Violência contra jornalistas: O papel da mídia em reportar violações a liberdade de imprensa

porCarolina Morais Araujo
Jul 17, 2015 em Diversos

A crescente violência contra jornalistas em todo o mundo é preocupante. Até agora, 33 jornalistas foram mortos este ano, por razões diretamente relacionadas com seu trabalho, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ).

A impunidade é a regra após a maioria desses assassinatos: O CPJ diz que 90 por cento dos 370 assassinatos de jornalistas nos últimos 10 anos não resultaram em condenação. Enquanto organizações internacionais e não-governamentais consideram novas abordagens para combater este problema, o papel da mídia neste processo é raramente discutido.

Contudo, pode ser que os jornalistas tenham um papel a desempenhar na proteção de si mesmos. Ao cobrir as violações da liberdade de imprensa e os casos de violência contra jornalistas, a mídia pode conscientizar e, talvez, tornar as condições mais seguras, pressionando os governos a agir.

Como parte de seu trabalho em defesa da liberdade e segurança da imprensa, o Program on Independent Journalism da Open Society Foundations encomendou uma pesquisa a um grupo de quatro estudantes da Faculdade de Assuntos Internacionais e Públicos (SIPA, em inglês) da Universidade de Columbia para analisar a cobertura da imprensa sobre a segurança de jornalistas em cinco diferentes regiões.

O estudo foi realizado por mim, Carolina Morais Araújo (Brasil), Xin Yi Cheow (Cingapura), Angela LaSalle (EUA) e Natalie Felsen (EUA), sob a supervisão da professora Anya Schiffrin como parte de seu curso, "Mídia Global: Inovação e Desenvolvimento Econômico". Analisamos a cobertura da imprensa sobre assassinatos recentes de jornalistas no Brasil e Nigéria, bem como casos de intimidação e assédio de jornalistas em Hong Kong, Malásia e África do Sul.

Fase 1 da pesquisa

Nossa pesquisa foi dividida em duas fases. Em primeiro lugar, analisamos o conteúdo de grandes veículos nos países escolhidos. Na primeira fase do projeto, codificamos jornais impressos e online: 228 artigos de três jornais brasileiros; 75 artigos de cinco veículos de imprensa da Malásia; 50 artigos de dois jornais de Hong Kong; 27 artigos de dois jornais na África do Sul; e 51 artigos de 17 veículos de comunicação, na Nigéria.

Porque a Universidade de Columbia tem um acesso limitado a jornais impressos internacionais, encontramos os artigos na internet, em pesquisas de arquivo de cada jornal e bancos de dados online da Universidade de Columbia. Reimpressões de artigos não foram codificadas; incluímos somente reportagens originais.

Os artigos foram posteriormente codificadas utilizando categorias quantitativas -- como contagem de palavras, menções na primeira página e número de fontes; e marcações qualitativas, incluindo o tipo de fontes, palavras frequentes e tipo de artigo. Nós usamos Excel para documentar a nossa codificação e registrar a análise de conteúdo.

Para visualizar padrões, optamos em usar Infogr.am para criar gráficos, que são fáceis de usar. Infogr.am permite ao usuário escolher a partir de modelos pré-fabricados e 16 tipos de gráficos, ou criar seus próprios estilos. Os gráficos nos ajudaram a encontrar as tendências na cobertura que estávamos analisando. Concluímos que, em geral, a cobertura não seguiu as melhores práticas de comunicação. Deficiências comuns que encontramos incluem um número baixo de fontes, a falta de esforço investigativo e pouca experiência de repórteres que cobriam recentes casos de violações da liberdade de imprensa. Abaixo estão alguns gráficos de nossa análise com Infogr.am

Comparação entre a cobertura de prisões de jornalistas (mídia) e outros profissionais (como advogados ou políticos) devido ao Ato de Sedição na Malásia 

Número de fontes usadas em artigos sobre a morte de um repórter de vídeo no Brasil em 2014 em três jornais nacionais 

Fase 2 da pesquisa

Mais do que apenas visualizar os dados, percebemos que seria essencial compreender o significado por trás dos gráficos. Então, na segunda fase entrevistamos repórteres, editores e outros profissionais da mídia sobre a cobertura e sua opinião sobre as melhores práticas na elaboração de reportagens sobre a violência contra jornalistas. Alguns dos entrevistados são jornalistas que cobriam os casos estudados, enquanto outros estão familiarizados com o panorama da mídia local.

No total, entrevistamos 14 profissionais da mídia: cinco do Brasil, três da Malásia, dois de Hong Kong e quatro da Nigéria. As entrevistas foram realizadas por meio de encontros cara-a-cara, por Skype, telefone, e-mail e mensagens instantâneas. As perguntas variaram de acordo com os casos, no entanto, a maioria focou no que tornou mais interessante uma matéria sobre um jornalista ameaçado e sugestões sobre como melhorar o estado da liberdade de imprensa e a segurança do ambiente de trabalho dos jornalistas.

Conversar com as pessoas "no campo" nos ajudou a aprofundar o nosso conhecimento sobre o contexto da cobertura e as particularidades dos veículos de comunicação locais nos países que pesquisamos. Ouvir diferentes perspectivas nos permitiu rever nossas suposições e compreender as múltiplas variáveis ​​que influenciam a extensão da cobertura e as respostas de diferentes partes interessadas.

Finalmente, as entrevistas nos mostraram que, dadas as diferentes condições de práticas de segurança e de informação em cada país, devemos ser muito cautelosos sobre como analisar as tendências entre os países.

Depois de analisar centenas de histórias, descobrimos que no geral houve pouca reportagem sobre os recentes incidentes de assédio e assassinatos de jornalistas. Na Malásia, por exemplo, verificou-se que veículos de comunicação deram mais espaço para os casos de advogados e políticos do que para os jornalistas que foram detidos sob a Lei de Sedição da Malásia.

Houve exceções, no entanto. No Brasil, o assassinato do repórter de vídeo Santiago Andrade em 2014, enquanto ele estava filmando uma manifestação de rua no Rio de Janeiro, desencadeou uma discussão nacional nos meios de comunicação sobre a segurança do jornalismo. Na Nigéria, o caso que recebeu a maior cobertura foi a morte de Enenche Akogwu, um cinegrafista morto em 2012 ao reportar um dos maiores ataques do Boko Haram.

Concluiu-se que houve uma maior cobertura quando havia imagens disponíveis dos assassinatos e quando o jornalista estava cobrindo um grande evento ou trabalhava para uma organização bem conhecida.

Mesmo nos episódios mais divulgados, a mídia nacional muitas vezes falhou em acompanhar o inquérito policial e o processo judicial após mortes e episódios de intimidação, o que contribui para as tendências de impunidade e vulnerabilidade dos jornalistas. Ao reportar ameaças e violência contra si mesmos e seus colegas, os jornalistas e veículos de comunicação podem desempenhar um papel mais ativo na melhoria da suas próprias condições de segurança e trabalho.

Carolina Morais Araujo, 30, é uma jornalista brasileira e mestranda em assuntos internacionais na Faculdade de Assuntos Internacionais e Públicos (SIPA, em inglês) da Universidade de Columbia. 

Imagem sob licença CC no Flickr via yanrf