6 truques imperdíveis para jornalistas investigativos

porCarla Nudel and Nicole Martin
Aug 29, 2020 em Jornalismo investigativo
Lupa sobre fundo azul

Este artigo faz parte de uma série de tópicos relacionados a jornalismo, gênero e liderança da Chicas Poderosas (Meninas Poderosas), uma comunidade global que promove a liderança feminina e gera conhecimento para moldar o futuro da mídia. Siga a Chicas Poderosas no TwitterInstagram e Facebook.

Hoje em dia, é comum os jornalistas se sentirem perdidos em busca de fontes relevantes e confiáveis online. Embora às vezes pareça mais difícil do que encontrar uma agulha em um palheiro, existem muitos recursos digitais gratuitas que podem tornar o processo mais fácil.

Estas seis dicas podem ajudar jornalistas a serem mais eficazes em suas investigações.

(1) Use a pesquisa avançada para encontrar fontes de qualidade

O jornalismo investigativo requer fontes oficiais para respaldar nossas afirmações e dar contexto às nossas descobertas. Por isso, nossas referências devem ser diversas, confiáveis ​​e equilibradas em todos os sentidos. No entanto, ao usar um mecanismo de pesquisa para procurar as fontes apropriadas, as publicações não verificadas costumam atrapalhar.

Uma maneira de tornar isso mais fácil é usar operadores de pesquisa avançada. Por exemplo, ao adicionar "filetype" à nossa consulta, podemos pesquisar formatos específicos como PDFs ou planilhas do Excel. Por exemplo, se estivermos procurando estatísticas sobre pobreza, podemos adicionar “filetype” à nossa consulta digitando “estatísticas pobreza filetype:xls.” Encontraremos rapidamente arquivos específicos de que precisamos, sem perder tempo analisando resultados irrelevantes.

Outro operador-chave de pesquisa é “site”, que nos permite examinar um domínio ou site específico. Por exemplo, se quisermos encontrar o último relatório sobre a situação da COVID publicado pela Organização Mundial da Saúde, podemos tentar pesquisar “covid site: who.int”.

Caso não saibamos exatamente onde estão as informações, podemos pesquisar apenas por um sufixo de domínio. Por exemplo, para procurar fontes oficiais sobre pobreza publicadas por uma entidade governamental no México, podemos usar “pobreza site:gob.mx” para tornar nossa pesquisa mais eficaz.

[Leia mais: 5 dicas para jornalistas que trabalham com delatores e informantes]

(2) Verifique novamente 

Ao abordar um tópico de pesquisa, encontraremos dados, declarações, imagens e documentos que podem não ser necessariamente precisos ou verdadeiros. Por isso, é muito importante verificar as informações tanto no início quanto no final da investigação.

Se virmos uma frase que pareça suspeita e quisermos verificar se ela foi publicada no passado, podemos pesquisá-la entre aspas para ver outros lugares onde essas palavras exatas aparecem na web.

Por exemplo, se quisermos verificar se Sherlock Holmes alguma vez disse “elementar, meu caro Watson”, podemos usar aspas para pesquisar a frase dentro do Google Books. O mecanismo de busca fará a varredura da obra completa de Arthur Conan Doyle, e perceberemos que isso nunca foi dito exatamente em uma de suas publicações.

Abraham Lincoln with fake quote

Podemos usar uma estratégia semelhante se virmos uma frase ou parágrafo sobre o qual gostaríamos de ter mais contexto ou que pareça plágio. Podemos pesquisar a frase entre aspas para ver se ela foi publicada em outro site no passado.

Além disso, se quisermos verificar se um político ou figura pública usou uma frase nas redes sociais ou se deseja rastrear um determinado tuíte, podemos combinar essa frase com o operador “site” para tornar nossa consulta mais precisa. Um exemplo: “'‘a terra é quadrada' site:twitter.com/*nomedeusuário*”.

Se uma declaração falsa se espalhar, como “A OMS recomenda não usar máscaras em público”, podemos pesquisar diferentes combinações dessa frase para ver onde ela apareceu primeiro.

Para avaliar a origem e validade das fotos, podemos usar a busca reversa de imagens. Você pode pesquisar uma foto para encontrar resultados semelhantes e ver uma lista de sites onde ela foi publicada anteriormente. Esse método é sempre a primeira etapa para contextualizar qualquer informação visual.

Para reverter a pesquisa de imagens, clique com o botão direito sobre uma imagem e selecione “pesquisar imagens no Google” no Google Chrome ou faça o upload da imagem no Google ou outro motor de busca.

[Leia mais: 9 ferramentas para verificar imagens e vídeos]

(3) Pesquise o contexto para encontrar o ângulo da história

Ao iniciar um projeto de pesquisa, devemos nos perguntar o que exatamente esperamos descobrir. Tópicos abrangentes costumam ser tentadores, mas impossíveis de abordar. É fundamental restringir o escopo da história.

Se tentarmos descobrir como funciona o sistema de saúde de um país, por exemplo, provavelmente não encontraremos algo digno de ser publicado. Porém, se nos guiarmos por uma linha editorial -- no caso da Chicas Poderosas, histórias sub-representadas com perspectiva de gênero -- podemos encontrar um ângulo mais específico para a nossa história. Um exemplo pode ser o acesso de pessoas seropositivas a cuidados de saúde para as idades entre 20 e 29 no México.

(4) Configure alertas para descobrir atualizações

É importante nunca perder atualizações sobre o assunto que estamos pesquisando. Uma ferramenta fundamental para isso é o Google Alerts, que faz a varredura de todas as publicações na web relacionadas a uma determinada palavra-chave e envia um e-mail diário, semanal ou instantaneamente com um resumo e links para novos resultados. Os alertas podem ser configurados para monitorar pessoas ou tópicos específicos para que possamos acompanhar novas publicações que fazem referência a uma determinada fonte até o final de nossa investigação. Por exemplo, se quisermos acompanhar todas as novas publicações relacionadas à violência de gênero, podemos definir alertas para “feminicídio”, “violência por parceiro íntimo”, “microagressões de gênero” ou outras palavras-chave relevantes.

Ao definir um alerta, seja preciso. Para tornar nossos alertas mais precisos, podemos empregar os operadores de busca mencionados acima. Por exemplo, se quisermos que os alertas retornem informações publicadas por organizações sociais em formato PDF, adicionaríamos "filetype PDF site:org".

(5) Transforme imagens em texto

Em sua pesquisa, você pode encontrar tabelas úteis com dados, mas não necessariamente no formato que precisa. Isso é comum, já que muitos relatórios são publicados como PDFs ou gráficos ilustrativos. Uma transcrição manual dos dados demoraria muito, mas há outra maneira.

Primeiro, faça upload da imagem ou PDF para o Google Drive. Em seguida, clique com o botão direito sobre o arquivo e selecione “Open in Google Docs” [Abra em Google Docs]. O Google criará um documento com a imagem, mas também com uma transcrição de texto abaixo.

(6) Considere a "Teoria do Iceberg"

Depois de uma longa investigação, temos que deixar de lado parte do nosso trabalho para tornar o produto final atraente, simples e claro para o leitor médio. De acordo com a teoria do iceberg de Ernest Hemingway, se uma investigação for bem feita, apenas 25% das descobertas serão visíveis em nossa história final - assim como apenas a ponta de um iceberg é visível, e o resto está escondido debaixo d'água.

Iceberg

O que deixamos debaixo d'água e o que decidimos deixar nossos leitores verem dependerá de nossos critérios jornalísticos. Isso inclui não apenas descobrir quais elementos acrescentam novas informações ao discurso público, mas também escolher os ângulos mais importantes para nossa sociedade.


Nicole Martin é jornalista investigativa residente na Argentina e embaixadora da Chicas Poderosas. É também membro da 4ª geração da Rede Distintas Latitudes (MX) LATAM e cofundadora da Revista Colibrí.

Carla Nudel é jornalista e treinadora argentina especializada em ferramentas digitais e inovação na mídia. Ela lidera a comunidade Chicas Poderosas em seu país.

Imagem principal sob licença CC no Unsplash via Markus Winkler