Dicas para cobrir os protestos contra a violência policial nos EUA e ao redor do mundo

porDavid Maas and Taylor Mulcahey
Jun 2, 2020 em Segurança do jornalista
Police car

Faz uma semana que um policial branco de Mineápolis ajoelhou no pescoço de George Floyd, matando este homem negro de 46 anos.

Nos dias que se seguiram, manifestantes foram às ruas em várias cidades dos Estados Unidos para exigir justiça para Floyd — e o fim do racismo que perpetua as desigualdades sistêmicas no país.

As desigualdades não se refletem apenas nos recentes assassinatos de homens e mulheres negros como Floyd, Ahmaud Arbery e Breonna Taylor. A pandemia de COVID-19 nos EUA afetou desproporcionalmente as pessoas negras e latinas. As consequências econômicas da pandemia afetaram mais as comunidades não brancas. Estes são apenas os exemplos mais flagrantes de hoje.

Com o escalamento dos protestos, é importante que jornalistas trabalhem e informem com responsabilidade.

Isso se estende a todos os aspectos de sua reportagem. A linguagem é crucial, o contexto é essencial e os fatos são fundamentais. À luz dos quase 100 ataques contra jornalistas que cobrem manifestações, sua proteção e segurança também precisam ser lembradas. 

Reunimos dicas e recursos para jornalistas que cobrem os protestos:

(1) Mantenha-se seguro

Segurança e proteção devem ser a principal prioridade para você e sua equipe. Muitos jornalistas foram feridos reportando os protestos do fim de semana. Cobrir a agitação provavelmente será perigoso.

Embora seja importante que você consiga a história, deve tomar medidas para reduzir o risco para si e para os outros.

"Seu objetivo deve ser chegar perto o suficiente para observar a cena sem comprometer a si mesmo ou a outros ou interferir nas operações de segurança ou resgate", escreve Al Tompkins em um artigo para o Poynter. Este recurso é uma leitura obrigatória, oferecendo dicas práticas para os jornalistas que saem na rua para documentar as manifestações.

No domingo, o Comitê para a Proteção dos Jornalistas emitiu um comunicado de segurança que detalha as ameaças e considerações para os jornalistas.

Abaixo estão recursos adicionais de especialistas para segurança ao cobrir agitações civis:

(2) Escolha suas palavras com cuidado

Jornalistas contam histórias sobre o que está acontecendo. Como resultado, têm um tremendo poder na formação da narrativa em torno dos eventos. O jornalismo ajuda a orientar como o público entende e percebe os movimentos sociais. Cada palavra que escolhemos é significativa.

Uma pesquisa de Danielle K. Kilgo, da Universidade de Indiana, descobriu que os jornais no Texas eram mais propensos a chamar protestos contra o racismo anti-negro de "motins" e mais propensos a escrever positivamente sobre os objetivos dos protestos relacionados à saúde e imigração, demonstrando um profundo  viés enraizado nas reportagens.

Evite o termo "revolta", escreveu o repórter da Associated Press Aaron L. Morrison no Twitter. Ele aconselhou o uso do termo "agitação civil".

A editora pública da National Public Radio, Kelly McBride, sugeriu aposentar o termo "homem negro desarmado" ou "sem arma" ou, pelo menos, usá-lo com moderação e intenção. “De fato, toda a história de violência injustificada dos brancos contra os negros está enraizada em mais do que o fato de o homem negro ter ou não uma arma”, ela escreveu. Para entender melhor por que os jornalistas devem reduzir o uso, leia a matéria completa.

Os jornalistas também tendem a internalizar o jargão policial. Eles o incorporam em suas matérias de uma maneira que acaba escondendo a verdade sobre um incidente de violência policial, escreveu Adam Johnson em um artigo de 2016 para a FAIR. Os exemplos incluem "tiroteio com policiais", "suspeito/sujeito" e "briga". Para entender melhor o uso e as conotações associadas a esses termos e frases -- e por que devem ser evitados -- leia o artigo de Johnson.

[Read more: Dicas para se manter seguro em cobertura de protestos violentos]

(3) Evite usar voz passiva

Como regra, os jornalistas raramente devem usar a voz passiva. Repórteres profissionais sabem disso. Então, por que a voz passiva aumenta quando escrevemos sobre violência policial?

“A voz ativa toma autoria (alguém fez alguma coisa) enquanto a voz passiva torna a autoria mais nebulosa (algo foi feito por alguém). Isso afasta a coisa errada do sujeito”, escreveu o jornalista Joshua Adams, de Chicago.

Já vimos isso acontecer na cobertura da violência durante os protestos do fim de semana passado. Basta verificar este tuíte da colunista Rebecca Traister. O colunista do Washington Post Radley Balko analisou de maneira abrangente essa "gramática curiosa" neste artigo de 2014.

Revise suas matérias, manchetes e publicações nas mídias sociais e elimine a voz passiva o máximo possível.

"Eu argumentaria que eles têm uma obrigação ética, profissional e moral de permanecer em voz ativa e atribuir uma agência clara ao leitor", escreveu Adams. "É sutil, mas é importante."

(4) Situe a história dentro do contexto mais amplo da violência policial

Os protestos nos EUA dominaram as manchetes no fim de semana. Imagens de manifestantes, incêndios e propriedades danificadas encheram as primeiras páginas de jornais de todo o país.

Embora os jornalistas precisem cobrir esses eventos, os protestos não são a história toda. A história é a violência policial, escreveu Dylan Scott para a Vox. Os protestos e a violência em torno deles são apenas parte desse quadro maior.

Esses protestos podem ter começado após a morte de George Floyd por um policial branco em Mineápolis, mas existem como parte de uma longa história de violência policial contra pessoas negras nos EUA. Qualquer matéria sobre distúrbios civis acontecendo agora precisa incluir esse contexto.

"Editores: é seu trabalho ajudar o público a entender por que uma matéria sobre um protesto não é sobre danos à propriedade. A história é sobre a dor causada, injustiça não resolvida e direitos civis desprotegidos”, escreveu a editora Margarita Noriega no Twitter.

Para jornalistas iniciantes nesse assunto, ou escrevendo para países fora dos EUA, onde essa história não é familiar, reunimos alguns recursos abaixo, onde você pode aprender mais sobre incidentes recentes de violência policial.

(5) Cheque os fatos e amplifique os recursos de fact-checking

Os acontecimentos estão se desenvolvendo rapidamente. Enquanto muitas pessoas nos EUA saem às ruas para protestar, muitos mais estão acompanhando o que está acontecendo online, usando as mídias sociais. Isso cria uma oportunidade propícia para desinformação.

Alguns exemplos de notícias falsas incluem alegações de que um policial de Minnesota estava quebrando janelas em Mineápolis para incitar manifestantes e incentivar saques. Isso provou-se falso.

Em Washington, circularam rumores de que os sinais de celular estavam sendo bloqueados pela Guarda Nacional e outras forças de segurança para impedir que os manifestantes denunciassem incidentes de violência pela polícia. Isso também foi provado falso. A própria hashtag foi criada e promovida por contas falsas.

A lista de afirmações falsas continua. Os repórteres do BuzzFeed, Jane Lytvynenko e Craig Silverman, estão trabalhando para coletar uma lista contínua de alegações falsas e enganosas. O PolitiFact também está checando postagens sobre os protestos.

Os jornalistas devem ajudar a ampliar o trabalho de verificação de fatos dessas organizações, chamar informações erradas e desinformação quando as encontrarem online e se apoiar em publicações locais que também estão fazendo esse trabalho crítico.
 

[Leia mais: Dicas de fotojornalismo para dar seguimento a reportagens de protesto]

(6) Eduque você e sua equipe em reportagem sobre raça

Reportar sobre raça pode ser desafiador. Primeiro, reconheça isso. Então, eduque-se. Quanto mais informada for a cobertura que você fornecer a seus leitores, melhor situados eles serão para avaliar com clareza os eventos que se desenrolam ao seu redor.

Como a organização de justiça racial Race Forward explicou em seu Race Reporting Guide, é essencial que você lide com sistemas em seu trabalho, e não apenas com indivíduos. “Uma análise sistêmica significa que examinamos as causas e mecanismos que alimentam os padrões. Isso contribui para o bom jornalismo e abre novos caminhos para a investigação e narrativa.”

Os protestos atuais, por exemplo, não são apenas sobre o assassinato de George Floyd. Considere o que permitiu à polícia matar homens e mulheres negros nos EUA a uma taxa tão alta e frequentemente com impunidade. Analise as razões pelas quais a COVID-19 matou pessoas negras e latinas em uma taxa mais alta. Discuta por que, quando a economia se deteriora, as comunidades não brancas são as mais atingidas.

Em seguida, incorpore isso nas suas reportagens.

(7) Fotografe com cuidado

Pense criticamente sobre quem você está fotografando e como as fotos afetarão os sujeitos da sua reportagem.

“A ética de fotografar protestos contra a brutalidade policial foi questionada à medida que nos tornamos cada vez mais conscientes de que as fotos são frequentemente usadas como evidência pelas forças policiais. Vivemos em uma era de vigilância e os jornalistas devem pensar profundamente sobre nosso papel nos sistemas sociais”, afirmou uma declaração do Authority Collective.

As fotos podem causar danos não intencionais aos manifestantes, incluindo doxxing ou prisão.

Embora seja papel dos fotojornalistas documentar visualmente o que está acontecendo, o Authority Collective incentiva o emprego de métodos criativos para fazê-lo, como fotografar silhuetas, manifestantes mascarados ou a parte de trás da cabeça de alguém. Concentre a energia na história maior, como os protestos pacíficos que acompanham os que são mais violentos.

Sabemos que é uma linha desafiadora para delimitar, mas incentivamos você a explorar o debate e a seguir organizações como a Authority Collective, Women Photograph e Diversify Photo que estão participando de discussões sobre a ética do fotojornalismo em protestos contra a brutalidade anti-polícia.

Nós também estamos aprendendo. Se perdemos alguma coisa, informe-nos e atualizaremos este artigo.


Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Matt Popovich