Estratégias para combater a disseminação de desinformação

por Hannah Ajakaiye
Apr 21, 2021 em Redes sociais
Redes sociais no telefone

A Nigéria tem um ambiente online animado, com mais de 30 milhões de usuários de mídia social hoje. No entanto, essa atividade de mídia social, junto com a diminuição dos níveis de confiança na mídia de notícias entre o público, está alimentando a disseminação de desinformação.

Educar os cidadãos sobre a responsabilidade que têm no combate das informações falsas é um passo importante para conter sua proliferação.

Como parte da minha bolsa Knight do ICFJ, coordenei um webinar sobre responsabilidade pública no combate à desinformação, com o Centro Internacional para Reportagem Investigativa (ICIR, em inglês). O evento virtual reuniu a ex-ministra da Educação da Nigéria e vice-presidente do Banco Mundial, Oby Ezekwesili; o diretor executivo do Daily Trust, Nasiru Mikail Abubakar; a diretora do Centro para Democracia e Desenvolvimento Idayat Hassan; e Oluseun Onigbinde, fundador da organização de transparência fiscal, BudgIT e ex-bolsista Knight do ICFJ.

Os painelistas discutiram a desinformação e como combatê-la, estratégias eficazes de checagem de fatos e o uso responsável da mídia social. 

 

 

Aqui estão algumas lições importantes.

Uma mudança de comportamento

As soluções para combater a desinformação devem ser informadas por práticas de modificação comportamental, disse Ezekwesili em seu discurso principal. Ela propôs uma abordagem baseada em incentivos e desincentivos que recompensaria os usuários de mídia social que aproveitam suas plataformas para divulgar informações precisas e penalizar aqueles que compartilham informações incorretas.

Compartilhar informações falsas é uma violação do código moral de uma sociedade, acrescentou Ezekwesili. Um sistema que recompensa os cidadãos por interagirem com os fatos pode ajudar a conter a maré de desinformação em uma sociedade com baixos níveis de confiança.

Inundar com informações factuais

Princípios de oferta e demanda podem ser úteis para lidar com a desinformação nas redes sociais.

“Se estamos preocupados com o fato de a desinformação ser letal para a sociedade, precisamos sobrecarregar o mercado de notícias com reportagem baseada em evidências”, disse Ezekwesili. “Se fornecermos mais notícias certas, isso irá superar as falsas e as mentirosas, bem como as maquinações enganosas daqueles que procuram destruir a confiança e o capital social da sociedade.”

[Leia mais: Dicas de como identificar, combater e neutralizar notícias falsas]

A colaboração entre mídias é fundamental

As plataformas de notícias devem colaborar para combater efetivamente a desinformação. “É importante que esta parceria colaborativa seja vista como uma forma de deter o que se tornou uma infodemia”, disse Ezekwesili. “Nossa cura [para] uma epidemia é combatê-la com algo que a oprima. A escala que pode fazer isso neste contexto deve ser baseada na colaboração entre mídias.”

Abubakar apontou para uma investigação colaborativa premiada sobre informantes de prisões realizada pela ProPublica e pela New York Times Magazine como um exemplo de reportagem colaborativa bem-sucedida em que duas redações trabalharam juntas como parceiras, não concorrentes.

Entenda como a desinformação está se espalhando

Na Nigéria, onde o comportamento online tóxico, incluindo o assédio online, corre solto, jornalistas e ativistas devem se familiarizar com a forma como a desinformação se espalha nas redes sociais.

“Em um clima em que a desinformação online se tornou uma oportunidade para sequestrar o espaço cívico, é necessário questionar o espírito do meio”, disse Onigbinde. “Precisamos entender o meio para saber quando entrar e sair, e a melhor maneira de fazer isso é negar oxigênio a notícias falsas.”

As Big Tech têm um papel a cumprir

O Senado nigeriano está atualmente deliberando sobre uma legislação que criminaliza o uso das mídias sociais para vender conteúdo falso ou odioso. É uma medida que ativistas descreveram como uma "abordagem secreta" para reprimir a liberdade de expressão.

Em vez de intervenção governamental, as grandes plataformas tecnológicas devem fazer mais nessa frente, segundo Onigbinde. “Deixar esse papel nas mãos do governo equivaleria a sequestrar o espaço cívico”, disse, acrescentando que as empresas de tecnologia devem expandir suas políticas públicas e sistemas de gestão da informação. “É importante que os gigantes da tecnologia invistam em políticas fortes que combatam com eficácia a desinformação e os esforços para deslegitimar vozes críticas em grande escala.”

[Leia mais: Uma mídia estudantil combate a desinformação na Nigéria]

Invista em treinamento e verificação de fatos

As organizações de mídia devem investir em treinamento para ajudar sua equipe a interagir e se envolver com o público online de forma mais produtiva, disse Abubakar. Os jornalistas também devem aprender a melhor forma de direcionar o público a fontes confiáveis ​​de informação. “Em algumas redações, os jornalistas até têm dificuldade para usar a internet. Como você pode moldar a conversa online quando está lutando para entrar na internet? disse.

As redações na África também devem investir na verificação de fatos para ajudar o público a distinguir a verdade da ficção. “Precisamos fazer mais checagem de fatos regularmente, e não meramente republicar os trabalhos de organizações de checagem de fatos como a Africa Check e a AFP”, disse Abubakar. “É bom que republicamos seu trabalho para que alcance mais pessoas, mas é mais importante que iniciemos nosso próprio sistema de verificação de fatos e o persigamos com mais rigor.”

Use uma linguagem identificável

Hassan dedicou a maior parte de seu trabalho nos últimos cinco anos ao estudo do ecossistema de informações na Nigéria e na grande África Ocidental. Embora a mídia social ofereça aos cidadãos uma plataforma para responsabilizar as autoridades eleitas, Hassan pediu cautela. Os esforços para manipular a mídia social para influenciar a opinião pública na Nigéria são semelhantes aos usados ​​em países com mais recursos, ela disse: "Muitas vezes, essas operações de influência tendem a deslegitimar as pessoas a fim de suprimir os eleitores, especialmente durante as eleições."

Ao comunicar suas verificações de fatos, os jornalistas devem usar uma linguagem que seja compreensível para o público que estão tentando alcançar, continuou Hassan. “Quando fazemos checagens de fatos de Abuja [capital da Nigéria] e queremos que chegue às pessoas nas áreas rurais, pode ser que não funcione”, disse ela, observando que também deve ser acessível. “Tem que ser o mais cativante e barato possível, de modo que as pessoas possam usar o mínimo de dados para interagir com esses conteúdos.”

Ensinar às crianças e aos idosos habilidades básicas de verificação e checagem de fatos também pode ajudar a conter a maré de desinformação em espaços públicos, acrescentou Hassan.


Hannah Ajakaiye é uma bolsista Knight do ICFJ construindo colaborações entre jornalistas, verificadores de fatos e influenciadores de mídia social para combater a desinformação sobre saúde e outras questões críticas na Nigéria.

Foto por cottonbro do Pexels