáenz e a postagem de DiCaprio, somada às publicações jornalísticas locais, o caso teria continuado impunemente. “Eles aproveitaram o fato de que, com a pandemia, não poderíamos sair para fazer grandes manifestações para ignorar nossas reclamações. Por isso, o trabalho dos jornalistas em tornar visíveis esses crimes ecológicos e atos de corrupção nesta era do coronavírus é muito valioso e necessário”, afirmou.


Imagem principal, fotografia de Jorge Saenz. Imagem do texto: infografia do ElSurti.com.