Organizações de notícias recorrem ao Snapchat para alcançar novos públicos

por Clothilde Goujard
Nov 27, 2016 em Redes sociais

O Snapchat é cada vez mais o lugar onde o público jovem consome o seu conteúdo diário. Em abril de 2016, os usuários assistiram a um total de 10 bilhões de vídeos no Snapchat todos os dias. Esse número está crescendo à medida que mais pessoas estão se juntando e compartilhando instantâneos de suas vidas diárias.

Cuidado com a ideia de que Snapchat é apenas um lugar divertido para adolescentes compartilharem vídeos de si mesmos com orelhas de cachorro. O aplicativo está se revelando uma boa maneira para organizações de notícias e jornalistas se conectarem com seus públicos-alvo.

A revista New Yorker regularmente apresenta e explica sua cobertura semanal de forma criativa. Na BBC, o correspondente John Sweeney imergiu seus usuários na crise dos refugiados; e Ayman Oghanna transmitiu por Snapchat de Mosul quando as forças iraquianas retornaram à cidade. Na Índia, Yusuf Omar, do Hindustan Times, entrevistou sobreviventes de estupro usando filtros para que permanecessem anônimos.

Hochkant, ou "vertical" em alemão, é uma nova iniciativa do Snapchat dirigida a adolescentes da RBB, uma emissora pública alemã. O mandato da RBB é servir notícias a todos os cidadãos, mas estava ciente de que muitos jovens não assistem mais à TV.

Todas as manhãs, Hochkant dá aos seus usuários as quatro ou cinco notícias mais relevantes. Mais tarde, pela manhã, a equipe editorial produz um noticiário especial com um de seus três apresentadores, incluindo Eva Schulz.

"Eu gosto de experimentar com este modo de contar histórias. Eu fiz isso antes de me juntar ao canal e acho que é muito emocionante", ela diz sobre seu trabalho.

Mesmo se seu público está principalmente na Alemanha -- embora seja difícil saber por causa das métricas limitadas do Snapchat -- ela transmitiu de lugares como a Áustria e os Estados Unidos durante as últimas semanas da campanha presidencial. Mas a falta de proximidade geográfica com seu público não é um problema para Hochkant.

"Desde o início, pensamos que, para alcançar a juventude nestes dias, você tem que fazer isso de uma maneira pessoal", diz ela. Recentemente, um membro da audiência chamou um dos apresentadores "quase como um irmão mais velho" em uma crítica do Hochkant em um jornal alemão local. "Esse é o elogio perfeito se parecemos com seus irmãos mais velhos e não com seus pais ou algum âncora esquisito de notícia", insiste Schulz.

Muitas organizações de notícias têm tentado ser menos formais, especialmente nas mídias sociais. NowThis News viu a oportunidade de fornecer informações de forma mais visual, social e informal há vários anos. Quando Snapchat lançou seu recurso de história em 2013, NowThis embarcou nele na primeira semana. Agora é uma das 22 editoras do Snapchat Discover.

Mas ver o que funciona em histórias do Snapchat pode ser complicado porque o aplicativo não oferece muitas métricas para os usuários.

"Tem havido muito debate entre as organizações de mídia que usam as histórias da Snapchat sobre como acompanhar melhor o engajamento", diz Sarah Frank, produtora executiva do NowThis News. NowThis usa dois canais diferentes: o recurso de história regular para oferecer um olhar dos bastidores das notícias, e um canal "Discover", que oferece um painel com mais métricas.

A maioria das organizações usa histórias e tem que depender dos números abertos de snaps individuais e calcular manualmente a taxa de conclusão. Eles também podem acompanhar capturas de tela e o número de pessoas que retornam e se envolvem na conversa. Depois de uma matéria sobre estresse de estudantes, Schulz recebeu vários instantâneos de estudantes que explicaram como lidavam com esse problema.

"Acho isso muito fascinante e interessante também, porque nós realmente temos que ser inovadores nos processos, bem como medições", diz Schulz. "Como você mede o sucesso no Snapchat quando nem sequer consegue estatísticas adequadas?"

Depois de coletar mais de dois anos de dados sobre o Snapchat, Frank tem uma ideia muito mais clara.

"Você está buscando histórias que façam com que as pessoas queiram agir de alguma forma, sintam algo e queiram pegar, gravar e enviar para seus amigos", diz ela.

No entanto, ela enfatiza a importância de verificar a confiabilidade e a precisão das informações antes de postar com rapidez, porque "assim que você clicar em 'postar', uma, 10 ou cem mil pessoas podem ver isso."

Os jornalistas do Hochkant trabalham com roteiros, exceto quando estão no campo por causa da necessidade de "processo de controle", especialmente porque fazem parte de uma emissora pública. Embora alguns possam pensar que a necessidade de maior autonomia e responsabilidade do Snapchat é nova para o jornalismo, Frank usa um exemplo do jornalismo tradicional: televisão ao vivo.

"Acho que as pessoas simplesmente não pensam que é o mesmo, porque muito do que você vê no Snapchat é muito improvisado ou focado em celebridades ou não [é] super bem produzido ou [não é] jornalismo. E tudo bem porque o Snapchat é grande o suficiente para ter espaço para todos os tipos de histórias", diz ela. A cobertura eleitoral do NowThis, por exemplo, foi muito bem sucedida, e eles começaram um canal que é dedicado apenas à cobertura pós-eleitoral.

Mas explicar completamente problemas complexos pode ser problemático por causa do design da plataforma, com snaps que duram até 10 segundos. Schulz diz que ela teve que aprender a "entender os seus argumentos, a falar sobre um pensamento ou ideia em um piscar de olhos e depois fazer uma história sobre isso."

E às vezes, ela sofre.

"Como você explica a TPP [Parceria Transpacífico] no Snapchat? É difícil", diz ela.

Imagem principal sob licença CC no Flickr via Global Panorama