O poder suave pode combater a desinformação?

porRasmus Kleis Nielsen
Mar 20, 2018 em Fact-checking e verificação

Em muitos países nos últimos anos, o processo político e a coesão social têm sido ameaçados pelas várias formas de desinformação, às vezes enganosas e inadequadamente chamadas de "notícia falsa". A desinformação politicamente motivada e com fins lucrativos é atribuída como um dos fatores da decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia e a eleição de Donald Trump como presidente dos EUA.

A desinformação assume muitas formas e é conduzida por muitos agentes. Nações estrangeiras às vezes tentam subverter os processos políticos de outros países. Há pessoas que publicam informações falsas e fabricadas que se disfarçam de notícia com fins lucrativos. Políticos nacionais mentem para seu próprio povo e, às vezes, essas mentiras são ampliadas pelos meios de comunicação, ativistas hiperpartidários ou disseminadas por toda a rede social e outras plataformas.

Estes diferentes problemas são sérios e muitas pessoas recorrem às autoridades públicas para enfrentá-los. A questão é como? Apenas uma pequena parte do que encontramos online é claramente demonstrável como simplesmente verdadeiro ou falso, e muito do que as pessoas comuns pensam como "notícia falsa" é simplesmente jornalismo de má qualidade ou debate político partidário. Em sociedades diversas, onde discordamos profundamente de muitas questões importantes, a desinformação é difícil de definir de forma clara e objetiva. Como resultado, as respostas governamentais são difíceis de guiar com precisão.

Apesar disso, alguns países estão buscando regular o conteúdo, tentando proibir "notícias falsas". Outros apelam às forças de segurança, inclusive militares, para combater a desinformação. Estas são respostas de "poder duro", baseado na capacidade do Estado de comandar e coagir diretamente. Também são muitas vezes respostas problemáticas, especialmente quando o alvo permanece pouco claro.

A regulação do conteúdo que é muitas vezes parte do debate político pode ser vista como censura e ir contra com a liberdade de expressão. Pedir ao poder executivo para policiar diretamente um discurso aceitável está em tensão direta com o direito fundamental dos cidadãos de receber e transmitir informações e pontos de vista sem interferência das autoridades públicas. Para exigir que as empresas de tecnologia policiem o que dizem em suas plataformas sem definir claramente como exatamente deveriam fazer isso (e a quem os cidadãos podem recorrer) é simplesmente privatizar o problema.

O risco é que a cura pode ser pior do que a doença.

Poder: duro ou suave

Felizmente, a alternativa às respostas de "poder duro" não é fazer nada: mesmo nos Estados Unidos, poucos acreditam que o mercado sozinho solucionará o problema. Claramente, devemos agir para proteger nossas sociedades abertas e nossos ambientes de mídia permissivos e plurais contra aqueles que querem abusá-los e miná-los. A alternativa às respostas de poder duro é uma abordagem de poder suave.

O termo "soft power" [poder suave] foi cunhado pelo estudioso norte-americano de relações internacionais, Joseph Nye, para identificar tipos de poder que visam criar uma situação em que uma série de atores diferentes cooperam para resolver um problema, muitas vezes através de ações multilaterais. Isso contrasta com as formas mais antigas de "poder duro" [hard power] mais diretamente aplicadas, muitas vezes unilateralmente.

Nos assuntos internacionais, o poder suave está construindo uma coalizão para impedir o Irã de desenvolver armas nucleares. Entediante e complexo, sim, mas até agora bem sucedido. O poder duro é a invasão do Iraque: mais dramático e imediatamente gratificante para aqueles que acreditam fortemente que "algo deve ser feito", mas o dano colateral é muito maior e o sucesso não é mais certo.

O poder duro força os atores a fazer (ou não fazer) coisas específicas. O poder suave os recompensa pela colaboração construtiva. Como Nye apontou, em um mundo cada vez mais complexo, caracterizado por uma maior interdependência, o poder suave é cada vez mais central na forma como abordamos os problemas mais importantes do nosso tempo: mudanças climáticas, migração e proliferação nuclear.

Hoje, a Europa tem a chance de mostrar que o poder suave também fornece uma resposta efetiva à desinformação. Tentar definir e proibir a "desinformação" seria problemático. Uma abordagem melhor é que a Comissão Europeia e os Estados membros da UE incentivem e apoiem a colaboração entre as diferentes partes interessadas que são desafiadas por diferentes problemas de desinformação. Isto deve começar com um compromisso conjunto com a liberdade de expressão e o direito de receber e transmitir informações e opiniões diversas.

Trabalhando em conjunto

Se as organizações da sociedade civil, mídias de notícias, pesquisadores e empresas de tecnologia trabalharem juntas, podemos aumentar a resiliência à desinformação investindo na literacia de mídia e informação, aumentando o fornecimento de informações credíveis, compreendendo melhor as ameaças em questão, limitando a disseminação de informações danosas online e ajudando as pessoas a encontrar notícias de qualidade.

Enquanto isso, o papel de governos e instituições, como a Comissão Europeia, em uma abordagem de poder suave deve ser incentivar e apoiar a colaboração para combater a desinformação e aumentar a resiliência: não tentar usar o poder duro para reprimir diretamente um problema mal definido ou pouco claro.

Como muitas outras estratégias de poder suave, isso parece complexo e não gera manchetes como ações unilaterais, como o compromisso do Congresso de investir US$120 milhões para combater a propaganda russa ou as autoridades públicas realizarem sua própria verificação de fato.

Para uma abordagem de poder suave funcionar no combate à desinformação, é fundamental que todas as partes interessadas trabalhem juntas e que as autoridades públicas se concentrem principalmente em recompensar essa colaboração. Este é precisamente o tipo de abordagem que o recente relatório da CE sobre desinformação requer.

Se falhar, as respostas mais duras podem ser as únicas. Mas esperamos que não.

Rasmus Kleis Nielsen é diretor de pesquisa do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo em Oxford e membro do Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre notícias falsas que produziram o relatório da CE. Este artigo foi originalmente publicado em The Conversationaqui.

Este artigo foi publicado no Nieman Lab e é reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem sob licença CC no Flickr via Hamza Butt