Por que a desinformação é compartilhada tão facilmente?

porAstudestra Ajengrastri
Aug 19, 2019 em Fact-checking e verificação
Astudestra Ajengrastri com parceiros no Tirto.id

A desinformação é mais comum do que nunca na Indonésia hoje, pois sua disseminação se tornou cada vez mais diversificada e difícil de suprimir.

Só em abril, quando o país realizou sua eleição geral, o Ministério da Comunicação e Tecnologia da Informação da Indonésia identificou 486 desinformações compartilhadas em várias plataformas online — 209 delas relacionadas à política. O ministério notou que esse número subiu durante eleição de 17 de abril e continuou a aumentar depois.

Para entender melhor como e por que a informação, tanto verdadeira quanto enganosa e falsa, eu realizei uma pesquisa em fevereiro de 2019 com o Tirto.id, um dos parceiros de redação com quem trabalhei na Indonésia como bolsista TruthBuzz do ICFJ. O que eu descobri desafia a suposição de que a falta de pensamento crítico é o principal fator que leva as pessoas a compartilhar a desinformação tão facilmente.

Como planejamos o estudo

Mais de 1.500 pessoas da ilha mais populosa do país, Java, participaram da pesquisa, respondendo a 31 perguntas sobre como acessam informações diariamente. Também incluímos três conjuntos de imagens, incluindo artigos da mídia tradicional, memes virais e capturas de tela de postagens da mídia social. Perguntamos aos entrevistados se achavam que as informações nas imagens eram precisas ou não e se  queriam compartilhar as imagens online.

O primeiro conjunto incluiu posts de mídia social sobre vacinas e saúde, e refugiados de Rohingya e da Faixa de Gaza, todos os quais eram postos não verificados de fontes não credíveis ou desinformação. As imagens no segundo conjunto eram de natureza política, tiradas de meios de comunicação credíveis, bem como grupos partidários do Facebook. Todos estavam relacionados aos candidatos à presidência, Joko Widodo e Prabowo Subianto. O terceiro conjunto incluiu imagens de artigos precisos e verificados, publicados pelo Ministério de Comunicação e Tecnologia da Informação e agências de verificação de fatos.

Quem compartilhou e o que compartilhou

Testamos vários fatores que podem afetar a probabilidade de um participante compartilhar informações no WhatsApp, incluindo sexo, histórico educacional e idade. Embora o gênero e a educação não tenham efeito, os resultados da pesquisa mostraram uma relação direta entre a idade avançada e a confiança maior nas informações que circulam no aplicativo de mensagens.

Enquanto 41% de todos os entrevistados disseram confiar nas informações que recebem no WhatsApp, esse número salta para 67% para entrevistados com mais de 45 anos. Apenas 35% dos entrevistados com idades entre 17 e 21 disseram confiar nas informações que encontram no aplicativo de mensagens.

Graph of survey results

As pessoas mais velhas também são mais propensas a compartilhar o conteúdo que encontram de um grupo para outro no WhatsApp. Quase 50% dos adultos com mais de 45 anos disseram compartilhar informações recebidas em um grupo do WhatsApp com outro, em comparação com 24% de 17 a 21 anos e 30% entre 22 e 35 anos.

Os entrevistados tiveram maior probabilidade de compartilhar imagens que continham afirmações não verificadas ou informações erradas. Uma imagem de conteúdo de conspiração de vacina mostrou-se mais compartilhável para 31%, seguida por uma imagem não verificada do corredor indonésio Lalu Muhammad Zohri celebrando uma vitória com a bandeira polonesa (20%). Pelo menos 10% dos entrevistados disseram que compartilhariam cada imagem contendo informações falsas ou não verificadas.

Graph of survey results


Ao todo, os entrevistados foram mais propensos a compartilhar conteúdo relacionado à saúde, falso ou não, seguido por mensagens contendo informações sobre nacionalismo, economia, religião e política — todas questões delicadas para os indonésios.

Por que a desinformação é espalhada

Entender quem compartilha informações erradas e o que estão compartilhando, no entanto, não explica por que fazem isso.

Para entender melhor o "porquê", perguntamos a Ismail Fahmi, o fundador do sistema de análise de mídia social, Drone Emprit. Ele explicou que existem dois tipos principais de disseminadores de informações erradas. Primeiro, há pessoas que acreditam que qualquer informação circulando em plataformas de mensagens é verdadeira e, portanto, compartilham. Segundo, há aqueles que não se importam com a precisão do conteúdo, desde que recebam as informações de alguém de confiança.

Muito trabalho em torno de desinformação hoje é baseado no pressuposto de que aqueles que compartilham a informação são incapazes de separar fato de ficção. Isso forma a base de iniciativas de educação midiática que ensinam habilidades de pensamento crítico aos consumidores de notícias, para que eles sejam mais capazes de identificar informações não verificadas, enganosas ou falsas.

Queríamos descobrir se essa suposição é verdadeira, então realizamos um Teste de Reflexão Cognitiva (CRT, em inglês), que foi desenvolvido pelo psicólogo e professor Shane Frederick em 2005 para avaliar as diferenças individuais no pensamento crítico, juntamente com a enquete pré-eleitoral. Aqueles que passam no teste são considerados melhores pensadores críticos do que aqueles que não passam.

Quando administramos o teste durante a enquete pré-eleitoral, apenas 16 entrevistados (1%) passaram. Ainda assim, esses pensadores mais críticos não estavam imunes ao compartilhamento de informações não verificadas ou falsas. Quatro dos 16 que passaram no teste compartilharam desinformação contra a vacina e sete compartilharam desinformação política.

Concluímos que as pessoas que compartilham desinformação não necessariamente consomem informações menos criticamente, o que contradiz a suposição de que a única chave para combater a desinformação é ensinar e treinar para desenvolver essas habilidades. Embora as pessoas que passaram no CRT tenham espalhado informações erradas a uma taxa significativamente menor do que aquelas que não passaram, ainda há outras razões pelas quais as pessoas com fortes habilidades de pensamento crítico ainda transmitem informações não verificadas ou falsas.

Uma dessas razões lida com crenças políticas. Quando examinamos os comentários sobre as informações errôneas que haviam sido desmentidas pelo Ministério da Comunicação e Tecnologia da Informação da Indonésia, muitas das pessoas que compartilhavam informações e postavam comentários eram fortes defensores de um dos dois candidatos presidenciais do país. A partir disso, determinamos que os partidários políticos fervorosos eram um grupo que tende a disseminar indiscriminadamente informações falsas ou não verificadas.

As pessoas mais velhas, por sua vez, espalham desinformação porque acreditam genuinamente que é verdade. Outras pessoas compartilham informações falsas ou não verificadas porque confiam na pessoa que as envia.

Para combater a disseminação de desinformação no país, precisamos entender melhor as razões pelas quais as pessoas compartilham declarações falsas ou não verificadas no WhatsApp.

A pesquisa que conduzi em parceria com o Tirto foi uma das primeiras na Indonésia que tentou entender melhor esse fenômeno — e deve ser apenas o começo. Somente com mais conhecimento sobre a questão podemos começar a desenvolver soluções que abordem os vários fatores que motivam as pessoas a consumir e compartilhar desinformações.


Imagem principal: Astudestra Ajengrastri trabalhando ao lado de parceiros no Tirto.id.

O conteúdo deste artigo foi originalmente publicado no Instagram da Tirto.