Sensores de baixo custo dão impulso a jornalismo ambiental e engajamento de cidadãos na África

porIrene Wangui
Sep 11, 2018 em Jornalismo de dados

As redações estão usando cada vez mais dados em reportagens para produzir um conteúdo de melhor qualidade, para empoderar os cidadãos e para promover a responsabilidade do governo. Mas, como muitos jornalistas na África sabem, acessar os dados do governo às vezes pode ser uma tarefa difícil. Em alguns casos, os dados ainda não existem. Organizações internacionais divulgam dados periódicos sobre uma série de questões, mas e se um jornalista quiser acessar os dados locais mais recentes, como, por exemplo, a cada minuto?

A falta de dados inspirou a criação de uma rede de cidadãos pan-africanos que usa sensores para coletar dados para uso de jornalistas, cidadãos, ativistas e governos no continente. Sob a liderança de bolsistas Knight do ICFJ, o Code for Africa, a maior iniciativa de jornalismo de dados e tecnologia cívica do continente, até agora construiu e implantou 22 sensores de qualidade do ar na Nigéria, Quênia, Tanzânia, Uganda e África do Sul. A iniciativa espera implantar outros 300 sensores para o projeto sensorsAFRICA, que visa gerar dados sobre uma variedade de questões, incluindo poluição atmosférica e sonora, qualidade da água e até mesmo presença de buracos nas vias públicas.

James Chege, desenvolvedor de software do Code for Africa, construiu sensores de qualidade do ar que foram implantados em bairros de Nairóbi. Os sensores medem os níveis de material particulado e poluentes, como o monóxido de carbono e os óxidos nitrosos, que são associados a doenças respiratórias.

Reportagem investigativa

Os dados coletados dos sensores estão disponíveis abertamente no archive.sensors.africa, e os jornalistas da rede Code for Africa já estão usando o banco de dados para lançar projetos de reportagem. O jornal Star, do Quênia, publicou recentemente uma reportagem sobre os efeitos da má qualidade do ar em crianças em idade escolar usando dados de sensores localizados em três escolas públicas em Nairobi.

Na Tanzânia, a bióloga marinha Gill Braulik instalou sensores acústicos submarinos para rastrear a pesca ilegal utilizando dinamite, com o apoio do programa innovateAFRICA do Code for Africa. A pesca com dinamite, também conhecida como pesca de explosão, é o uso de dinamite ou explosivos caseiros para atordoar ou matar muitos peixes de uma só vez. A prática, ilegal na Tanzânia e em muitas partes do mundo, destrói o ecossistema da região, danificando os recifes de corais e outras formas de vida marinha. O grupo de jornalistas ambientais Oxpeckers espera usar dados desses sensores acústicos como parte de suas reportagens investigativas sobre grupos criminosos que praticam a pesca de explosivos no fundo do mar entre o Zanzibar e a Tanzânia.

Um bolsista Knight do ICFJ, David Lemayian, especialista em tecnologia do Code for Africa, lidera o projeto sensorsAFRICA. Ele diz que os jornalistas que buscam novos dados para informar suas matérias irão se beneficiar muito dos conjuntos de dados gerados pela tecnologia.

"Quando uma pessoa diz que está chovendo e outra diz que não está, o trabalho do jornalista é olhar pela janela", diz Lemayian. "Com sensores ambientais de baixo custo, estamos tornando mais acessível para jornalistas de todo o continente 'olhar pela janela'. Fazemos isso fornecendo insights verificáveis e históricos quase em tempo real para tornar os governos mais responsáveis pela melhor qualidade de vida de seus cidadãos.”

A metáfora de "olhar pela janela" pode ser entendida literalmente no caso dos veículos de comunicação locais Mtaani Radio e The Star, que têm sensores de qualidade do ar instalados em seus escritórios em Nairóbi. A Mtaani Radio já transmitiu informações sobre o sensor para a comunidade e espera manter o público informado sobre os níveis de poluição transmitindo os dados dos sensores.

Fazendo crowdsourcing de dados

Chege diz que os sensores provaram ser uma maneira valiosa de coletar informações dos cidadãos. “Os kits de sensores construídos pelo Code for Africa precisam de cuidadores, e esse papel geralmente recai sobre os cidadãos que vivem dentro das comunidades. Quando as pessoas têm os sensores e são capazes de medir e coletar dados, elas têm as ferramentas para se proteger, tomar medidas preventivas ou engajar os governos locais”, diz ele.

Irene Wangui é consultora de programas na África no Centro Internacional de Jornalistas.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Jon Flobrant