Entendendo o papel de um 'fixer'

por Delphine Bousquet
Apr 29, 2021 em Temas especializados
Homem andando na rua

Geralmente começa com um simples e-mail ou mensagem no WhatsApp: "Sou jornalista e recebi suas informações de contato pelo fulano. Estou viajando para o seu país e estou procurando um fixer."

Embora essas solicitações tenham sido menos comuns no ano passado devido às restrições de viagens durante a COVID-19, elas certamente aumentarão em frequência à medida que o mundo se recupera da pandemia.

Este artigo examina a função que um fixer desempenha para auxiliar em uma reportagem e os desafios que vêm com o trabalho.

O papel de um fixer

Um fixer é alguém que um jornalista ou equipe de reportagem pode contratar para acompanhá-lo quando viaja para um novo local para trabalhar. Os fixers são familiarizados intimamente com os costumes e práticas locais, são bem versados ​​em questões relevantes e também podem servir como tradutores. Quando os próprios fixers são jornalistas, eles também podem assumir ainda mais tarefas.

Os fixers levam em consideração o tipo de veículo que realiza a reportagem, seja rádio, TV ou mídia impressa, por exemplo. Eles também consideram a natureza da reportagem: é uma notícia "hard news", uma matéria de revista ou um documentário, entre outros formatos? Compreender o contexto local também é crítico: por exemplo, o lugar está em uma zona de conflito?

"É um enorme investimento humano e editorial", disse Marie Naudascher, jornalista e fixer francesa radicada no Brasil. "Ou o jornalista que nos solicita tem uma ideia precisa para uma matéria e nós fornecemos [a eles] os contatos de nossa lista de endereços, ou a ideia é mais geral e damos a eles a história para contar."

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Emmanuelle Sodji, uma videojornalista do Togo que investigou o tráfico de Tramadol na África Ocidental, confirmou isso. “A qualidade da matéria depende [do fixer]. Eles encontram os personagens certos e as sequências [de vídeo] certas”. O fixer também coordena a logística, como veículo, motorista, tradutor e serviço de bufê, registra os pedidos de autorização necessários e organiza os itinerários.

Os jornalistas ou a equipe de reportagem costumam viajar por tempo limitado e com orçamento definido, então tudo deve ser planejado. "Não pode haver problemas; [os fixers] devem ter um plano B e um plano C. Devem ser um verdadeiro canivete suíço", disse Naudascher.

Ser capaz de se adaptar e reagir é fundamental para os fixers. Também é essencial entender os requisitos dos jornalistas antes de eles chegarem e concordar sobre o trabalho que é esperado.

Novas experiências e viagem

Embora o pagamento possa ser atraente, não é a principal motivação de um fixer.

"Estar com repórteres experientes me permitiu ver outras formas de trabalhar. Aprendi muito e fiz amigos", disse Rania Massoud, uma jornalista que trabalhou para L'Orient Le Jour. Ser fixer permitiu-lhe viajar por todo o Líbano, de campos de refugiados a aldeias à beira-mar.

Naudascher também mencionou as experiências únicas que ela teve como fixer. “Fui à Amazônia para uma matéria sobre golfinhos cor de rosa, o que eu não teria feito de outra forma”, disse ela.

Costumes e problemas locais

Preconceitos e diferenças culturais podem criar tensão em uma viagem de reportagem. Os jornalistas que solicitam assistência de fixers provavelmente são menos familiarizados com os assuntos e o contexto locais. “O mais difícil é fazê-los entender que a realidade no terreno é diferente”, disse Sodji.

Sodji destacou os desafios culturais pelos quais ela ajudou repórteres a transitar na África Ocidental. “Nossos colegas estrangeiros nem sempre entendem que aqui é preciso conversar com as pessoas, para colocá-las à vontade, e que muitas coisas são decididas no último momento.”

Os fixers devem tranquilizar seus clientes — clientes que podem não entender os códigos e costumes locais ou podem ter noções preconcebidas. "Isso pode ser muito frustrante", disse Massoud. "Lembro-me de uma colega que pensou que ela tinha que usar um hijab no Líbano, embora eu não o fizesse."

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Riscos

Ao lidar com reportagens confidenciais e potencialmente perigosas, os fixers podem ser encarregados de garantir a segurança da equipe. Seu próprio bem-estar também pode ser ameaçado depois que a matéria for publicada ou transmitida. "Você é a pessoa local. Os entrevistados têm seu número de telefone", disse Naudascher.

Ao ajudar na comunicação, fixers podem ter que transmitir as expectativas entre os jornalistas e suas fontes no local. Se isso não for feito com tato, pode impactar negativamente uma rede de fontes que os fixers levaram anos para construir.

Por exemplo, Naudascher certa vez teve que resolver um mal-entendido com uma fonte local que não queria que seu sistema de segurança doméstica fosse gravado em qualquer vídeo feito. "Foi a primeira coisa que o cinegrafista filmou, mas eu dei minha palavra de que não iria aparecer", disse ela. Felizmente ela resolveu a situação, evitando quaisquer consequências adversas.

Reconhecimento

Fixers geralmente trabalham nos bastidores e sem seguro ou salário fixo. Geralmente são pagos em dinheiro.

"Isso é ser fixer: você não existe", disse Sodji. Por sua vez, Naudascher observou que ela parou de trabalhar como fixer por falta de status e reconhecimento.

Ainda assim, os fixers às vezes podem ser reconhecidos, por meio de uma menção nos créditos de reportagem ou na assinatura, como jornalistas por direito próprio.

Afinal, sem eles, a reportagem provavelmente não teria sido realizada.


Delphine Bousquet é jornalista, instrutora de jornalismo e correspondente de vários meios de comunicação franceses no Benin. Ela foi uma das vencedoras do concurso de reportagem Covering COVID do ICFJ. Ela também trabalha como fixer.

Imagem sob licença CC no Unsplash via AR