5 dicas para cobrir a vacinação contra COVID-19 em veículos locais

porJeferson Batista
Mar 29, 2021 em Reportagem sobre COVID-19
Duas caixas térmicas para transporte de vacinas

A vacinação contra a COVID-19 tem ganhado centralidade no noticiário hegemônico. Os grandes veículos de comunicação, contudo, não conseguem falar com todos os perfis da sociedade. Em um momento em que a informação de qualidade salva vidas, é fundamental mostrar como os temas globais afetarão a vida local. 

As pessoas querem saber, por exemplo, quando a vacina chegará em seus bairros ou quando será a vez de entrar na fila ― situações que afetam especialmente o Brasil, considerando que o número baixo de imunizantes tem gerado incertezas na população.

Neste contexto, o jornalismo local ganha ainda mais relevância e assume a missão de mitigar vácuos de informação sobre os imunizantes. “Nunca antes as pessoas ficaram tão interessadas sobre a origem das vacinas ou como foram feitos os testes. Hoje nós temos que informar sobre isso, precisamos fazer o jornalismo de ciência”, diz a jornalista Alice de Souza, coordenadora de Sistematização da Énois.

Localmente, os comunicadores devem se basear na ciência para produzir narrativas claras, diretas e centradas na vida das pessoas que vivem nos territórios. Em 2019, antes mesmo da pandemia, a hesitação à vacina foi listada pela Organização Mundial da Saúde como uma das dez ameaças à saúde global. 

[Leia mais: Comunicação da pandemia exige união de esforços e mensagens direcionadas aos diferentes públicos, concluem especialistas]

 

Para auxiliar nesta tarefa, reunimos abaixo algumas dicas para cobertura sobre a vacinação em organizações que atuam diretamente em bairros e comunidades. As informações listadas foram compartilhadas no evento Redação Aberta: “Como falar sobre vacina pro seu público”, da Énois, com a presença da jornalista Jéssica Pires, da Redes da Maré e comunicadora na AMaréVê, no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro; e a jornalista Ana Ávila, editora no Sul21, de Porto Alegre.  A organização também lançou uma espécie de guia sobre o tema.

1- Aproxima-se de sua audiência

As pessoas estão com muitas dúvidas sobre vacinas. Aproveite isso e faça seus conteúdos de acordo com as perguntas de sua audiência. As redes sociais são canais privilegiados para ouvir. 

Ávila diz que sua redação conta com uma profissional focada em social media, o que ajudou muito a entender as necessidades das pessoas que interagem com o veículo de comunicação. “O processo de escuta está em todo nosso trabalho. A gente está muito próximo de um grupo de pessoas que vivem no território, pessoas que trabalham na Rede da Maré e estão falando sobre coronavírus diretamente com os moradores. Eles dão dicas de fontes e nos ajudam a distribuir o conteúdo”, explica Pires.

2- Encontre os melhores canais de distribuição 

Não adianta publicar um conteúdo importante sobre vacinas em um canal de streaming se sua audiência tem dificuldade com conexão à internet. O Maré de Notícias criou um podcast para falar sobre as questões da pandemia, incluindo a vacinação. Para facilitar o acesso ao conteúdo, os episódios, além de serem inseridos em plataformas de streaming, são encaminhados como áudios de WhatsApp ― o que ajuda pessoas com pouca conexão à internet. Além disso, alguns comércios locais tocam o áudio em caixas de som, alcançando os moradores de forma off-line. No Sul21, foram criados grupos de WhatsApp temáticos, sendo um deles sobre coronavírus. O veículo também investiu em lives. De acordo com Ávlia, o Sul 21 distribuía o conteúdo de um modo bastante formal e essas mudanças aumentaram a relação com os leitores. 

[Leia mais: Dicas para reportagens sobre hesitação vacinal]

3- Busque fontes locais

A voz dos moradores locais pode enriquecer muito as narrativas sobre a vacinação. As pessoas querem se ver representadas nos meios de comunicação e, muitas vezes, ouvir alguém que mora em seu bairro falando sobre o tema gera um sentimento de identificação e, por consequência, maior interesse em consumir e compartilhar determinado conteúdo. 

4 - Adote a linguagem de sua audiência 

É claro que os especialistas em saúde não podem ficar de fora de sua cobertura. Quando for entrevistá-los, pense nas dúvidas de sua audiência para fazer as melhores perguntas e produza o conteúdo utilizando uma linguagem acessível, sem subestimar a capacidade de quem vai ter acesso ao material. 

5 - Invista em pautas e assuntos pouco explorados

Pense como os temas mais gerais podem ser desdobrados localmente. A tarefa do Sul21 é sempre buscar pautas ou temas pouco explorados pela grande mídia no Rio Grande do Sul. Pense em parcerias e projetos que oferecerão conteúdos inéditos para seu projeto de jornalismo local. Ainda que todo mundo esteja falando sobre vacinas, encontre buracos no noticiário.


Jeferson Batista é um jornalista e antropólogo brasileiro. Baseado em Campinas, São Paulo, colabora como freelancer para diferentes veículos e conta histórias sobre ciência, religião, diversidade e direitos humanos.

Imagem sob licença CC no Flickr por Lúcio Bernardo Jr/Agência Brasília