A resistência da mídia independente no Líbano

Feb 17, 2021 em Jornalismo digital
Bandeira do Líbano

A agitação vinha fervendo no Líbano há muitos meses. A crise econômica estava se agravando, e o governo foi acusado de falta de capacidade ou vontade de detê-la. Ao mesmo tempo, incêndios florestais varreram as montanhas no oeste e as áreas ao sul de Beirute, mas o estado não foi capaz de intervir porque seus helicópteros de combate a incêndios pararam devido à falta de manutenção. Em outubro de 2019, quando o governo propôs novas medidas de austeridade, incluindo um imposto ao WhatsApp, foi a gota d'água.

Em 17 de outubro de 2019, protestos surgiram em todo o país. O Megaphone News, um canal de mídia social, estava trabalhando em um documentário e reformulando seu site, mas depois de testemunhar a situação, decidou voltar a cobrir as últimas notícias. A equipe usou vídeos do Instagram Live para capturar incêndios florestais e protestos. “Não sabíamos o que estava acontecendo; fomos ao vivo no Instagram [para fazer a cobertura]”, disse Jonathan Dag, jornalista, produtor e locutor do Megaphone News.

Quando os protestos começaram, o instinto jornalístico também acendeu em Laudy Issa, editora-chefe do canal digital Beirut Today (BT). Ativistas criaram o BT três anos atrás para compartilhar notícias e opiniões em inglês e árabe que não são cobertas pela mídia tradicional. A publicação conta com colaboradores da comunidade e jornalistas profissionais.

Na primeira noite dos protestos, principalmente com material publicado nas redes sociais por anônimos e jornalistas, Issa produziu um vídeo mostrando os protestos em todo o país. O vídeo apresenta o som dos manifestantes, enquanto usa legendas para transmitir os fatos básicos aos espectadores. “As pessoas estavam absolutamente cansadas [com a situação]”, diz Issa. “Havia muita esperança e ímpeto”. Com 150.000 visualizações em plataformas de mídia social, o vídeo bateu um recorde para a equipe.


A mídia independente desempenhou um papel crítico ao canalizar as demandas, agindo como defensor e sustentando o impulso que clama por mudanças.

Uma relação diferente com objetividade

A mídia tradicional no Líbano está concentrada nas mãos de um grupo pequeno e poderoso, com salvaguardas regulatórias para permitir maior concentração, de acordo com o Media Ownership Monitor. Há uma falta de transparência que torna difícil medir a extensão do problema em números exatos, mas pelo menos 43% das empresas de mídia libanesas são parcialmente de propriedade de uma de 12 famílias poderosas.

Nesse ambiente, as narrativas da mídia são influenciadas por partidos políticos, figuras importantes ou empresários ricos para promover agendas políticas. As investigações de problemas profundamente enraizados, como a infraestrutura disfuncional, direitos LGBTQ+ ou refugiados, são postas de lado ou politizadas para ganho pessoal.

[Leia mais: Teshreen 17: Uma publicação para cobertura de protestos no Líbano]

 

Nesse ambiente, nasceram novos veículos de mídia independentes. Em muitos desses meios de comunicação, os contribuidores têm fortes laços com o ativismo ou a universidade, e seus fundadores não consideram a neutralidade parte da solução.

Por exemplo, o Megaphone News nasceu de protestos fracassados ​​no Líbano em 2015. Após uma crise de lixo, um partido secular recém-formado, Beirut Madinati [Beirute, Minha Cidade], apresentou candidatos independentes para as eleições municipais de Beirute de 2016 defendendo a transparência, responsabilização e melhoria da infraestrutura. Quando perderam as eleições gerais, os fundadores do Megaphone News concluíram que o Líbano precisava de um meio para refletir narrativas alternativas fora dos círculos partidários. Oito ativistas, designers, jornalistas e estudantes se uniram para criar o Megaphone News em 2017, com uma agenda pró-mudança.

“Pensamos muito na distinção entre jornalismo e ativismo. Pessoalmente, não vejo muita diferença, exceto na abordagem", diz Dag. “Acho que o objetivo é o mesmo, impulsionar a sociedade e alcançar a igualdade entre as pessoas. O Megafone tem uma postura ativa, por isso as pessoas pensam que somos a voz da revolução. Mas também somos muito críticos da revolução.”

Em janeiro de 2020, a editora-chefe Lara Bitar decidiu apressar o lançamento do The Public Source, uma nova publicação que produz jornalismo em formato longo e aprofundado. A organização está estruturada como um coletivo não hierárquico.

Como o Megaphone, a linha editorial do The Public Source segue a direção de que a neutralidade favorece o partido mais forte. Ela explica que a abordagem do The Public Source é “ser solidário com as pessoas que estão sofrendo, com o objetivo de trabalhar no interesse público”.

Para obter uma história mais representativa, The Public Source frequentemente se volta para assuntos para contar sua própria experiência. Em um exemplo, o veículo publicou um artigo sobre a impossibilidade de 250 mil trabalhadoras domésticas — um dos grupos mais vulneráveis ​​do país — de participarem dos protestos. A autora, Banchi Yimer, não era uma jornalista, mas uma ex-trabalhadora doméstica e fundadora da Engna Legna [Nós Por Nós Mesmas], uma organização comunitária que trabalha pelos direitos das trabalhadoras domésticas.

[Leia mais: Entrevista: Novos debates sobre a objetividade]

Reportando os protestos de outubro

Durante a "Revolução de Outubro", como alguns a chamam, muitas dessas publicações estiveram na linha de frente cobrindo os eventos, o que as ajudou a aumentar seu público. O Megaphone News, por exemplo, cresceu de 8.000 para 60.000 seguidores no Instagram.

O Beirut Today teve um crescimento semelhante, duplicando o número de seguidores no Instagram e no Twitter desde o início dos levantes. O meio também aumentou sua produção de conteúdo, saltando de uma ou duas apresentações por semana para pautas diárias.

A cobertura desses meios de comunicação independentes refletiu o dinamismo das preocupações da sociedade civil. Quando o estado libanês se tornou mais violento, o interesse migrou para o gás lacrimogêneo e brutalidade policial. Para garantir que sua cobertura permanecesse focada, a equipe do Beirut Today centrou seu trabalho em três tarefas críticas: informar, criticar e explorar alternativas.

Um objetivo importante para o BT era cobrir histórias fora da capital, Beirute. Eles publicaram ensaios fotográficos de Trípoli e Jounieh, cidades pouco representadas na mídia, apesar de política e economicamente importantes.

Olhando para trás, Issa gostaria de ter mais notícias dos protestos no sul do país. “Havia tanta coisa acontecendo que seria impossível cobrir tudo o que estava acontecendo”, disse ela. “Mas gostaria que tivéssemos mais notícias especificamente do sul, já que foi a primeira vez que houve oposição aos líderes do sul.”

O Public Source iniciou uma seção de seu site chamada "Despachos da Revolução de Outubro", que cobriu os eventos e as lutas diárias contextualizadas por meio de reportagens detalhadas. Em seu primeiro artigo sobre o peso da dívida pública na economia libanesa, eles traçam as raízes da crise da dívida.

O trabalho desses meios de comunicação foi crítico durante os primeiros dias dos protestos e continua a ser relevante com projetos e histórias como as descritas acima. Mais de um ano após o início dos levantes de outubro, a situação no Líbano continua a mudar e, enquanto isso, a mídia independente está lá, cobrindo tudo.


Aina de Lapparent é jornalista freelance franco-catalã radicada em Paris, atualmente cursando mestrado em jornalismo na Sciences Po. Ela é colaboradora do Inside the Newsroom, um boletim informativo e podcast de notícias internacionais, escrevendo resumos semanais de notícias no Oriente Médio. Ela se interessa por inovação de mídia, jornalismo de soluções, questões sociais e Oriente Médio.

Imagem sob licença CC no Pexels via Jo Kassis