Automação pode liberar jornalistas para se concentrarem mais na reportagem

por Sérgio Spagnuolo
Oct 29, 2020 em Jornalismo de dados
Um computador com código ao lado de uma pilha de livros e papéis

Em agosto passado, decidi contratar um jornalista para produzir conteúdo para o projeto Science Pulse. Essa pessoa me ajudaria com postagens nas redes sociais, newsletters e reportagens, com o objetivo de fornecer a outros jornalistas conhecimento científico proveniente das redes sociais. Depois de algumas semanas, tendo trabalhado no orçamento e nas metas que tinha em mente, desenvolvi todo o plano e contratei dois desenvolvedores de meio período para criar um bot do Twitter e um sistema automatizado de entrega de notícias.

De uma vez só, resolvi dois problemas: alimentar a linha do tempo do Twitter do meu projeto e fornecer o conteúdo da newsletter para os usuários. Após o lançamento, nenhuma mão humana precisou tocar esses dois fluxos de conteúdo. Foi um cenário clássico em que a automação literalmente roubou o emprego de um jornalista. Afinal, por que eu precisaria de alguém produzindo conteúdo que meus algoritmos já me forneciam quase de graça? Além disso, o plano inicial era contratar um jornalista por tempo limitado, enquanto a automação duraria o tempo que eu quisesse.

À medida que me aprofundava no desenvolvimento desses produtos automatizados, uma pergunta sempre surgia: precisamos de estratégia e raciocínio, precisamos... de um jornalista. Qual é o ponto de disseminar conteúdo sem estratégia? Além disso, contratei um gerente de comunidade para pilotar a nave por um tempo, e agora estamos indo melhor com os dois: bots e humanos.

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A automação no jornalismo é algo que continua a gerar um pouco de ceticismo. Não apenas por seu potencial de eliminar tarefas que os jornalistas costumam fazer, mas também porque as máquinas simplesmente não são os melhores jornalistas. Os jornalistas podem (e devem) ser cautelosos com os efeitos da automação de cada aspecto de uma redação — como a Microsoft tentou fazer com o MSN —, mas o que aprendi com essa experiência é que a automação é um grande aliado, não uma solução autônoma.

Automatizar tarefas repetitivas e a criação de conteúdo simples podem ter um lugar muito útil no jornalismo e, sem dúvida, levar a melhores empregos na indústria. Pense em um operador de elevador: com notáveis ​​exceções, agora geralmente não precisamos mais de pessoas apertando os botões do elevador para nós. Esta é apenas a realidade.

Isso me traz de volta a 2012, quando eu trabalhava para a Reuters no Brasil com o objetivo principal de ler relatórios corporativos e escrever manchetes básicas e rápidas com base neles. Eu basicamente repetia o que os arquivos diziam. Se uma empresa de capital aberto anunciasse relatórios financeiros, uma recompra de ações ou um novo produto, eu publicaria de um a quatro parágrafos e deixaria para o repórter especializado desse setor descobrir o resto. Era um trabalho mecânico, repetitivo e enfadonho. Teve importância na época para a empresa e para os leitores, mas o trabalho não tinha estratégia, nenhuma reportagem real e tomada de decisão. Por que um jornalista precisaria fazer isso? Pergunta justa, com uma resposta previsível: exceções à parte, a maioria dos bots faz isso agora.

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Como em qualquer outro tema que é afetado pelas mudanças que o jornalismo está passando agora, existem questões que devem ser abordadas. Um relatório de março de 2019 do Institute for Information Law citou "preocupações sobre a exposição seletiva e o acesso seletivo à informação, efeitos prejudiciais na esfera pública, algoritmos de recomendação mal projetados e concentração de atenção em algumas plataformas em detrimento de um mercado de mídia mais amplo e florescente”.

“Inegavelmente, há também o risco de que tecnologias baseadas em inteligência artificial sejam desenvolvidas para explorar vulnerabilidades de usuários para manipular, corroer a privacidade, institucionalizar a vigilância intelectual e criar, intencionalmente ou não, novas desigualdades digitais”, observou o relatório.

Existe uma forma de pensar o lugar da automação nas redações (inclusive nas menores) que não leva o jornalista a perder o emprego. Mas isso não significa que o software deva fazer um trabalho jornalístico. De modo nenhum. Se os jornalistas redirecionarem seus recursos para o trabalho que mais importa — como reportagem real, investigação, análise — podemos deixar as tarefas repetitivas, chatas e pequenas para os bots. Eles não se importam.

A Reuters, Bloomberg e a maioria das agências de notícias já fazem isso. A Forbes e The Guardian também. Uma ótima matéria do New York Times emprega exatamente essa estratégia de fazer com que a automação faça as tarefas menores. O Washington Post até ganhou um prêmio por um bot deles.

Agora que temos ferramentas cada vez mais poderosas — como o GPT-3 da OpenAi, um modelo de linguagem promissor que usa inteligência artificial para gerar texto automatizado semelhante ao humano lançado em junho de 2020 — a automação parece ainda mais promissora (e talvez também desafiadora) do que nunca para jornalismo. Devemos estudá-la e colocá-la a nosso favor.

Há uma discussão entre aqueles que veem a automação como um inimigo, prevendo caos e desemprego em massa, e aqueles que veem isso de forma diferente. Mas há uma coisa sobre a qual todos concordam: a automação está acontecendo de uma forma ou de outra, em vários setores diferentes ao mesmo tempo, incluindo o jornalismo, e cabe a nós fazer disso um aliado, preservando da melhor maneira os empregos de jornalismo e aumentando a produtividade em nossas redações. Precisamos apenas de uma estratégia (humana) adequada.


Sérgio Spagnuolo é bolsista Knight do ICFJ no Brasil. 

Este artigo foi publicado originalmente no StoryBench e reproduzido na IJNet com permissão. 

Imagem sob licença CC no Unsplash via Emile Perron