Como a agitação popular e a COVID-19 moldaram o jornalismo no Oriente Médio

Oct 13, 2021 em Temas especializados
Lebanon flags

A repressão à liberdade de imprensa no Oriente Médio não é novidade — e só se intensificou durante a pandemia da COVID-19 e na sequência da onda de protestos ocorridos na região há dois anos.

"Eu acho que é possível afirmar que a liberdade de imprensa piorou após os protestos de 2019", diz Kareem Chehayeb, jornalista independente no Líbano. Em 2020, "jornalistas foram mortos no Iraque em um ataque a tiros e uma série de prisões foram feitas no Egito, onde forças de segurança invadram a casa de Haisam Hasan Mahgoub [correspondente do meio egípcio Al Masry Al Youm] e o prenderam sob acusação de terrorismo", ele completa. "A editora-chefe do Mada Masr, Lina Atallah, foi presa por fazer uma matéria sobre o ativista egípcio Alaa Abdelfattah, que está preso."

Diante desses desafios para a liberdade de imprensa, os profissionais da área desenvolveram novas narrativas e deram um gás no jornalismo cidadão. Conheça abaixo alguns exemplos de como o jornalismo evoluiu no Oriente Médio.

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Dificuldades econômicas

Trabalhar como jornalista nos dias de hoje é desafiador em todo o mundo. No Líbano, profissionais de mídia também enfrentam uma crise econômica contínua, que se intensificou após a moeda local despencar em 2019 e na sequência da explosão no porto de Beirute em 2020.

Repórteres que trabalham em veículos locais no país estão recebendo apenas uma fração de seus salários, de acordo com Sobhiya Najjar, âncora da LBCI e produtora da BBC Árabe. "Eles sofreram uma pressão enorme na cobertura diária de política, economia e questões relacionadas à COVID", ela diz. Jornalistas têm tido pouco espaço também para usar diferentes meios e formatos, como reportagem investigativa, o que requer mais recursos e tempo, ela explica.

As pressões enfrentadas são especialmente pronunciadas quando o assunto é jornalismo investigativo. "Quando veículos locais tentam produzir matérias investigativas, eles têm mais chances de serem questionados por autoridades libanesas por estarem fazendo esse trabalho, diferentemente de quando um veículo internacional está fazendo a mesma coisa", Najjar afirma. "A liberdade de imprensa no Líbano está em perigo e carece de proteção, e os jornalistas podem facilmente serem levados na Justiça."

Jornalismo cidadão

A mídia alternativa começou a emergir no Líbano ao longo dos últimos dois anos, motivada principalmente por cidadãos que se decepcionaram com a cobertura de veículos locais tradicionais, de acordo com Najjar. A maioria dos meios de comunicação do país também são de propriedade de famílias de políticos ou de empresários, acrescenta Chehayeb. 

"Ao mesmo tempo, você tem uma nova onda de jornalistas e profissionais de comunicação que não estão nesse meio e, em última análise, não fazem parte dos principais grupos de imprensa", diz Chehayeb. "Jornalistas brilhantes e honestos correram riscos significativos para fazer reportagens com denúncias, mas eles têm certas linhas editoriais que não podem ultrapassar, dependendo de cada canal. Muitos são leais ao Estado ou a elementos do Estado — por exemplo, eles apoiariam um protesto, mas desligariam o microfone se um manifestante insultasse o exército."   

Enquanto alguns jornalistas locais produzem matérias subjetivas que servem a certos partidos políticos, outros estão focados na cobertura dos protestos no Líbano. O Akhbar Al Saha e o Megaphone são exemplos de veículos alternativos que focam em jornalismo cidadão, ao cobrirem questões relevantes para o público, como os protestos. Ambos postam vídeos frequentemente nas redes sociais, com matérias sobre questões como os esforços insuficientes para a vacinação no país, corrupção do governo e protestos nas ruas do Líbano.

[Leia mais: A mídia no Líbano um ano após a explosão em Beirute]

Conhecimento compartilhado e mudança para a reportagem multimídia

Alguns veículos libaneses se voltaram para os podcasts sobre os levantes populares, incentivando a população a discutir tópicos específicos sobre as ações do regime atual e as tentativas do governo de censurar os jornalistas, diz Najjar.

Também houve um aumento na demanda por conteúdo explicativo em vídeo. A audiência local gosta desse tipo de formato porque ele oferece fatos, dados e análise de um jeito simplificado, de acordo com Chehayeb. "Os protestos e a crise econômica definitivamente impulsionaram o desejo das pessoas de saber mais sobre o país nos mínimos detalhes, mas sem o jargão político", ele diz.

Sherif Mansour, coordenador do Comitê de Proteção dos Jornalistas no Oriente Médio e no Norte da África, reforça a observação de Chehayeb sobre a popularidade do conteúdo visual no jornalismo — e não apenas no Líbano, mas em toda a região, e seu papel em ajudar as pessoas a entenderem os elementos dos protestos. "O uso de conteúdo visual na cobertura dos últimos protestos na região lançou luz sobre o papel das mulheres nas manifestações, já que fotos de mulheres no Sudão e no Líbano mobilizando manifestantes e liderando os protestos viralizaram", ele diz. 

É importante mencionar que jornalistas locais estão se comunicando mais entre si apesar de suas diferentes abordagens ao jornalismo, explica Mansour, acrescentando que a tecnologia também está permitindo que eles trabalhem em questões relacionadas ao controle do governo.

"Jornalistas e veículos independentes na região estão aprendendo uns com os outros e também defendendo uns aos outros muito mais além das fronteiras do que dentro das fronteiras", ele diz. "Você vai encontrar muito mais solidariedade para além das fronteiras, e acho que essa é a lição de todos aqueles protestos que aconteceram um atrás do outro em um curto período de tempo."


Foto por Charbel Karam no Unsplash.