Em carta aberta, freelancers exigem remuneração mais justa e tratamento melhor

porCristiana Bedei
Feb 10 em Freelance
Freelancer

Cerca de 800 jornalistas assinaram uma carta aberta exigindo o fim de práticas de pagamento injusto e atrasado que prejudicam a subsistência dos freelancers. Publicada pela jornalista freelance Anna Codrea-Rado no dia 5 de fevereiro, a carta foi lançada após cerca de 2.100 trabalhos de mídia terem sido cortados no mês passado, com demissões no BuzzFeed, The Huffington Post, VICE, e o fechamento da revista online feminina britânica, The Pool.

"É algo que venho pensando há alguns meses, que a forma como os freelancers são pagos não faz muito sentido e dificulta bastante o trabalho", diz Codrea-Rado. “[Mas] o fechamento do The Pool [adicionou um senso de urgência porque] havia muitos freelancers, em particular, que ficaram com enormes faturas que não haviam sido pagas.”

À medida que o número de funcionários das publicações impressas e digitais continua a diminuir, freelancers tornaram-se um recurso cada vez mais importante, no qual a mídia depende para funcionar. Entre 2008 e 2017, os empregos na redação nos Estados Unidos encolheram em 23 por cento, enquanto houve um aumento estimado de 3,7 milhões de freelancers em todos os setores, desde 2014. No Reino Unido, uma pesquisa de 2016 do Escritório Nacional de Estatísticas mostrou que das 84.000 pessoas que se identificaram como jornalistas em 2016, 34.000 eram autônomos, em comparação a 18.000 em 2015.

"Acho que vamos ver mais freelancers. Será uma mistura de necessidade e de escolha”, diz Codrea-Rado, que começou a trabalhar como freelancer depois de ter sido demitida da VICE em 2017. Ela acredita que mais freelancers trabalharão juntos, formarão coletivos e lutarão juntos por melhores direitos e reconhecimento.

Codrea-Rado não é a única a avançar para a ação coletiva. Em todos os países, freelancers estão começando a se organizar. No final de janeiro, jornalistas suecos freelance obtiveram um acordo com vários grandes editores de jornais para um aumento nos honorários. Na França, um grupo de profissionais freelance da mídia  assinou uma carta aberta contra pagamentos baixos e atrasados, no mesmo dia em que Codrea-Rado lançou seu chamado à ação no Reino Unido.

Em sua carta, Codrea-Rado apresentou à mídia do Reino Unido três soluções acionáveis:

  • O fim das políticas de “pagamento por publicação”, através das quais os freelancers são pagos apenas quando o trabalho é publicado, às vezes meses após a conclusão. "Estamos pedindo aos veículos de comunicação que paguem metade da taxa de comissão antecipadamente, após a apresentação e o restante após a conclusão das revisões finais", diz a carta.
  • Respeito pelas taxas de atraso de pagamento. Se as organizações de mídia não pagam freelancers dentro do período legal de 30 dias, conforme estipulado pela Lei de Atrasos no Pagamento de Dívidas Comerciais (Juros) de 1998, a carta sugere que elas devem ser responsabilizadas. 
  • Atualização nos sistemas de pagamento inadequados que não conseguem gerenciar ou processar pagamentos para freelancers.

“Eu acho que todos os pedidos na carta são realistas. Esse é o objetivo: ver que as organizações de mídia as implementam”, diz Codrea-Rado. Ela acrescenta que o próximo passo óbvio seria envolver diretamente as publicações em uma conversa sobre isso.

"A campanha de Anna é muito necessária e esperamos que mude esse sistema injusto", diz a escritora Amelia Tait, de Londres. "Uma das coisas que mais me surpreendeu quando me tornei uma jornalista freelancer é que posso ganhar mais dinheiro por mês do que na minha última função como editora, mas, de alguma forma,  acabo com menos dinheiro por mês”. Ela explica que isso é resultado de esperar 60, às vezes 90 dias para ser paga por um trabalho.

Angela Hui, uma jornalista que trabalha como freelancer em tempo integral desde que foi demitida duas vezes em 2017, também assinou a carta. “Por muito tempo os freelancers foram tratados como capachos, deixando os meios de comunicação e os pessoas fazerem o que queriam em termos de pagamento, sistemas de pagamento ruins e desculpas ruins por não pagarem as taxas de pagamento atrasado”, diz ela.

Hui relembra que trabalhava com uma empresa cuja política de pagamento era de 45 dias após a publicação, mas que ainda demorava três meses, [e] recusando-se a pagar qualquer multa por isso. Ainda assim, ela realmente não tem outra opção a não ser continuar trabalhando com eles. “Eu não queria comprometer nossa relação”, diz ela. “Eu dependia desse dinheiro para pagar aluguel e comida, e para me sustentar.”

Dentro da indústria de jornalismo altamente competitiva e sem dinheiro, muitos freelancers se encontram  incapazes de negociar ou recusar condições injustas de trabalho e pagamento. Para freelancers como Codrea-Rado, e aqueles que assinaram a carta, a ação coletiva oferece uma alternativa que pode tornar possível responsabilizar os meios de comunicação pelo poder que detêm sobre os profissionais que ganham a vida trabalhando para eles.


Cristiana Bedei foi uma dos freelancers que assinaram a carta #FairPayForFreelancers publicada por Anna Codrea-Rado.

Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Brooke Cagle