Violência online impacta mulheres jornalistas

por Julie Posetti
Dec 14, 2020 em Segurança do jornalista
A woman works at her laptop, which is surrounded by a coffee cup, notebook and glasses

Esta pesquisa foi realizada por Julie Posetti, Nermine Aboulez, Kalina Bontcheva, Jackie Harrison e Silvio Waisbord.

Um número alarmante de mulheres jornalistas agora é alvo de ataques online associados a campanhas orquestradas de desinformação digital. Os impactos incluem autocensura, recuo da visibilidade, aumento do risco de lesões físicas e sérios danos à saúde mental. Os principais perpetradores? Trolls anônimos e atores políticos.

Essas descobertas estão entre as primeiras divulgadas em uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês) sobre violência online contra mulheres jornalistas. Elas descrevem um quadro global da natureza profundamente enraizada do abuso de gênero, assédio e ataques sexuais contra jornalistas mulheres, junto com os obstáculos para soluções eficazes.

A pesquisa, que é o estudo mais abrangente e geograficamente diverso já realizado sobre o tema da violência online, foi oferecida em cinco idiomas e recebeu respostas de 714 mulheres jornalistas em 113 países. É parte de um estudo mais amplo encomendado pela Unesco para examinar a violência online em 15 países, com ênfase nas experiências intersetoriais e no Sul Global.

As jornalistas entrevistadas disseram que foram submetidas a uma ampla variedade de violência online, incluindo ameaças de agressão sexual e violência física, linguagem abusiva, mensagens privadas de assédio, ameaças de prejudicar sua reputação profissional ou pessoal, ataques à segurança digital, deturpação por meio de imagens manipuladas e ameaças financeiras.

Esses métodos de ataque estão se tornando mais sofisticados e evoluindo com a tecnologia. Eles também estão cada vez mais associados a ataques orquestrados alimentados por táticas de desinformação destinadas a silenciar jornalistas. Isso aponta para a necessidade de respostas à violência online que cresçam igualmente em sofisticação tecnológica e coordenação colaborativa.

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Aqui estão as 12 principais conclusões do relatório, que foi publicado pela Unesco para marcar o Dia Internacional dos Direitos Humanos:

(1) Quase três em cada quatro mulheres entrevistadas (73%) disseram ter sofrido violência online.

Os ataques online contra jornalistas mulheres têm sido um problema pernicioso por muitos anos. Agora, eles parecem estar aumentando drasticamente e incontrolavelmente ao redor do mundo, como nossas entrevistadas ilustraram.

(2) Ameaças de violência física (25%) e sexual (18%) atormentaram as mulheres jornalistas pesquisadas.

Mas essas ameaças não são apenas dirigidas às mulheres visadas: elas irradiam. Treze por cento das entrevistadas disseram ter recebido ameaças de violência contra pessoas próximas.

(3) Uma em cada cinco mulheres entrevistadas (20%) disse ter sido atacada ou abusada offline em incidentes propagados online.

Esta descoberta é particularmente preocupante dada a correlação emergente entre ataques online e o assassinato impune de jornalistas. Em descobertas relacionadas, 13% disseram que aumentaram sua segurança física em resposta à violência online, e 4% disseram que haviam faltado ao trabalho devido a preocupações com os ataques offline. Isso destaca seu senso de vulnerabilidade e sua consciência das possíveis consequências offline dos ataques digitais.

(4) Os impactos da violência online na saúde mental foram a consequência mais frequentemente identificada (26%). Doze por cento das entrevistadas disseram ter procurado ajuda médica ou psicológica devido aos efeitos da violência online e 11% disseram que haviam tirado dias de folga do trabalho como resultado.

A violência online contra jornalistas mulheres causa danos psicológicos significativos, especialmente quando é prolífica e contínua. Mas nossa pesquisa também demonstrou que os empregadores da mídia precisam fazer muito mais para apoiar a saúde mental e o bem-estar das vítimas. Apenas 11% de nossas entrevistadas disseram que seu empregador fornecia acesso a um serviço de aconselhamento se fossem atacadas.

(5) Quase metade (48%) das mulheres relataram ter sido assediadas com mensagens privadas indesejadas.

Isso destaca o fato de que grande parte da violência online contra jornalistas mulheres ocorre nas sombras da internet, longe da visão do público, onde lidar com o problema pode ser ainda mais difícil.

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(6) O tema da pauta mais frequentemente identificado em associação com o aumento dos ataques foi gênero (47%), seguido por política e eleições (44%) e direitos humanos e política social (31%).

Esses dados sublinham a função da misoginia na violência online contra mulheres jornalistas. Também destacam o papel dos ataques políticos à imprensa, ligados à política populista em particular, exacerbando as ameaças à segurança do jornalismo.

(7) Quarenta e um por cento das mulheres entrevistadas disseram ter sido alvos de ataques online que pareciam estar ligados a campanhas de desinformação orquestradas.

As mulheres jornalistas se encontram cada vez mais na mira das campanhas de desinformação digital que se aproveitam da misoginia e outras formas de discurso de ódio para esfriar a reportagem crítica.

(8) Os atores políticos foram as segundas fontes mais frequentemente observadas (37%) de ataques e abusos, depois de “atacantes anônimos ou desconhecidos” (57%).

O papel dos atores políticos como principais fontes e principais perpetradores da violência online contra mulheres jornalistas é uma tendência alarmante confirmada por esta pesquisa. Enquanto isso, a proliferação de contas de “trolls” anônimas e pseudônimos complica o processo de investigação dos perpetradores e os esforços para responsabilizá-los. A falta de transparência e a capacidade de resposta limitada das plataformas, especialmente aquelas onde os ataques são prolíficos, agravam esse problema.

(9) O Facebook foi classificado como a menos segura entre as cinco principais plataformas ou aplicativos usados ​​pelas participantes, com quase o dobro de entrevistadas classificando o Facebook como “muito inseguro” em comparação com o Twitter. Também atraiu taxas desproporcionalmente maiores de relatórios de incidentes entre as entrevistadas (39% em comparação com 26% do Twitter).

Considerando o papel do Facebook e do Twitter como vetores principais de ataques online contra jornalistas mulheres, os níveis de reportagem para as empresas de mídia social demonstrados pelos entrevistadas parecem relativamente baixos. Isso provavelmente reflete tanto um sentimento de futilidade frequentemente associado a tais esforços, quanto uma relutância geral entre as mulheres pesquisadas em levantar essas questões externamente. Além disso, a descoberta ressalta a necessidade urgente de as principais empresas de internet cumprirem seu dever de cuidar e enfrentar de maneira mais eficaz a violência online contra jornalistas.

(10) Apenas 25% das entrevistadas relataram incidentes de violência online a seus empregadores. As principais respostas que disseram ter recebido foram: nenhuma resposta (10%) e conselhos como “seja menos sensível” ou “seja forte” (9%). Dois por cento disseram que foram questionadas sobre o que fizeram para provocar o ataque.

As entrevistadas demonstraram a existência de um duplo impedimento a uma ação efetiva para lidar com a violência online vivida no decorrer do seu trabalho: baixos níveis de acesso a sistemas e mecanismos de apoio para as jornalistas atingidas, e baixos níveis de consciência sobre a existência de medidas, políticas e orientações para resolver o problema.

(11) As jornalistas entrevistadas com mais frequência indicaram (30%) que respondem à violência online que sofrem empregando autocensura nas redes sociais. Vinte por cento descreveram como se retiraram de todas as interações online e 18% evitaram especificamente o envolvimento com o público.

Tais atos, que podem ser considerados medidas defensivas empregadas por mulheres para preservar sua segurança, demonstram a eficácia das táticas de ataque online: são concebidos para frear a reportagem crítica, silenciar as mulheres e silenciar a verdade.

(12) A violência online afeta significativamente o emprego e a produtividade das mulheres entrevistadas. Em particular, 11% relataram faltar ao trabalho, 38% se retiraram da visibilidade (por exemplo, pedindo para ser retirada do ar e recuando para pseudônimos online), 4% deixaram seus empregos e 2% até abandonaram o jornalismo completamente.

Embora alguns desses números possam parecer pequenos, esse é um indicador significativo da perniciosidade do problema. Esses dados também demonstram as implicações negativas da violência online para a diversidade de gênero na (e por meio) da mídia de notícias.

Em última análise, os primeiros resultados desta pesquisa ilustram que a violência online contra jornalistas mulheres é um fenômeno global que exige ação urgente. Para que a liberdade de expressão seja sustentada, para que a diversidade no jornalismo floresça e para que o acesso à informação seja igual, as mulheres jornalistas devem ser vistas e ouvidas.

O clima de impunidade em torno dos ataques online levanta questões que exigem respostas. A impunidade encoraja os perpetradores, desmoraliza a vítima, corrói os fundamentos do jornalismo, agrava os riscos para a segurança do jornalismo e mina a democracia. Com base nessas descobertas perturbadoras, nove recomendações de ação são oferecidas no relatório completo, visando governos, plataformas de mídia social e empregadores da indústria de mídia.


Se você achou este conteúdo angustiante ou difícil de discutir, você não está sozinho. Existem recursos disponíveis para ajudar. Comece explorando os recursos do Dart Center for Journalism and Trauma e procure apoio psicológico se necessário.

Autores do estudo: Dr. Julie Posetti é diretora global de pesquisa do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês). Ela é uma jornalista premiada, que é academicamente afiliada ao Centro para a Liberdade da Mídia da Universidade de Sheffield (CFOM) e ao Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo da Universidade de Oxford (RISJ). Nermine Aboulez é pesquisadora associada do ICFJ e candidata a doutorado na Universidade de Oregon. Kalina Bontcheva é professora de ciência da computação na Universidade de Sheffield e membro do CFOM. Jackie Harrison é professor de comunicação pública, cátedra da Unesco sobre liberdade de mídia, segurança do jornalismo e a questão da impunidade e presidente do CFOM da Universidade de Sheffield. Silvio Waisbord é diretor e professor da Escola de Mídia e Relações Públicas da Universidade George Washington.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Thought Catalog