Por que ter uma editora de gênero

porIsabel González Ramírez
Jan 16, 2020 em Diversidade
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Este artigo, escrito por Isabel González Ramírez, faz parte de uma série da Chicas Poderosas, uma comunidade global que promove a liderança feminina e gera conhecimento. Leia outros artigos da Chicas Poderosas aqui e faça parte da comunidade no TwitterInstagram e Facebook.

O jornalismo é uma profissão construída sobre a objetividade, mas há pouco consenso sobre como isso realmente se parece. À medida que as mulheres jornalistas abraçam mais amplamente o feminismo, elas estão desafiando essa objetividade de novas maneiras. Para se atualizarem, as redações deveriam criar posições de editora de gênero em suas equipes.

Mulheres jornalistas desempenham um papel importante no ecossistema de notícias, especialmente na América Latina, onde as mulheres fundaram quase 40% dos meios de comunicação digitais nativos, de acordo com o estudo Ponto de Inflexão da SembraMedia. Muitas dessas repórteres estão se organizando em torno de suas ideologias feministas, dizendo em voz alta: "Sou feminista e jornalista", apesar da reação que costumam receber.

O jornalismo feminista nos permite contar histórias novas, mais completas e equitativas sobre tópicos que já não se podem negar que estão ​​na mente das pessoas, como abuso sexual, saúde reprodutiva, feminicídios e tetos de vidro.

Em maio, mais de 500 jornalistas se reuniram no Equador para o Zarelia, o primeiro festival feminista de jornalismo, representando 90 veículos de mídia digital em 13 países diferentes.

Zarelia

No Zarelia, as mulheres compartilharam metodologias de jornalismo feminista, construíram agendas transnacionais e colaborativas e identificaram situações em que se sentiam em risco. Muitas mulheres jornalistas enfrentam violência de gênero online e na vida real, como assédio de seus colegas, fontes ou do público, como aponta o relatório da pesquisadora Julie Posetti.

Em uma das oficinas do festival, organizada pela Chicas Poderosas, as participantes discutiram sua própria experiência diante de ameaças, agressões sexuais e assédio online. Além disso, as mulheres do workshop discutiram formas menos explícitas de assédio baseado em gênero, inclusive quando publicações não reportam questões relacionadas a gênero porque subestimam o interesse do público ou não veem o benefício de cobri-las.

Catalina Ruiz Navarro é a editora da Volcanica, a seção feminista da Nómada na Guatemala. Recentemente, ela fez uma investigação para denunciar vários casos de assédio sexual e abuso de colegas jornalistas por seu ex-chefe, Martín Rodríguez Pellecer. Durante um painel, ela explicou por que se considera feminista e por que isso é fundamental para seu trabalho. O jornalismo tradicional -- recusando-se a ser feminista -- não é imparcial, disse ela, "mas é ativismo pelo status quo".

Questões relacionadas ao gênero requerem conhecimento especializado e têm linguagem própria para explicar o momento histórico atual. Editoras de gênero surgiram nas redações para garantir que o conteúdo pare de promover estereótipos e analise as razões estruturais por trás da violência contra mulheres e pessoas LGBTQ +. Esse papel surgiu ao lado de outras posições que antes não existiam na mídia.

Ninguém pensa duas vezes que os meios de comunicação contratam editores de audiência no século 21. É uma posição que possui uma linguagem especializada, suas próprias métricas e parâmetros específicos relacionados ao monitoramento e incremento de seguidores da publicação.

No entanto, exigir uma editora de gênero é muito menos aceito, embora ambas as posições deem orientações aos veículos de comunicação sobre como se comportar dentro de uma realidade que não é facilmente compreendida. As editoras de gênero são especialmente importantes agora quando movimentos feministas na América Latina, como #NiUnaMenos, #MeToo ou #ElVioladorEresTú, levaram a uma maior visibilidade da violência de gênero. Durante anos, a violência contra as mulheres foi uma questão secundária na mídia, ou foi abordada apenas através de reportagens sensacionalistas nas quais, por exemplo, o feminicídio era considerado um "crime de paixão", sem se aprofundar nas razões estruturais que levaram os homens a terminar com a vida das mulheres. 

Em 2017, o New York Times se tornou uma das primeiras redações a criar uma posição de editora de gênero. O jornal espanhol El País seguiu o exemplo em 2018. Na América Latina, a Folha de São Paulo e as publicações argentinas Infobae e Clarín criaram novas posições editoriais dedicadas à diversidade e ao gênero em 2019.

Mesmo antes, foram criados “meios de comunicação feministas” autodenominados, como a Pikara Magazine (2010) na Espanha, Cosecha Roja (2010) na Argentina e a Agencia Pública (2011) no Brasil. Mas desde 2017, muitas iniciativas de jornalismo feminista e de gênero surgiram na América Latina, como La Periódica, Latfem, Volcánica, Kaja Negra e Managua Furiosa, entre outras.

“Todas as decisões que tomamos ao produzir uma história são subjetivas”, diz Natalia Arenas, editora da Cosecha Roja, com sede na Argentina, onde direitos reprodutivos como o aborto não são garantidos para as mulheres. Identificar-se como jornalista feminista é “tomar uma posição e declarar claramente o local de onde estamos informando: do nosso próprio desejo de ter plenos direitos sobre nossos corpos”, ela explica.

Andrea Dip, editora da Agência Pública, enfatiza que, em meio a ataques aos direitos das mulheres e das pessoas LGBTQ +, estimulados pelo governo brasileiro, é importante que os jornalistas cubram essas questões, e isso os torna feministas.


Imagem sob licença CC no Unsplash via Arièle Bonte