Rastreamento de dados online tem como alvo leitores da mídia independente, segundo relatório

porAliza Appelbaum
Jun 24, 2019 em Jornalismo digital
Computador

A mídia independentes de todo o mundo está, sem saber, expondo seus leitores e visitantes ao monitoramento invasivo e muitas vezes sem o seu consentimento, de acordo com um novo relatório publicado pelo Center for International Media Assistance (CIMA).

O relatório, de autoria de Ayden Férdeline, bolsista de política tecnológica da Fundação Mozilla, examinou 50 meios de comunicação independentes em 10 países e descobriu que mais de 90% deles estavam rastreando os dados sobre seus leitores.

“Os usuários não podem se proteger”, disse Férdeline em um painel em junho no National Endowment for Democracy, em Washington, onde compartilhou as descobertas de seu estudo. "É importante para os editores independentes proteger e cuidar da privacidade de seus leitores."

Quando se trata de software de rastreamento, a maioria dos veículos de comunicação independentes coleta o máximo de dados possível de seus visitantes para vender publicidade direcionada. Esta publicidade é muitas vezes uma fonte primária de receita para pequenos publishers, muitos dos quais lutam pela sustentabilidade financeira.

Nos últimos dois anos, no entanto, formuladores de políticas e usuários da internet se preocuparam mais com a quantidade de dados rastreados online, levando a uma nova geração de legislação que trata do assunto, como o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR, em inglês) que entrou em vigor na União Europeia em 2018.

Nem todos os sites adotaram tais políticas, especialmente aqueles baseados no Sul Global. Embora o GDPR seja considerado “o novo padrão global”, de acordo com o relatório, ele —e outras leis semelhantes de proteção de dados— pode ser difícil de aplicar. Isso pode significar que os incentivos para o cumprimento são baixos para os países que não estão sujeitos à sua jurisdição, especialmente quando a não conformidade pode ser financeiramente lucrativa.

Os usuários costumam ser enganados pelo botão "compartilhar", disse Férdeline. Embora os leitores possam pensar que estão clicando em um link para compartilhar um artigo no Facebook ou no Twitter, o software de rastreamento geralmente é incorporado ao código do link. Esse clique pode permitir que outras 20 empresas rastreeiem esses dados, sem o conhecimento do leitor.

Entre os veículos de comunicação pesquisados ​​no relatório, cerca de 15% dos dispositivos de rastreamento não podem ser localizados, disse Férdeline. Isso significa que os usuários não sabem quem está acompanhando ou coletando seus dados pessoais.

Os dispositivos de rastreamento encontrados em sites de mídia independentes raramente pedem o consentimento para rastrear dados, segundo o relatório. Entretanto, existem várias medidas que os meios podem adotar que mostrariam um maior respeito pela privacidade dos usuários, como conteúdo de hospedagem própria. Outras etapas, como mudar para as vendas internas de anúncios em vez de publicidade de terceiros, também ajudariam a reduzir os riscos, mas os custos podem ser proibitivos para uma mídia independente que pode não ter os mesmos recursos de uma mídia maior.

Grande parte da discussão no evento de junho foi centrada em como os usuários poderiam se defender melhor, especialmente quando as grandes empresas de tecnologia controlam tanto tráfego de internet, pois as pessoas clicam regularmente em links através de terceiros, como o Twitter ou o Facebook.

Nathalie Maréchal, uma das participantes do painel e analista sênior de pesquisa do Ranking Digital Rights, argumentou que, como as grandes empresas de tecnologia estão fazendo lobby contra a regulamentação, os consumidores precisam se educar melhor e expressar seus próprios interesses.

"As empresas não vão começar a respeitar os direitos de privacidade, porque pedimos com educação", disse Maréchal. "Já passou da hora de pedir gentilmente e [esperar pela] autorregulação. Precisamos de regulamentação rigorosa e precisamos de fiscalização, e precisamos disso agora.


Imagem principal sob licença CC no Unsplash via John Schnobrich.