Dicas para produzir reportagens investigativas para TV

porMarthe Rubio
Apr 1, 2019 em Jornalismo investigativo
TVs

Os repórteres por trás do programa de TV francês Cash Investigation são craques em produzir jornalismo investigativo para a televisão: nos últimos seis anos, seu programa se tornou um agente importante do jornalismo francês, abordando tópicos complexos e tornando-os compreensíveis para um público amplo.

Desde que o Cash Investigation foi lançado em 2012, seus repórteres investigaram uma variedade de questões: a indústria francesa de leite em crise, a evasão fiscal de marcas de luxo até técnicas brutais de gestão em grandes empresas francesas e o impacto dos pesticidas no desenvolvimento infantil e mais.

O programa de duas horas de duração é muito popular: assistido por uma média de três milhões de espectadores por mês, o que representa 14% da audiência de TV da França. O Cash Investigation vai ao ar durante o horário nobre no canal público France 2, o segundo canal mais assistido na França. O programa deve parte de seu sucesso a sua apresentadora, Élise Lucet, uma das jornalistas mais famosas da França, que trabalhou como âncora nos canais públicos por mais de duas décadas.

Produzido pela produtora Premières Lignes, o programa faz parte de uma nova onda de projetos de mídia franceses que levaram o jornalismo investigativo a um público mais amplo. Estes incluem Mediacités, uma rede de meios de investigação local, e o site independente de notícias Mediapart, que deu furos jornalísticos grandes como a evasão fiscal do ex-ministro do orçamento Jérôme Cahuzac ou, mais recentemente, as práticas questionáveis do ex-assessor do presidente Emmanuel Macron, Alexandre Benalla.

"Quando abordamos um assunto complexo, nunca dizemos: 'Ah, os espectadores não entenderão'", diz Emmanuel Gagnier, editor-chefe do Cash Investigation. “Pelo contrário, contamos com a inteligência deles e nos perguntamos: 'Como podemos fazer o espectador entender melhor esse tópico?'”

A editora da GIJN em Francês, Marthe Rubio, conversou com Gagnier, que compartilhou essas dicas sobre como produzir reportagens investigativas para a televisão:

Varie os tipos de narração

Muitas vezes, o uso de entrevistas com fontes internas pode ajudar a explicar um tópico que é difícil de entender. E, às vezes, é indispensável acompanhar essas entrevistas com uma animação gráfica. Por exemplo, para nossa investigação sobre a indústria do luxo, que conduzimos em parceria com a Mediapart e a European Investigative Collaborations (a rede que deu origem ao Football Leaks) tivemos que explicar a estratégia de otimização tributária usada pela gigante da moda Kering. Explicamos esse mecanismo nos apoiando em entrevistas com fontes internas --que queriam permanecer anônimas-- que nos contaram o que estava acontecendo dentro da operação, e utlizamos animações que ilustravam como funcionava. A jornalista que realizou essa investigação e seu editor de vídeo tiveram a ideia de fazer a animação começar na mesa de uma costureira.

Misturamos três tipos de narração: entrevistas com fontes internas, animações e reportagens no campo. Nosso objetivo era demonstrar, tomando nosso tempo, passo a passo, como a Kering conseguia evitar o pagamento de impostos na França e na Itália.

Compare com objetos da vida cotidiana

Para a nossa investigação sobre implantes, que realizamos através de uma parceria com o Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ, em inglês) como parte dos Implant Files, tivemos de explicar com funcionam os órgãos autorizados [que avaliam a conformidade dos produtos] e como os implantes entraram no mercado europeu.

Percebemos que seria mais fácil explicar isso através de uma comparação. Então começamos com um objeto que todo mundo conhece, um capacete de bicicleta, e então fizemos uma animação que mostrou que para colocar esse objeto no mercado europeu, ele deve ter o selo de Conformidade Europeia, também conhecido como rótulo CE. Para os implantes, é obrigatório passar por órgãos autorizados que distribuem esse rótulo. (Assista a animação no vídeo, em 15'21”.) Essa explicação foi necessária para que nossos espectadores entendessem como um implante pode entrar no mercado, mesmo com um dossiê técnico muito fraco.

Brinque com os ritmos

A animação que fizemos para a investigação sobre implantes dura um minuto e 30 segundos no total. Para a TV, isso é muito longo. É a duração de uma matéria inteira em um noticiário. Hoje, as pessoas estão acostumadas com formatos muito curtos de matérias. Isso torna o tempo um elemento mais complicado, por isso é importante brincar com os ritmos alternando passagens curtas e longas.

Deixe os espectadores respirarem

Tentamos evitar o tom dramático frequentemente usado na televisão. Inserimos regularmente  toques de humor e escárnio em nossas investigações. Algumas pessoas odeiam isso, mas nós defendemos essa decisão. O uso do humor é uma maneira de remover a ansiedade e de ficar um pouco distante do assunto. Os tópicos que abordamos são muito pesados e temos que dar aos espectadores momentos para respirar. O riso introduz uma ruptura narrativa, que alivia a tensão e revive a atenção dos espectadores.

Dedique tempo para selecionar seu tópico

Às vezes, trabalhamos por dois ou três meses em uma investigação e depois a abandonamos porque percebemos que o assunto não estava à altura do nosso programa. Temos muito cuidado em não dedicar todos os recursos do nosso programa para tópicos que realmente não importam para as pessoas, porque, do contrário, é como se estivéssemos esmagando um inseto com um trator. O que investigamos deve causar uma comoção legítma nas pessoas e estar no mesmo nível de outros tópicos que escolhemos investigar; caso contrário, pode se voltar contra nós.

Inclua o repórter, mas cuidadosamente

Nossos segmentos ao estilo de Michael Moore, nos quais Elise Lucet interpela CEOs ou políticos em busca de sua sua responsabilização, são uma marca registrada do nosso programa. Pensamos que mostrar a recusa dos líderes em responder às nossas perguntas é importante, porque não podemos nos contentar em obter sistematicamente as respostas de seus serviços de relações públicas dizendo que não podem comentar. Se as empresas que estamos investigando não nos dão respostas, nós as buscamos. Não estamos querendo fazer sensacionalismo; só queremos respostas reais. Temos perguntas a fazer, que são o produto de meses de trabalho. Nós não estamos aqui para adular.

Em 2015, para uma investigação sobre a forma como a França faz negócios com nações totalitárias, nós confrontamos a ex-ministra da justiça francesa Rachida Dati, e ela usou palavras muito fortes contra Elise Lucet, chamando-a de “pauvre fille” (insulto francês que pode ser traduzido como “garota burra”). Esta parte da matéria tornou-se viral e eclipsou totalmente a investigação. Tivemos cerca de um milhão de visualizações desse trecho, mas as pessoas estavam esquecendo o cerne da nossa investigação e apenas o trecho estava sendo compartilhado nas redes sociais. Hoje, somos muito mais cuidadosos com a forma como nos comunicamos em torno desses tipos de segmentos.

Proteja suas fontes

Estamos em contato com diferentes tipos de fontes. Algumas aceitam compartilhar suas histórias abertamente, mas outras preferem ficar anônimas. Neste caso, usamos diferentes técnicas para protegê-las. Geralmente, borramos suas imagens e modificamos sua voz. Em alguns casos extremos, como em nossa investigação sobre o suposto financiamento da campanha eleitoral do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy pela Líbia, recriamos uma entrevista usando um ator. Nós o filmamos na semi-escuridão, de modo que suas palavras foram a parte mais destacada.

Encontre o responsável

Nós nunca decidimos que não podemos investigar um tópico porque é muito complexo. No entanto, é importante poder identificar uma parte responsável. Temos que escolher os tópicos em que há alguém que tomou decisões que levaram a essa situação problemática. É necessário ter uma pessoa responsável e que essa pessoa esteja em posição de responder por suas ações.


Este artigo foi publicado originalmente na Global Investigative Journalism Network e reproduzido na IJNet com permissão. 

Marthe Rubió é editora da GIJN em Francês. Ela trabalhou como jornalista de dados no jornal La Nación, na Argentina, e como freelancer para várias mídias, como Slate, El Mundo, Libération, Le Figaro e Mediapart. Ela também trabalha como instrutora de jornalismo de dados.

Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Constellate