TrollBusters: Controle de pragas online para mulheres jornalistas

porSherry Ricchiardi
Feb 22 em Segurança do jornalista

Uma década atrás, a fundadora do TrollBusters, Michelle Ferrier, teve que tomar uma decisão difícil.

Durante dois anos, a jornalista foi atormentada por cartas com ameaças e insultos raciais. Quando as mensagens se tornaram mais tóxicas, Ferrier escolheu deixar seu emprego como colunista de jornal na Flórida e mudou com sua família para outro estado.

Naquela época, seu atormentador usou o serviço postal americano para enviar cartas cheias de diatribes venenosas. Embora os métodos tenham mudado, o assédio continua a ser um problema para mulheres jornalistas. Hoje os trolls online são os culpados por trás da "progressão do ódio", como descreve Ferrier.

De acordo com o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), o assédio cibernético é uma ameaça crescente para quem trabalha na indústria de notícias. Os ataques cibernéticos vêm via Twitter e outras mídias sociais "em quase todos os países onde a internet existe."

"Se você tem uma voz e uma plataforma, você se torna um alvo. É o novo território de caça", diz Ferrier, que se inspirou em sua própria experiência traumática para agir.

Em janeiro de 2015, esta professora de jornalismo da Universidade de Ohio fundou o TrollBusters, um autodenominado "serviço de resgate" para mulheres jornalistas que sofrem assédio cibernético. Ela trabalhou com uma equipe internacional de mulheres para ajudar a desenvolver ferramentas e serviços para intervenções direcionadas quando os trolls atacam.

O site oferece uma ampla gama de ferramentas, incluindo um sistema de monitoramento de redes sociais, curso de higiene digital e infografia que definem vários cenários de ameaças. Ferrier explica como a equipe de S.O.S. virtual do TrollBusters trabalha.

"Quando uma vítima [de assédio online] nos contata, obtemos o seu consentimento para operar dentro de seu canal e emitir o que chamamos de uma advertência. Isso permite que o troll saiba que estamos monitorando a situação. Em seguida, criamos uma cobertura de proteção em torno da vítima, enviando mensagens positivas para seu canal para dar força emocional e mostrar apoio. É importante que elas saibam que não estão sozinhas", diz ela.

No ano passado, o TrollBusters forneceu treinamento em segurança digital a mais de 300 jornalistas (80 por cento mulheres) e monitorou mais de 150 profissionais de mídia para ajudar a parar o abuso online. Seu curso de higiene digital e infografia foram baixados mais de 3.000 vezes.

Ferrier diz que ataques contra jornalistas tendem a diferir daqueles que o público em geral sofre. São anônimos, altamente coordenados e geralmente envolvem mais de uma pessoa. Aparecem rapidamente e continuam ao longo do tempo. Ela observou que "mobs inteligentes" também visam a mídia.

Uma matéria do New York Times descreve um mob inteligente como um "grupo auto-organizado de pessoas que operam como enxame de abelhas ou revoada de pombos". Usam celulares e comunicação instantânea "para se comportar da mesma forma que os bichos de uma colmeia", formando uma resposta coletiva a uma situação. As mobs inteligentes podem ter efeitos poderosos, de acordo com o Times.

O TrollBusters recomenda uma posição pró-ativa. O site afirma: "Quando você vê ameaças online, assédio cibernético ou outro comportamento de troll contra mulheres jornalistas, envie um S.O.S. e nós seremos os primeiros a responder online, enviando a você, ou a quem estiver sob ataque, mensagens positivas, abraços virtuais ou serviços de reparação de reputação."

Quando uma vítima de trolling busca ajuda, o TrollBusters "rastreia o Twitter, Facebook e outros canais sociais à procura de menções suas. Quando detectamos uma ameaça, fornecemos recursos e mensagens que diminuem o efeito da agressão online e ajudam você a permanecer online."

Pedir ajuda implica em preencher um formulário seguro e curto para iniciar o processo de monitoramento e suporte.

O curso de higiene digital foca em prevenir o assédio antes mesmo de começar. Abaixo está uma amostra do conteúdo do curso. Cada dica está vinculada a uma lição que fornece informações e recursos adicionais:

Para Ferrier, criar o TrollBusters foi catártico, uma maneira de atacar o mal invisível.

Ela começou a receber mensagens de ódio quando era a primeira mulher colunista afro-americana no Daytona Beach News-Journal. As cartas continuaram chegando entre 2005 e 2007. À medida que o medo por si mesma e por sua família crescia, ela instalou um sistema de segurança em sua casa, começou a usar disfarces em público e aprendeu a usar uma arma.

Finalmente, ela contou ao editor: "Não consigo mais viver assim" e se demitiu. Ferrier descobriu mais tarde que as ameaças vinham de um supremacista branco.

Em outubro de 2017, a International Women's Media Foundation (IWMF) recebeu uma subvenção para realizar uma pesquisa sobre o assédio online de mulheres jornalistas. Ferrier, que possui um Ph.D. da Universidade da Flórida Central, é a principal pesquisadora do projeto.

"Estamos ouvindo histórias e depoimentos de mulheres jornalistas americanas regularmente que experimentam um aumento no assédio online. Os dados coletados através desse estudo nos permitirão realmente entender o tamanho e escopo do problema", diz Elisa Munoz, diretora executiva da IWMF.

"Consideramos isso como uma ameaça real à liberdade de expressão e à segurança dos jornalistas. Embora esse estudo particular esteja focado na mídia nos EUA, esperamos reproduzir esse esforço globalmente."

Imagem sob licença CC no Pexels via Fernando Arcos