#Plantãocoronavírus: 6 recomendações para combater desinformação

porJulie Posetti and Alice Matthews
Mar 31, 2020 em Reportagem sobre COVID-19
Trabalhando em computadores

Este artigo é parte de nossa cobertura online de reportagem sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui

O papel do jornalismo no combate à desinformação nunca foi tão crítico. A pandemia de COVID-19 trouxe consigo o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) chama de "infodemia" em massa: uma explosão potencialmente mortal de desinformação global.

Pessoas em todo o mundo já morreram por causa de desinformação conectando tratamentos falsos ou não comprovados do novo coronavírus. Os fornecedores de desinformação estão compartilhando essas mentiras por meio de memes virais, mensagens em cadeia em aplicativos fechados e até por políticos mal informados durante entrevistas coletivas em tempo real.

Uma das consequências potenciais mais perigosas da crise de desinformação global — bem estabelecida antes da pandemia de COVID-19 — é o público perder a confiança em todas as informações por achar mais difícil discernir fatos de falsidades, publicações legítimas da fraudulentas e conteúdo hiperpartidário de jornalismo independente crítico.

[Leia mais: Crises de saúde passadas podem fornecer informações sobre COVID-19]

 

O resultado? O enfraquecimento da saúde pública, a desestabilização dos processos democráticos e as ameaças crescentes à sustentabilidade do jornalismo independente.

Todo o jornalismo tem um papel a desempenhar como baluarte contra alguns desses efeitos da Era da Desinformação: de notícias a documentários, de rádio a impressos, de especialistas a jornalistas de informações gerais, de veículos tradicionais a startups, de interativos a investigativos.

Somos todos alvos de agentes da desinformação e todos temos um papel na luta.

Os fornecedores de desinformação aproveitam os aspectos mais vulneráveis ​​do ecossistema da informação — desde pequenas publicações com equipe mal treinada e recursos limitados, até aqueles com defesas fracas, sofrendo de complacência e limitando-se a seu nicho e públicos impressionáveis.

É por isso que é vital que editores, publishers e repórteres estejam cientes da crescente sofisticação das táticas de desinformação, incluindo fontes fraudulentas, grupos de reflexão falsos, contas de rede social não autênticas, conjuntos de dados poluídos e publicações falsas. É essencial reforçar o papel da verificação e checagem de fatos, fontes variadas e literacia de mídia digital para todos os jornalistas.

A pesquisa que publicamos para um projeto financiado pelo governo canadense sobre revistas e desinformação oferece seis recomendações importantes que podem ajudar todos os editores a se protegerem contra a desinformação e defenderem o jornalismo confiável.

1. Promover a compreensão das causas e consequências da Era da Desinformação, garantindo ao mesmo tempo que as habilidades de fact-checking e verificação funcionem no mundo digital.

O problema: A era digital requer habilidades mais sofisticadas para combater desinformação. 

Contramedidas eficazes:

  • Priorize o compartilhamento de conhecimento e o treinamento projetados para garantir que as habilidades de pesquisa e verificação nas equipes editoriais sejam adequadas para a era digital (ou seja, técnicas de checagem de mídia social).
  • Desenvolva uma compreensão mais sofisticada das causas e impactos da atual crise de desinformação no jornalismo e o direito do público a saber: um direito fundamentado no direito internacional dos direitos humanos.
  • Desenvolva editorias de desinformação especializadas e relevantes para o foco da sua publicação.
  • Preencha as lacunas. As publicações, especialmente as de nicho, podem ajudar a combater a desinformação preventivamente, simplesmente conhecendo os buracos de informação e trabalhando para preenchê-los com narrativas poderosas e envolventes que podem ajudar a combater falsidades e promover informações credíveis e verificáveis.

Recursos para ajudar a implementar esta recomendação:

[Leia mais: Enviado especial da OMS conta lições da epidemia de ebola]

2. Leve seu público junto: Verdade, confiança e combate colaborativo

O problema: Cada vez mais, a fusão de fato e ficção está minando a confiança do público em todas as informações, permitindo uma manipulação mais fácil da opinião pública por agentes nefastos. Editores com públicos-alvo de nicho são um alvo particularmente desejável para fornecedores de desinformação. 

Contramedidas eficazes:

  • Aproveite o conhecimento especializado. De acordo com uma pesquisa da Canadian Journalism Foundation, 83% dos entrevistados estavam mais preocupados com a desinformação que poderia comprometer sua saúde, espalhando informações incorretas sobre os riscos e benefícios médicos. Isso oferece oportunidades para reportar sobre esses temas, aproveitando os especialistas para ajudar no combate a mentiras. Também aponta para oportunidades emergentes para os editores de saúde e bem-estar que oferecem reportagens confiáveis, baseadas em evidências.
  • Mobilize seu público e fortaleça a lealdade por meio de programas e eventos para membros ou assinantes, explorando as causas e os impactos da crise de desinformação.
  • Considere projetos de jornalismo colaborativo que alavancam a experiência e os recursos coletivos de outras pessoas e até mesmo públicos com conhecimento especializado.

Recursos para ajudar a implementar esta recomendação:

3. Pratique transparência e prestação de contas

O problema: As linhas entre fato, entretenimento, publicidade, fabricação e ficção estão cada vez mais embaçadas, minando a confiança no jornalismo.

  • Revele os processos de geração de reportagem levando seus públicos aos bastidores.
  • Diferencie claramente entre conteúdo publicitário, patrocinado e nativo. Não fique tentado a apagar as linhas para obter lucro de curta duração.
  • Interrogue os métodos dos seus anunciantes para evitar a contaminação por associação.

Recursos para ajudar a implementar esta recomendação:

Aprenda com este estudo de caso sobre uma publi-reportagem da Teen Vogue no Facebook que "fede a conteúdo patrocinado". Inicialmente, foi publicado sem assinatura de jornalista ou nota de aviso publicitário, e saiu pela culatra espetacularmente.

4. Una-se contra forças divisivas

O problema: O jornalismo é competitivo, mas a união da mídia e a colaboração profissional são essenciais para combater a crise global de desinformação. Ir contra a desinformação por si só não funcionará. Isso ocorre em parte porque os agentes de desinformação são eles próprios bem organizados e altamente colaborativos.

Contramedidas eficazes:

  • Mantenha-se "unido e mobilizado" para a batalha, o que Charles Grandmont, editor da L'actualité, nos disse ser a coisa mais importante para resolver o problema.
  • Reúna e compartilhe recursos para combater a desinformação (treinamento, conhecimento, ferramentas de verificação forense etc.) entre publicações, sempre que possível.
  • Experimente fazer investigações colaborativas.
  • Considere agregar recursos legais.
  • Consolide os esforços de lobby.
  • Compartilhe com colegas do setor quando é algo de ataques e também os métodos que você está usando para tentar revidar. Dessa maneira, outras pessoas aprenderão com seus erros e sucessos.
  • Faça um esforço específico para oferecer suporte a veículos muito pequenos, com capacidade limitada para se envolver com o problema, mas que precisam ser fortes elos na cadeia de informações credíveis.

Recursos para ajudar a implementar esta recomendação:

5. Você não está imune à violência online: esteja preparado para ameaças e riscos à segurança

O problema: A violência online contra jornalistas agora é um recurso bem documentado das campanhas de desinformação orquestradas e uma ferramenta usada de maneira mais ampla para abafar o jornalismo crítico. Os agentes de desinformação aprenderam que atacar diretamente jornalistas online pode ajudar suas tentativas de semear dúvidas, confusão e medo. Jornalistas do sexo feminino e pessoas que reportam desinformação estão sendo alvo de forma desproporcional. A violência pode se manifestar de várias maneiras: assédio e abuso de gênero, ameaças de violência sexual e física, ataques de segurança digital, incluindo doxxing, vigilância e mais. 

Contramedidas eficazes:

  • Tenha um plano para lidar com as ameaças feitas contra funcionários e colaboradores, incluindo notificar a polícia e aumentar a segurança online e offline (porque essas ameaças não permanecem no mundo digital).
  • Procure e forneça apoio psicológico nas semanas e meses após um ataque.
  • Garanta que jornalistas -- incluindo freelancers -- denunciem quaisquer ameaças ao editor.
  • Lembre aos funcionários os riscos de postar informações pessoais online.
  • Forneça treinamento e recursos focados na segurança digital, física e psicológica integrada, para permitir a autodefesa proativa.

Recursos para ajudar a implementar esta recomendação:

6.  Não aja como um avestruz ou correrá o risco de ser alvo de agentes de desinformação

O problema: Acreditar que sua publicação é de nicho demais, ou que seu público é pequeno demais para ser um alvo, ou limitar seu entendimento da crise de desinformação ao papel de bots de eleições estrangeiros: pensar assim torna você um alvo mais fácil.

Contramedidas eficazes: Todas as descritas acima.


Julie Posetti é diretora de pesquisa global do ICFJ. Alice Matthews é apresentadora do The Feed, um noticiário australiano sobre assuntos atuais e séries de televisão.

Imagem sob licença CC no Unsplash via CoWomen