Técnicas para jornalistas lidarem com estresse

porAndrés Colmán Gutiérrez
Sep 23, 2020 em Segurança do jornalista
peças de quebra-cabeça

As mesmas técnicas que os jornalistas usam diariamente para investigar ou coletar informações podem ser aplicadas a eles mesmos, para se conhecerem melhor, administrar o estresse e interagir com a tecnologia de forma mais saudável. Foi o que disse Aldara Martitegui, jornalista e coach de inteligência emocional e redução do estresse baseada na atenção plena (MBSR, em inglês), no início do curso online gratuito de gestão de estresse para jornalistas: The Self-Investigation em espanhol.

O curso é realizado durante quatro semanas ao longo de setembro em colaboração com o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em espanhol), o Open News e  a Online News Association (ONA), e cofinanciado pela União Europeia, através do projeto Stars4Media. Além disso, conta com o apoio do Fórum de Cobertura da Crise Global de Saúde em espanhol.

Martitegui, fundadora do The Coaching Post, contou que chegou no fundo do poço profissionalmente depois de perder a noção do que estava fazendo devido ao excesso de trabalho e hiperconectividade. “Um dia percebi que não sabia para que era jornalista, desliguei e fiquei com raiva da profissão”, explicou.

[Leia mais: Saúde mental e jornalismo, parte 4: Uma conversa com Allissa Richardson]

A crise a levou a se formar como coach, o que a ajudou a administrar o estresse, levando-a por um caminho muito grande de autoexploração e entender o que havia acontecido, a se reconectar e a se apaixonar pela profissão de jornalista.

Em geral, os jornalistas estão expostos a um alto nível de estresse, mas o risco de serem afetados aumentou ainda mais com as condições de trabalho impostas pela pandemia de COVID-19, disse Mar Cabra, uma das instrutoras. Cabra é jornalista investigativa, foi vencedora do Prêmio Pulitzer depois de ter liderado a equipe de tecnologia e dados da investigação "Panama Papers", mas foi justamente essa experiência que a levou a sofrer de síndrome de burnout ou esgotamento, devido à grande hiperconexão com jornalistas de todo o mundo.

“Chegou um momento, muito perto de receber o Pulitzer, que eu tinha que estar muito feliz, mas a realidade é que eu estava muito infeliz por dentro, muito esgotada. Pesquisando como a tecnologia nos afeta, me tornei uma especialista em bem-estar digital. Quando a pandemia começou, comecei a ver tantos colegas muito estressados ​​pelo bombardeio de informações e por estarem trancados em casa, e isso me motivou a trabalhar neste projeto”, explicou.

As instrutoras mostraram os resultados de uma pesquisa realizada pela Federação Internacional de Jornalistas, sobre como a pandemia afeta o trabalho dos jornalistas. “Um dos problemas que mais se notou foi o aumento do estresse e da ansiedade, mais nas mulheres do que nos homens. O jornalismo é uma profissão com níveis de estresse muito elevados, mas agora que vivemos uma situação inédita tornou-se mais urgente regulá-lo por nós mesmos”, destacou.

Cabra apresentou a seguinte lista dos efeitos da pandemia na profissão:

  1. Sou jornalista e agora também pai e professor, tudo sob o mesmo teto.
  2. Estou conectado o tempo todo, mas tenho dificuldade em estabelecer limites. A tecnologia torna difícil para mim me desconectar do trabalho.
  3. Estou mais ansioso do que o normal e meu corpo dói.
  4. Estou preocupado com meu cargo.

Martitegui explica que estresse é o desgaste que ocorre no corpo, quando se ativa um mecanismo de defesa que visa facilitar a sobrevivência por muito tempo. “Quando percebemos que existe uma ameaça ou risco, o que chamamos de estressores, esse sistema é ativado no nosso corpo, o coração bombeia muito sangue, há tensão e outros órgãos vitais como o sistema imunológico e digestivo param de funcionar. Se isso acontecer por muito tempo, o efeito é prejudicial", disse.

[Leia mais: Pandemia de medo: o impacto da COVID-19 em nossa saúde mental]

No curso, as instrutoras compartilham técnicas de relaxamento, exercícios corporais e de concentração, métodos respiratórios, que auxiliam na ativação do mecanismo calmantes frente aos estressores, permitindo recuperar o equilíbrio.

Elas também compartilharam as “4 manchetes” sobre o estresse:

  1. Não há nada de errado com o próprio mecanismo de estresse.
  2. O cérebro não distingue entre estressores reais e estressores mentais.
  3. O corpo é como uma tela onde os efeitos do estresse são refletidos.
  4. Boas notícias: podemos aprender a recuperar o equilíbrio por meio do corpo.

Cabra explica que um dos grandes estressores do jornalista é o uso constante da tecnologia, que tem efeitos no corpo e no cérebro. “É importante ter o controle do nosso tempo, da nossa atenção, para repensar a relação com a tecnologia. Minimize o número de distrações que temos ao mesmo tempo. A multitarefa não funciona”, disse ela.

Como recomendação, ela propôs fechar os e-mails e revisá-los em bloco, de vez em quando, sem estar continuamente pendentes. Além disso, limite as notificações do celular, não tenha as redes sociais abertas o tempo todo e tenha espaços para desconexão.

“A tecnologia nos permite conectar e facilita o nosso trabalho, mas a pausa ajuda a ativar o sistema calmante diante do estresse. Por isso é importante principalmente no início e no final do dia, ter horários em que o celular esteja desligado ou em modo avião, sem que a tela azul atrapalhe o resto. Você tem que encontrar a pausa que o ajuda a pensar", disse ela

Você pode assistir ao início do programa aqui (em espanhol):

 


Imagem sob licença Creativa Commons no Unsplash por Hans-Peter Gauster