Por que jornalistas devem saber primeiros socorros psicológicos?

porNorma Flores Allende
Oct 13, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Duas mãos enluvadas se cumprimentando com soquinho

Os primeiros socorros psicológicos referem-se a uma resposta humana de apoio a outro ser humano que está sofrendo e que pode precisar de ajuda, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Assim como os primeiros socorros médicos, esses primeiros socorros psicológicos consistem em técnicas de intervenção que qualquer pessoa pode praticar para ajudar outras pessoas que estão passando por uma crise emocional desencadeada por catástrofes, acidentes, ataques, dispensas ou diferentes eventos traumáticos.

Precisamos saber primeiros socorros psicológicos

Os jornalistas foram particularmente afetados pela pandemia de várias maneiras. A morte de colegas e familiares em decorrência da crise de saúde e da onda de demissões constituem eventos traumáticos que violaram de forma inédita a saúde mental em nossa profissão. “Nunca tinha visto tantas fotos de estresse e ansiedade entre nossos colegas”, destaca Zuliana Laínez, presidente da Federação de Jornalistas da América Latina e do Caribe (FEPALC, em espanhol). “É falso que o que cobrimos não nos afeta emocionalmente”, enfatiza.

No entanto, os primeiros socorros psicológicos estão ausentes tanto na formação quanto na agenda prioritária dos sindicatos. “Tivemos que aprender à medida que avançamos, porque a crise de saúde mental está afetando a forma como fazemos jornalismo, incluindo as decisões editoriais que tomamos”, explica Laínez.

A Associação Uruguaia de Imprensa tem experiência no assunto. Luis Curbelo, secretário de imprensa do sindicato, indica que a onda de demissões tem afetado de forma preocupante a saúde mental de seus colegas. “Infelizmente, a realidade do mercado de trabalho uruguaio mostra uma grande deterioração, que afeta o desempenho normal dos trabalhadores, impactando suas relações pessoais e familiares”, afirma. É por esta razão que no Uruguai o sindicato realizou uma formação de Primeiros Auxílios Psicológicos (PAP) com o apoio de profissionais da psicologia, e um profissional de saúde mental ofereceu seus serviços para apoiar os trabalhadores da imprensa em crise.

[Leia mais: O que jornalistas devem saber sobre saúde mental]

 

O Dr. Renato Oliveira de Souza, chefe da Unidade de Saúde Mental da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), ressalta que os jornalistas devem estar atentos aos PAPs porque estão expostos a situações estressantes no dia a dia. Deve-se notar que embora não seja necessário ser um profissional de saúde mental para prestar esse primeiro atendimento, é importante que os jornalistas recebam um breve treinamento prévio que inclua alguns princípios básicos, como:

Observar o contexto

Dr. Souza explica que esse princípio se refere a reconhecer as situações estressantes que afetam as pessoas e quais as possibilidades de ajuda mais próximas. Essa observação ampla deve ser capaz de identificar sinais de angústia ou ansiedade. No caso de acidentes ou eventos violentos, também é importante verificar o estado geral de saúde das pessoas e conhecer o hospital mais próximo para buscar ajuda imediata.

Este princípio também consiste em reconhecer como as condições de trabalho estão prejudicando a saúde dos trabalhadores da mídia. Curbelo destaca que, além da situação da pandemia, o stress causado pelo trabalho em condições inadequadas, como baixos salários, precariedade e risco de perda do emprego, é motivo mais do que suficiente para procurar ajuda psicológica.

Por outro lado, Laínez destaca que as empresas jornalísticas têm responsabilidades que não devem ser ignoradas nesta crise de saúde mental nas redações. Devem não só fornecer elementos de proteção pessoal para a pandemia como máscaras, protetores e gel, mas também fornecer informações que permitam conhecer os primeiros sinais de impacto emocional, bem como dados de contato para solicitar ajuda.

O que fazer se você reconhecer que está passando por uma crise emocional?

  • Converse com seus colegas.
  • Se você trabalha em uma equipe, entre em contato com seu chefe imediato.
  • Se você for um jornalista independente, vá a uma organização ou sindicato presente em seu país.

Escutar ativamente

É importante saber ouvir com atenção e empatia as outras pessoas. “É uma das primeiras coisas que devemos fazer muito bem para apoiar as pessoas com estresse emocional”, destaca Dr. Souza. As pessoas devem ser capazes de falar livremente sobre seus problemas e sofrimentos. Aqui estão algumas dicas do especialista:

  • Faça perguntas abertas, evite perguntas específicas.
  • Anteriormente, acreditava-se que deveria ser solicitada às pessoas uma descrição detalhada do evento que desencadeou a crise. Hoje se sabe que isso é contraproducente para a saúde mental. “O fundamental é que a pessoa fale sobre o que é importante para ela naquele momento específico de estresse”, explica Dr. Souza.

Alguns sindicatos da região implementaram medidas para aproximar a escuta ativa. Laínez explica que no Peru o número considerável de mortes de jornalistas devido à COVID-19 obrigou a Associação Nacional de Jornalistas do Peru a criar um serviço de escuta telefônica em casos de crise. Apesar disso, ainda persistem tabus importantes na região que impedem as pessoas de reconhecer que precisam de ajuda emocional: “Os jornalistas precisam de um pouco mais para normalizar o apoio emocional. As organizações, os sindicatos, precisam de um pouco mais de foco nesses tipos de problemas, além da segurança física.”

Conectar as pessoas

O terceiro princípio é conectar as pessoas que estão passando por uma crise com membros da família ou uma rede de apoio ou com sua comunidade. Apesar do distanciamento social, é possível adaptar os primeiros socorros psicológicos às condições pandêmicas para que as pessoas em crise possam encontrar redes capazes de fornecer segurança e ajuda emocional em tempos de crise. Nesse sentido, Dr. Souza expressa que o distanciamento físico não deve representar o isolamento social, uma vez que existem mecanismos virtuais para conectar as pessoas entre si.

[Leia mais: Técnicas para jornalistas lidarem com estresse]

 

O especialista da OPAS ressalta que a maioria das pessoas melhora e pode continuar com suas vidas após uma crise quando são ouvidas e recebem ajuda de um grupo de apoio. No entanto, em certas circunstâncias específicas, os provedores de PAP acharão necessário conectar pessoas em crise especificamente a profissionais de saúde mental.

Alguns sinais de que uma pessoa em crise precisa consultar um psicólogo e/ou psiquiatra:

  • Quando representa um risco para si mesmo e para os outros.
  • Quando não tem a capacidade de cuidar de si mesmo e negligencia suas responsabilidades diárias.

A Associação Uruguaia de Imprensa avalia a necessidade de uma clínica psicológica permanente após a experiência da pandemia. “É fundamental que o colega reconheça que por motivos de trabalho associados à pandemia ele precisa do apoio de um psicólogo profissional”, destaca.

Practicar o autocuidado

A estes três princípios de observar o contexto, ouvir ativamente e conectar as pessoas, Dr. Souza acrescenta a recomendação de dialogar com os colegas sobre o bem-estar psicológico na profissão e também de informar que é possível prestar e receber primeiros socorros psicológicos. Por isso é necessário lembrar algumas medidas básicas de autocuidado úteis para profissionais frequentemente expostos a situações estressantes:

  • Evite trabalhar demais.
  • Respeite seus limites.
  • Durma as horas necessárias
  • Evite o uso de substâncias como álcool e outras drogas.

Como se capacitar em primeiros auxílios psicológicos?

A Organização Pan-Americana da Saúde oferece um treinamento online disponível neste link (em espanhol).


Imagem sob licença Creative Commons no Unsplash via Branimir Balogovic