Como lidar com coberturas angustiantes e traumáticas

por Cristiana Bedei
Nov 5, 2020 em Temas especializados
Vela e travesseiro

Morte, violência, guerra, terrorismo, desastres naturais, uma pandemia — em algum ponto, quase todo jornalista fará uma reportagem sobre uma história traumática e enfrentará consequências potencialmente angustiantes.

"Você nem mesmo precisa estar fisicamente presente", disse a Dra. Gail Kinman, professora visitante de psicologia da saúde ocupacional na Universidade Birkbeck de Londres. Entrevistar pessoas sobre suas experiências, ver imagens horríveis no computador ou cobrir histórias que atingem perto de casa — tanto literal quanto metaforicamente — podem ser o suficiente para causar estragos emocionais.

Os jornalistas geralmente são resilientes, mas não são imunes a traumas e angústias, que, segundo Kinman, podem causar dores de cabeça, tensão muscular, fadiga, pensamentos intrusivos, problemas de sono e pesadelos. Alguns podem perder prazos porque não conseguem se concentrar, ou suas habilidades de gerenciamento de tempo também podem se deteriorar. Podem sofrer de ataques de pânico, ansiedade, depressão ou abuso de substâncias.

Qualquer pessoa com problemas graves deve procurar ajuda profissional, que pode ser de difícil acesso. Alguns veículos de comunicação maiores fornecem serviços de saúde mental, mas isso não acontece no caso de organizações com poucos recursos. E os freelancers muitas vezes só podem contar com suas redes e ferramentas pessoais. Ao mesmo tempo, as faculdades de jornalismo raramente oferecem treinamento em reportagem de crise.

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“Aqueles com mais educação em trauma e reportagem de crise em cursos universitários relatam níveis mais altos de literacia de trauma”, disse Natalee Seely, professora assistente de jornalismo na Universidade Estadual Ball. "Maior educação em trauma significa uma força de trabalho mais saudável e um jornalismo de qualidade."

Seely estuda os efeitos sobre a saúde mental em reportagem de situações traumáticas. Ela incentiva programas de jornalismo a abordar estratégias para entrevistar vítimas de traumas, reconhecendo o desgaste emocional.

"Jornalistas recém-saídos da faculdade podem não estar preparados para a realidade do trabalho e muitos são designados primeiro para cobrir crimes ou a editoria geral", disse ela. "Palestrantes convidados, eventos simulados de notícias e leitura e discussão geral sobre este tópico podem ajudar muito a preparar os alunos."

À medida que a indústria começa a enfrentar o custo da reportagem para a saúde mental como um risco ocupacional, as redações podem desenvolver protocolos apropriados para proteger seus trabalhadores. Aqui estão algumas dicas de especialistas em psicologia e jornalismo para ajudar a eliminar os efeitos de uma cobertura intensa.

Não se pressione para 'superar'

"As reações emocionais a experiências angustiantes são normais e esperadas — de certa forma, seria mais problemático se as pessoas não reagissem assim", disse Kinman.

Recentemente, ela contribuiu para as orientações publicadas pela Sociedade Psicológica Britânica destinadas a qualquer pessoa que leva um trabalho estressante para casa. Muitos jornalistas podem achar as recomendações úteis, especialmente durante esta pandemia.

“Precisamos priorizar o autocuidado e a autocompaixão”, diz ela. "Muitas vezes temos expectativas excessivamente altas de nós mesmos para 'nos recompor', 'não ficar emocionados' e 'superar'."

Acalme seu corpo

Uma reação de estresse de curta duração geralmente é inofensiva e pode até ajudar a realizar o trabalho. Porém, reações mais graves e duradouras podem levar a sérios problemas de saúde física e mental.

É crucial tentar deixar o corpo em um estado mais relaxado após um evento intenso, disse a Dra. Elana Newman, professora de psicologia da Universidade de Tulsa e diretora de pesquisa do Centro Dart para Jornalismo e Trauma. “Uma das primeiras coisas a observar é como o sistema de excitação é ativado durante o evento e imediatamente após o expediente”, explicou ela. "Quero dizer respiração pesada, seu corpo estando em modo de alerta e não sendo capaz de se acalmar."

Qualquer ação segura e reconfortante pode funcionar para sair do estado de alerta, seja praticar a atenção plena, respirar profundamente, fazer exercícios ou mesmo tomar um banho demorado.

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Fale com alguém de confiança... quando você sentir vontade

Exceto nos casos de risco, ninguém deve ser forçado a falar mais do que o necessário, especialmente nas primeiras 24 horas após uma experiência angustiante, de acordo com Newman. “Frequentemente, recebo ligações de agências de notícias dizendo: 'Alguém acabou de voltar de um evento terrível, você pode falar com ele?' e eu respondo, 'Ele conseguiu lavar a roupa primeiro?”, disse ela.

“Uma das coisas que sabemos sobre o que torna as pessoas mais resilientes é dar ou receber apoio”, acrescentou ela. "Mas nas primeiras horas, deve ser realmente percebido como um apoio e não como algo forçado". Fale para a pessoa que você ficaria feliz em escutá-la. 

O apoio no trabalho pode ser crucial, mas não há problema em avaliar se você se sente bem em compartilhar com sua equipe e organização ou se prefere conexões pessoais de confiança ou ajuda profissional fora da redação.

Considere o tempo de recuperação

"As pessoas precisam de tempo de recuperação, a ciência é muito clara", disse Newman.

Depois de sofrer algo intenso, seu corpo e sua mente precisam se recuperar. Construir uma rotina saudável em torno de suas necessidades — em termos de alimentação, sono, exercícios, socialização — é fundamental.

Todo mundo já teve experiências estressantes no passado. "Faça um pouco mais das coisas que o ajudaram a superá-las e um pouco menos daquelas que não foram tão boas", sugeriu Newman.

Envolva-se em atividades catárticas

Em sua pesquisa, Seely descobriu que atividades catárticas como fazer exercícios, escrever ou até mesmo chorar são mecanismos de enfrentamento positivos comuns entre jornalistas. "Ajudam a liberar emoções e estresse", disse ela.

Suprimir ou conter os sentimentos — como os repórteres costumam fazer no trabalho — pode ser prejudicial a longo prazo. O envolvimento em atividades catárticas permite que alguém reconheça e processe esses sentimentos. “Essas atividades ajudam os jornalistas a 'desabafar' de maneira saudável”, disse Seely.

Permita-se um pouco de diversão

“Fazer algo divertido, não relacionado ao trabalho, é uma forma de se dedicar ao autocuidado”, disse Seely. "Isso é particularmente importante para aqueles que tendem a levar trabalho para casa com eles ou para aqueles que se sentem totalmente consumidos por seu trabalho, [o que pode ser comum para] jornalistas que estão cobrindo uma história detalhada ou construindo relacionamentos com fontes."

Encontrar diversão em pequenas coisas — como assistir a uma comédia, cozinhar, fazer um quebra-cabeça —ajuda a alcançar o equilíbrio e oferece uma maneira saudável de relaxar e escapar de pensamentos negativos.

Elabore um plano para antes, durante e depois

Pense no que você pode fazer antes, durante e depois de um acontecimento angustiante. Prepare várias estratégias divididas em termos de comprometimento de tempo, sugeriu Newman. "Eu adoro andar de caiaque", disse ela, "mas isso é como um compromisso de cinco a seis horas. O que posso fazer por dois minutos? Posso dar uma caminhada? Posso desviar o olhar?"

Essas intervenções podem ser curtas, como respirar ou colorir, ou mais demoradas, como fazer exercícios ou ver televisão.

“Quais são as coisas que você pode fazer para se adequar às circunstâncias e se manter seguro?”, perguntou Newman.

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Cristiana Bedei é uma jornalista freelance com base na Itália.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Alisa Anton.