Como jornalismo comunitário pode resolver problemas da reportagem 'paraquedas'

por Anna-Catherine Brigida
Dec 13, 2016 em Diversos

Dois anos atrás, protestos explodiram em Ferguson, no Missouri, após o homicídio de Michael Brown. Em seguida, as principais agências de notícias reservaram voos para jornalistas para cobrir as tensões raciais e as manifestações que continuaram perto de St. Louis, prontos para chamá-los de volta assim que a história terminasse.

Esse método tem sido muito popular para cobrir eventos de notícias nacionais e internacionais e é muitas vezes chamado de jornalismo "paraquedas", onde os jornalistas se mandam logo depois de aterrissarem. É um tipo controverso de reportagem. De um lado, jornalistas com conhecimento local criticam aqueles que chegam, por causa da sua incapacidade de capturar nuances e tendência para sensationalizar. Outros argumentam que os estrangeiros podem produzir cobertura de qualidade quando recebem tempo suficiente para pesquisar.

De qualquer forma, os jornalistas concordam que o conhecimento local é fundamental para produzir reportagens sólidas. As pessoas com mais conhecimento do que está acontecendo localmente são geralmente jornalistas locais.

Em muitos casos, as notícias nacionais importantes receberam de fato cobertura da mídia local antes de aparecerem nas grandes mídias nacionais. Porque os jornalistas locais têm mais conhecimento de fundo e fontes, suas reportagens são muitas vezes equilibradas, factuais e moderadas.

"O jornalismo comunitário continuará a ser a parte mais forte do jornalismo tradicional", disse Al Cross, diretor do Institute for Rural Journalism and Community Issues. "Tem um seguimento bastante leal e tem um maior nível de confiança entre o público do que as outras formas de jornalismo."

Assim, quando outros jornalistas chegam de "paraquedas', eles podem fazer mais mal do que bem, de acordo com o professor de jornalismo da Universidade de Ohio, Bill Reader, que estuda jornalismo comunitário. Esse tipo de reportagem muitas vezes coloca ênfase nos recursos locais e interrompe o fluxo de informações entre oficiais, jornalistas locais e a comunidade.

Mas não tem que ser sempre assim. Através de parcerias com jornalistas locais ou da distribuição de conteúdo de publicações comunitárias, a cobertura de grandes eventos, como os protestos em Ferguson ou os Jogos Olímpicos de 2016, pode melhorar muito ao mesmo tempo que reduz os custos para os meios de comunicação. A chave, de acordo com Reader, é trabalhar com a mídia local sem explorá-la.

"Em vez de fazer [jornalismo 'paraquedas'], [a mídia] pode realmente investir em alguém que está no campo", disse Reader. "Mesmo se não são originalmente do local, eles moram lá há um tempo suficiente que são mais do que apenas turistas."

Foi isso que o Huffington Post fez para cobrir os protestos de Ferguson. A mídia digital contratou a repórter local Mariah Stewart como sua "colaboradora de Ferguson" para cobrir a brutalidade policial e a injustiça social na área, que ela já cobria há dois anos.

Outras organizações de notícias optaram por fazer parcerias com a mídia comunitária. Para as Olimpíadas de 2016, o jornal Guardian juntou-se a repórteres das favelas do Rio de Janeiro para publicar reportagens em primeira pessoa sobre como os jogos afetariam essas comunidades.

Apesar de passos positivos com esses tipos de projetos, muitos meios de comunicação estão presos às maneiras antigas. Um sentimento de superioridade entre os meios de comunicação maiores significa que eles não confiam em jornalistas locais para fazerem seus trabalhos, de acordo com Reader. Quando isso acontece, a cobertura sofre.

"Em todo o mundo a imprensa comunitária é um grande recurso inexplorado para notícias e informações sobre o mundo em que vivemos", disse Reader. "Os principais meios de comunicação a ignoram por sua conta e risco."

Imagem sob licença CC Flickr via Omar Chatriwala