O problema do racismo na mídia europeia

porChristina Lee
Jun 29, 2020 em Diversidade
Protestos sobre Vidas Negras Importam em Londres

Enquanto o assassinato de George Floyd e o subsequente movimento de protesto em massa nos EUA levaram a um acerto de contas do racismo institucional na mídia, a situação na Europa continua na mesma.

Na semana passada, a emissora alemã ARD organizou um painel só de especialistas brancos do sexo masculino para discutir racismo e violência policial, incluindo um colunista conhecido por comentários como “Medo do coronavírus: sou racista se não quero me sentar ao lado de chineses no metrô?”. Na Dinamarca, uma política governamental de punição para pessoas que vivem em guetos de imigrantes definidos pelo Estado ganha mais cobertura no exterior do que no resto da Europa.

O papel da mídia é ser imparcial no exame da sociedade e de si mesmo, inclusive quando se trata de desigualdade e discriminação. Por que a mídia europeia não respondeu a esse desafio?

[Leia mais: Dicas para cobrir os protestos contra a violência policial nos EUA e ao redor do mundo]

Falta de responsabilidade

Assim como a cultura da misoginia na redação que se fez pública durante o movimento #MeToo, o racismo contra jornalistas negros, indígenas e outras pessoas não brancas expulsou muitas pessoas da profissão. Um estudo de 2016 na Inglaterra mostrou que a indústria de notícias do país era 94% branca, enquanto na Alemanha, onde 25% das pessoas tem pelo menos um do pai ou mãe migrante, isso é válido para apenas 6% dos editores, de acordo com um estudo de 2020 da Neue Deutsche Mediamacher.

"Por muitos anos, tive muitas conversas com pessoas que dizem que suas carreiras foram arruinadas ou reduzidas pelo racismo nas redações e na mídia deste país", diz a jornalista britânica Marverine Cole, diretora premiada do documentário de rádio da BBC “Black Girls Don’t Cry” [Meninas Negras Não Choram] e diretora de jornalismo da Universidade da Cidade de Birmingham. “Há histórias horríveis na mídia eletrônica e impressa."

Por exemplo, na Bélgica, a jornalista Cécile Djunga viralizou um vídeo em que falou do racismo que enfrentou como uma das poucas vozes negras na mídia do país. No ano passado, na Alemanha, funcionários da Deutsche Welle, uma emissora financiada pelo Estado, se queixaram de uma cultura de racismo e assédio na redação. A DW negou essa alegação, o que para Cole indica uma falta de reconhecimento e responsabilidade por parte das organizações de notícias.

"Muitas dessas organizações escondem os agressores", diz Cole. “Conheço casos em que [os agressores] foram transferidos para outra parte do país e continuam trabalhando. E não são punidos."

Em um campo em que os empregos são escassos e muitas pessoas trabalham com contratos autônomos, é arriscado avançar e potencialmente perder empregos ou tarefas por denunciar casos de discriminação.

[Leia mais: Cobrindo os protestos nos EUA? Forneça reportagens imparciais]

Seleção de palavras

A ausência de consequências para o comportamento racista que ocorre nos bastidores e a falta de pessoas não brancas em posições de poder são refletidas em uma imprensa que frequentemente repete estereótipos racistas e desumanizadores, ou falha em explicar o contexto histórico.

"A mídia não chama o racismo de institucional", diz Miriam Aced, diretora assistente do Centro de Justiça Intersecional de Berlim. “É visto como algo que a pessoa A faz com a pessoa B intencionalmente e com má vontade. O fato de o racismo ser estrutural, histórico e institucional não é compreendido."

Mas o perfil racial, a violência policial e os crimes de ódio continuam sendo questões importantes em muitos países europeus, direcionados contra pessoas percebidas como estrangeiros. Na França, por exemplo, um novo relatório da Human Rights Watch documenta como os jovens negros e árabes são submetidos a frequentes abusos policiais e, na Europa, a pandemia de COVID-19 expôs perfis raciais generalizados e perseguição policial em pelo menos 12 países europeus, de acordo com um novo relatório da Anistia Internacional.

"A narrativa que vemos é que o racismo foi algo que aconteceu no passado, que foi um evento estático como o colonialismo, o Holocausto ou o tráfico de escravos, mas não há entendimento de que tenha continuidade", diz Aced.

Não apenas a mídia deixa de fora o contexto histórico, mas a linguagem que eles usam realmente tem grandes consequências na percepção do público sobre os eventos atuais, como a crise dos refugiados, que veio à tona em 2015. “Muita mídia, principalmente em 2015 mas até hoje, em sua cobertura e nas fotos e na linguagem que usaram, talvez inconscientemente, alimentaram uma narrativa de invasão e medo”, diz Judith Sunderland, diretora adjunta da Europa e Ásia Central do Human Rights Watch, em Milão. 

Ela acrescenta que o uso indevido de expressões como "imigrantes ilegais" para descrever pessoas que procuram asilo, bem como um enquadramento de pessoas que migram como tendo valores culturais muito diferentes, produziu uma cobertura que explica a migração como um cenário de emergência ameaçador, e não um fenômeno cotidiano que ocorre na Europa há centenas de anos.

Os ativistas hesitaram em ressaltar que a discussão da mídia sobre a migração é racista por medo de que essa redação possa fazer com que as pessoas do meio político se desliguem do tema ou até se voltem para a direita.

"Agora o debate foi aberto", diz Sunderland depois que os protestos generalizados contra a brutalidade policial surgiram nos EUA e começaram conversas sobre raça em redações em todo o mundo. Ela publicou recentemente um artigo comparando mortes no mar no Mediterrâneo com mortes por violência policial nos EUA.

Criando novos espaços

O setor de jornalismo na Europa tem alguns trabalhos importantes a serem feitos para criar redações mais inclusivas e cobertura mais abrangente, mas nem todos os jornalistas estão dispostos a esperar que as redações resolvam esses problemas.

"O que é bonito é que algumas pessoas que trabalharam nesses lugares e foram expulsas ou que não tiveram uma ótima experiência estão criando seus próprios espaços digitais excelentes, como o Gal Dem, Black Ballad e Melanmag", diz Cole. "Eles são de vozes jovens, vibrantes e emocionantes que pensaram: 'Sabe de uma coisa? Nós simplesmente vamos fazer nossas próprias coisas."

"Não podemos mais esperar que essas instituições falem por nós, precisamos contar nossas histórias", acrescenta Aced.

Mas esses projetos exigem recursos e fundos para serem construídos: fundos que costumam ir para redações maiores. Muitas dos maiores subsídios de projetos são para editores já estabelecidos, com um histórico comprovado, embora isso possa estar mudando. Enquanto uma olhada nos recipientes do Digital News Innovation Fund do Google mostre nomes bem estabelecidos como Der Spiegel, de Volkskrant e Il Sole 24 Ore, também existem fundos para "protótipos" experimentando novos modelos. Mas, para ter o conhecimento e as habilidades necessárias para se candidatar e receber esses subsídios, é bastante útil já ter uma experiência de renome e sua rede.

Para obter financiamento para um novo projeto de jornalismo, receber um subsídio de jornalismo investigativo ou ser publicado em um grande jornal, as pessoas nas funções de decisão são na maioria brancas e estão procurando jornalistas que já se estabeleceram nessas mesmas redes de grandes nomes, compostas principalmente por jornalistas brancos. Pode ser muito difícil para os recém-chegados sem reconhecimento de nome conseguir algo, e fica muito pior quando a discriminação entra em cena.

Para criar condições equitativas, a elite da mídia da Europa precisa dar um passo atrás e considerar como o racismo institucional, na sociedade e em suas próprias redações, moldou quais histórias foram contadas, como são contadas e quem é confiável para contá-las.


Christina Lee é uma escritora e editora freelance, que lidera a Ambassador Network do Hostwriter.

Imagem sob licença CC no Unsplash via Ehimetalor Akhere Unuabona